
Caminhavamos por Divan Yolo, a rua que sai da Praça de Sultanahmet, e segue em direcção aos bazares, é a antiga espinha dorsal da Istambul da época bizantina e otomana. Hoje plena de lojas, cafés e casas de câmbio. Mustafa queria apresentar-me a Roxelane que tinha uma escola de danças tradicionais turcas, e cuja família tinha um dos mais antigos estabelecimentos comerciais de venda e fabrico de tapetes. Entrámos num vetusto espaço, com arcadas e paredes talvez do tempo de Justiniano, salas contínuas adornadas com uma profusão de tapetes de várias cores e desenhos. Nisan, o patriarca da família, veio receber-nos, tinha um porte nobre e talvez alguns traços escandinavos dos antigos Varegues guardas dos imperadores. Diz-nos : " A história do Tapete de "Nós", na Turquia islâmica, iniciou-se com a chegada dos seljúcidas. Alguns exemplares datam do século XIII. Apresentam como motivos de ornamento - nesta altura deslocámo-nos para uma sala abobadada, onde um soberbo tapete com vários metros cobria o centro da parede -, continuou Nisan : " aqui estão vários motivos dessa escola; estrelas, losangos, formas geométricas, pássaros, dragões. A cultura islâmica teve uma influência profunda sobre a história dos tapetes. Os otomanos conformando-se estritamente com as práticas sunitas, interditaram toda e qualquer representação de s

eres vivos, mesmo imaginários. A decoração encontra-se limitada às formas geométricas, às flores, às árvores estilizadas, aos nichos de pedra. Ao fundo ouvia-se o labor dos teares num local apropriado para aprendizagem e persevação desta arte secular. Afagámos aquela superfície de muitas cores e desenhos onde o encadeado dos motivos nascia como de um só entrelaçar se fizesse. Nisan sorriu : " A partir do século XVI, o leque dos motivos utilizados alargou-se e passou a incluir espiral, nuvens, rosetas, palmitos. O principal centro de fabrico situava-se nesta época em Usak. Arabescos formando uma sequência de losangos, ziguezagues, entrelaçados, são muito característicos destes tapetes raros, como o que está na nossa frente. No entanto ouve várias regiões do império otomano que se especializaram em produzir os seus tapetes dando-lhe uma marca muito própria. Os tapetes do Pérgamo, de veludo espesso e brilhante; Os tapetes de Milas, muito reputados historicamente como tapetes para orações, com cores muito claras e motivos simples e grandes; os tapetes de Ghiordes, cidade conhecida por ter dado o seu nome ao nó turco, perto do local onde Alexandre desfez o nó górdio; os tapetes de Kula, muito parecidos com os de Ghiordes, com a procura secular de servirem para cobrir os túmulos dos sultões e das famílias aristocratas; os tapetes de Ladik, ao norte de Konya, que marcam a passagem dos motivos puramente geométricos para os motivos florais, tulipas; os tapetes de Sivas, na tradição dos tapetes persas clássicos, com cores mais claras; os tapetes de Kayseri, do mesmo género dos de Sivas, mas, com vermelhos e azuis luminosos sobre fundo claro, predominando em muitos deles a seda; os tapetes de Isparta que são de veludo espesso que esconde a visibilidade dos nós; os tapetes de Hereke em lã ou seda. No século XIX, estes tapetes eram encomenda constante do sultão, e um grande número foi oferecido a cabeças coroadas de toda a Europa; os tapetes Nómadas, que são testemunhos do artesanato nómada, apresentando abundantes desenhos simples e geométricos, sendo as suas tintas de origem vegetal, resultando cores de todas as nuançes; os tapetes de KARS enlaçados pelas tribos caucassianas do nordeste da Anatólia, sendo muito raros pelos seus apurados motivos geométricos, Roxelane tinha uma especial predilecção pela sua delicada manufactura. E Nisan mostrava-nos todas estas preciosidades com raro entusiasmo e saber. "Ainda temos os Kilims, os tapetes de tecido, mais populares nas casas turcas. Os seus desenhos geométricos e as suas cores atractivas conferem-lhes uma grande originalidade - Mustafa tinha em sua casa, no lugar de mais convivência com os amigos, vários destes tapetes - , Nisan desdobra agora alguns: " desde há muito séculos que a tecelagem dos tapetes é uma arte executada pelas mulheres, Esta tradição mantém-se nos dias de hoje na Turquia; em milhares de aldeias, as raparigas jovens aprendem a dar nós nos tapetes, essa particularidade que reside nos tapetes turcos e que define o tipo de nós empregues; por exemplo em Ghiordes envolvem-se dois fios em cadeia, de forma que as duas extremidades do nó passem entre esses fios. O par de fios em cadeia é atado da mesma forma e assim sucessivamente, o que torna o esquema regular: duas extremidades atadas, alternando com dois fios da cadeia. Sendo depois disto que passa o fio de trama, e depois se faz de novo uma nova fila de nós."
Finalizámos na oficina de tapeçarias, onde todo um grande espaço era ocupado por inúmeros teares. Gente de várias idades dava movimento àqueles tantãns manuseadores que iam passando do branco às mais belas formas e cores que nasciam em desenhos variados.
Nisan oferece-nos um verdadeiro café turco, que ele mesmo prepara, é um enlevo de cortezia, muito ritualizado, para os distintos visitantes que recebe. O café turco é servido pouco açucarado( "az"), meio açucarado ( " orta"), açucarado ( " seker") ou sem açucar (" sade") e acompanhado de um copo de água, esta muito especial, vinda de um nascente que alimentava, também, a cisterna de Yerebatam. É um momento solene e cerimonial que estabelece algum recolhimento, é da tradição beber este genuíno café turco em pequenos goles, sorvê-lo e aspirá-lo. Este é o " Keyf", a arte de colher o instante que passa. Uma grande bandeja artisticamente trabalhada continha folhados cobertos de xarope de açucar ou mel, recheados de amêndoas, noz ou pistachio cortados em losangos e em triângulos, eram os ( baklava); a seu lado os ( muhallebi) doces açucarados de leite e arroz, fécula ou frutos.

Num enaltecimento difícil de controlar, fico-me pelo café meio açucarado ( "az"), encontrando, assim, o equilibrio perfeito na junção das duas coisas.
Roxelane chega. Cumprimenta o seu vetusto parente, sorri para Mustafa e todos nós. É de uma beleza cativante, um corpo palpitante e ginasticado de se entregar aos volteios da dança, um rosto perfeito emoldurado por um profuso cabelo dum ruivo escuro, caído sobre os ombros em cascatas naturais. " Pensei na herança caucasiana, no " imposto de sangue" a entrega obrigatória de filhos e filhas de cristãos para servirem " a Porta"; eles os jovens para a apredizagem da futura guarda do sultão , os Janízaros; elas para o Harém. Lembro-me de Amhet me ter dito : " que apesar de o Império Otomano ter adotado oficialmente o islamisno Sunita, os janízaros eram adeptos de uma ordem dervixe chamada bektashi, em alusão ao seu criador Hajji Bektash. Reunia elementos muçulmanos e cristãos; permitia o consumo de bebidas alcoólicas e a participação de mulheres sem véus. Quando em serviço, no entanto, eram rigorosamente disciplinados e proibidos de casar. Os janízaros ainda tinha o hábito de levar consigo símbolos ou citações cristãs para a batalha, com o consentimento dos seus superiores.
Sou desperto por um torpor invulgar, naquela mão que cinjo: um perfume milenar corre entre aquelas pequeninas veias cor lazúli. Sorri e diz-me que me vai mostrar todos os recantos do Topkapi, um a um: fico um pouco enebriado com a promessa. Roxelana vai-me mostrar o palácio onde a mulher de quem tem o nome, se destacou e ganhou o apelido de " Khourrem" ( aquela que sorri) e única esposa consentida e oficializada do sultão Suleimão. Agradeço, e fico a pensar: " já não é hoje que vamos à vetusta e invulgar livraria de Ameht".
A noite chega. Na varanda do meu lugar de recolhimento olho o luar pleno. Bizâncio, Constantinopla, Istambul, três nomes imemoriais no tempo para a mesma cidade; Istambul desde 1453, esta imensa metrópole que eu olhava serenada no manto da noite, envolvendo-se num calmo adormecimento aparente. Ali, no mais alto de um edifício no bairro Sultanahmet, dáva-me ao horizonte com a vontade de um etilita perpétuo, abraçando a transparente oferta de uma noite invulgar. Os inúmeros monumentos que a minha vista abarcava mostravam-se em luz e sombras como se planassem numa outra dimensão. Os minaretes apontavam-se às galáxias perpétuando a aliança sagrada e o engenho dos homens. Do outro lado a Torre de Galata circundava-se de envolvências de nevoado tule. A ponte do mesmo nome, assim como a de Ataturk, repiravam de calcorreio breve. Antes do nascer do sol. Europa e Ásia ouviriam milhões de seres; massa humana que ia e vinha dum continente ao outro. Gentes que sofriam, rezavam, comiam, tinham fome, amavam: mostrando alegrias e tristezas e o destino de um deambular trepidante.
Na serenidade da água lá longe, o Mar da Mármara enfeitava-se num luzeiro de miríades nas pequenas embarcações. A lua plena lembrava Hécate uma das padroeiras da cidade, a que rasgou breves trevas, clareando protectoramente, avisando os bisantinos, nesse mesmo ano de 340, quando o exército de Filipe da Macedónia estava nos contrafortes das muralhas. Da defesa e repelir dos sitiantes ficou o reconhecimento à deusa e foi cunhada moeda com o crescente e a estrela, os seus símbolos votivos que perpétuaram até aos nossos dias.
Escrevo no meu diário de apontamentos estas experiências do dia. Verifico o muito que há ainda para recolha em relação aos manuscritos antigos e mapas.
Tenho esperança que Ameht me fale da cidade subterrânea de Derinkuyu, na Capadócia, chamada o " Poço Profundo", que se pensa poderá ter 4.000 anos. Se é verdade que lá vive um santo e velho Sufi, o único que conhece o segredo e o paradeiro do mais misterioso, terrível e temido dos livros, o " Necronomicon" escrito por Abdul Alhazred.
( continua )
José Movilha