Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012

NOS TRILHOS DE " SEARA DE VENTO" - VALE A PENA LER MANUEL DA FONSECA


Porque destino, nesse dia, me meti a andar à procura do antigo trilho dos contrabandistas na senda de Paymongo. A névoa a cercar-me, densa atemorizante. Avassaladora de afagar os campos como fumo cinzento dando-se de candeio indicador ao sinalizar do pio dos tordos envolvidos em voos esparsos e invisíveis no cavername do olival. De tudo, deu-me a madrugada para saber de coisas trágicas, como a do sítio onde o Joaquim Valmurano tinha lançado a corda para se enforcar. E a Amanda Carrusca tinha dado punhadas de justiça no peito das bestas da Guarda Republicana, quando estes levaram a Júlia para a morte.
" Se ao menos encontrasse a Mariana, ela era a mais esclarecida de todos os Palmas; queria que os trabalhadores se unissem, fizessem valer os seus direitos por melhores salários e melhores condições de vida, quantas coisas me poderia contar, sobretudo das maldades perpetradas que o latifundiário Elias Sobral fez !" - Pensava em tudo isto quando avistei a venda que me tinham dito ser do Mira. Quando ali cheguei já o Mira me aguardava, era um trambalazana, de manápulas que teriam metido medo às gadanhas noutro tempo. Ficando-se hoje por restos do porte hercúleo que teria dado guarida ao contrabando e aos aliciamentos do Galrito, do Corona e do Banaíça. Postava-se um pouco desengonçado amaneirando os umbrais de polimento. Na virada do corpo o ostento das calças de saragoça de fundilhos remendados e colete violáceo do transporte dos canjirões do vinho.
- Então vossemecê é que anda por aí a querer saber de tragédias há muito acontecidas nestes cerros?... Tem dúvidas que o Palma tinha razão ? Que foi vítima de uma acusação injusta de roubo de cereais, um ardil do velhaco do Elias Sobral e do sargento Gil e companhia de arvorados ?...Que o Palma acossado e banido do pão que ao lar era justeza, foi-se a casa do lavrador e atacou estes pantomineiros a tiro, entrincheirando-se depois em casa, resistindo como um valente de caçadeira em punho até esta se pôr em brasa de tantos disparos, tendo ainda tempo de mandar dois graduados para o hospital!... Só apanharam o homem quando a casa ficou toda rasa de balas, usando uma metralhadora, e já vinham a caminho os soldados do 17 de Beja !
- Acredito em tudo isso, mas gostava de saber mais ! - Disse eu, tocado como se tivesse ouvido esta saga em folhetos de irmandade feirante. Voltando o Mira numa certeza de quem sabe do que fala:
- Saber mais, só tem de ler o livro do senhor Manuel da Fonseca, de nome " Seara de Vento". Está lá tudo, todo este drama, esta tragédia, tão bem contada e real de palavras verdadeiras como hoje já não se escreve !
Abalei. O canito dos Valmurados, o Ardila, pressente-me de boas intenções. Colasse-me às passadas, abre-me um rasto ao valado, ostentando num sacudir de ladinagem os ossos salientes de pedir. Dá uns latidos ecoados que são buzinas na bruma. Passo ao pé de uma casa descarnada pelos anos, os escombros ainda mostram as iras da metralha, montoiros adormecidos de heras vadias e meimendros esquecidos de terreiro de encruzilhada. A cova como berço musgoso lembra o aportar de invalidez do Bento e dos seus lamentos inteligíveis " Oh, " mha mã"!... " Oh, 'mha mã'! O Ardila lembra-se do farejo das migalhas, de algum osso perdido entre caliça bafienta e das alçadas punitivas do Bento. Do cerro vou ao Alto da Lage, ainda tenho de passar por Vales Mortos. O vento lembra-se da marca daqueles dias antigos, envolve-se agora em farrapos da bruma da tarde; como num lamento perpétuo aviva vozes que viveram naqueles lugares. Vozes tão fortes de justeza da terra, vozes que me parecem nítidas de proclamares, vozes como a de Amanda Carrusca, que acredito ouvi chamar dizendo-me: « Digam à minha neta! Digam-lhe que ela tem razão! Um homem só não pode nada.»

José Movilha

Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2012

Filmes da vida real - Através da noite sem chegar ao dia



Alfredo já tinha visto 22 vezes o filme de Woody Allen, sobre a vida do guitarrista de jazz Emmett Ray. A vida deste personagem era de certo modo émula da sua. Ele também tinha sido guitarrista irresponsável, arrogante, desagradável, que gastava o que não podia e abusava do àlcool. Também se julgava o melhor guitarrista do mundo, tinha chegado a tocar na célebre orquestra ligeira " Califórnia", e todos lhe rendiam elogios à ligeireza do dedilhar e à paixão que punha nos blues. Como na fita, tinha uma namorada muda de nascença, que sempre estava pronta a aturá-lo nas suas ressacas neurasténicas. Era tanta a identidade com o ídolo que Alfredo também tinha a paixão pelos comboios; olhava o capricho das agulhas a abrirem e fecharem, mudares de destinos e direcções; os sons na noite como se fora acompanhamento feérico de qualquer pauta por escrever. Uma noite mais, foi aos comboios: com uma companhia ocasional de bar, que escorraçou. Uma mulher dificilmente compreenderia aquela paixão. Sozinho bebeu até não poder mais. Num acesso de ira destruiu o objecto do seu virtuosismo. Nunca mais tocaria para ninguém. Num ápice viera-lhe à memória sons de outrora e meteu-se num cambaleio trauteado na noite. Pautava-se por travessões intermináveis, como se fossem trastes de um braço que não podia tanger. Os sons levavam-no a névoas perdidas e a orquestras férreas onde mostraria, pensou, de novo quem era. De repente o eco recolheu-se, Alfredo pensou que era só uma pausa entre dois números, alisou a melena, ainda quis marcar o ritmo de "I'II See You In My Dreams", a voz saiu-lhe velada e rouca, medrosa do que aí vinha. Quis ser lesto, surpreender, como sempre fizera;mas, não fez o improviso a tempo. A manhã viu-o hirto de dedilhares, mãos enclavinhadas como escala abandonada. Não veria o " Sweet and Lowdown" pela vigésima terceira vez.

José Movilha

Segunda-feira, 17 de Outubro de 2011

VISITA À SUBLIME PORTA - TERCEIRA PARTE

Do alto daquela varanda torno-me mago de descobrir. Os jinnis mostram-me o passado e o presente, numa paleta do tempo imagino milhares de seres que edificaram tantas e colossais obras. Aquelas muralhas mandadas fazer por Teodósio, estendendo-se por quilómetros, muro imemorial que ainda hoje dá forma à cidade na sua extensão até ao Corno de Ouro. Toda a população mobilizada, milhares de carregadores, canteiros, ladrilhadores, pedreiros. As facções do Hipódromo, os Verdes e Azuis contribuiram com 16 mil homens. O primeiro bastião com a expessura de quatro metros armonizava-se nas curvas das colinas. A sua resistência aos séculos é tal, que ainda hoje se consegue discernir toda a arquitectura da fortificação; uma segunda muralha menos alta ergue-se após terrapleno a que se chama períbolo. Logo após um segundo períbolo onde estagnavam as águas pluviais que se podiam aumentar como recurso de defesa, recorrendo-se a uma cisterna de eclusas. Uma terceira muralha chamada contra -escarpa, completava o conjunto.


Tudo comunicava entre si nos planos militares por um bem concebido plano de portas e poternas. Portas que assistiram a virar de séculos, a magnificências régias, a procissões de relíquias votivas, peregrinações ferverosas, dezenas de etronizações de Imperadores Bizantinos, embaixadas luzidas em busca da Sublime Porta. Pedras que também ouviram écos de gritos feros, fúrias cerceadoras do invasor; revoltas cruéis no Circo, em busca do poder. Ao brado Janízaro que obedecia e levava a afogar no Bósforo; à destruição impiedosa, ao saque, ao sangue dos inocentes; à mais horrível matança e pilhagem perpetrada pelos irmãos do mesmo credo, cuja missão era o caminho Jerusalém, de protejer a Cruz e o resgatar do Santo Lenho.


Movimento-me aspirando um perfume estranho, uma maresia branda vem da Ilha dos Pássaros, avançando pelo mar da Marmara, como as velas das naus de Byzas. Resguarda-se no ameno do aportar dourado como se fora tecer de " Kilims" dando-se aos braços do amuralhado do Topkapi. É tudo mais visivel a prescutos quando subo ao mais alto do torreão. No outro lado, onde é nome Ásia, é tal a limpidez da noite que se vê o brilho candeio e bruxuleante do aglomerado de Uskudar. O Palácio de Dolmabahçe mostra-se numa plenitude de vivos recortes. Construido em 1853, albergou o último sultanato até ao advento da República em 1923. O tempo parece parar nestas sete colinas que tanto lembram Lisboa. Por momentos dou-me numa dualidade recordativa como se estivesse na Olissipo e o Tagus fosse gémeo do Bósforo.


Nesta noite invulgar da pujança de Silene, centelhas de lazuli abraçavam-se nos minaretes da Mesquita Azul. O Crescente coroando a cúpula lembrava Sinan e o seu discípulo Mehmet Aga. Era do pátio desta mesquita do Sultão Ahmet que partia todos os anos a caravana sagrada dos peregrinos para Meca. Daqui saía um camelo sagrado, que se dizia descendente de um animal que pertencera ao Profeta. Ricamente ajaezado com o Mahamal, uma peça de tecido negro bordado a ouro, que o sultão enviava para cobrir a Ka'ba; caminhava, o animal, na frente da procissão que descia até ao Bósforo.


Os eunucos, os janízaros, os dervixes seguiam o camelo, logo atrás sete mulas carregadas de presentes para o emir de Meca. O inúmero povo juntava-se atrás, regulando todos o passo pela cadência do animal. Estes peregrinos encontravam-se com os de Uskudar na outra margem, partindo em direcção à Arábia. Fervor de fé sublime e colorida presença de milhares de pessoas que davam uma imponência ímpar a esta cerimónia; por isso a distinção da construção de seis minaretes nesta Mesquita, o privilégio reservado sómente à única e grande Mesquita de Meca. Mais tarde pressionado pelos Ulemas, o emir de Meca ordenou a construção de um sétimo minarete que fizesse a diferênça. Querendo mais, desdobro-me de olhar já nos beijos da aurora. Qual Ícaro sofrego de querer pairar, poiso nas Sete Torres, na de Yedicule a mais alta. Toda a cidade, toda a Terra acolhe-me: Europa e Ásia frente a frente com um destino comum.Os Muezzins chamam os crentes, Istambul acorda. Bandos de estorninhos vindos da ilhas Princípes são estandartes dum Sol ainda tímido. Volteiam ágeis indo da Mesquita de Solimão o Magnífico, até às encantadas frescuras dos jardins de Santa Sofia. Meigas rolas equilibram-se nos obeliscos, cruzando em curtos voos os lugares que levarão às sementes perdidas no Bedesten, o grande mercado. O Sol bafeja-me vindo lá das antigas terras Seljúcidas, distendo-me numa pequena preguiça felina. A felicidade dos mistérios de uma noite o olhar Intambul, dão-me a medida do olhar dos reis; antes de descer ainda me ocorre lembrar Théophile Gautier " Vi as ruínas de Atenas, Éfeso e Delfos; atravessei toda a Turquia, Europa e Ásia, se há memória que perdure para sempre é o que se pode sonhar entre as Sete Torres e a extremidade do Corno de Ouro."


Passo pelo lugar do antigo Hipódromo, lugar de lutas cruéis e exaltações de facções, os Verdes, os Azuis, o aplauso das bigas e quadrigas vencedoras. Homens a lutar até à morte. Conclaves de conspirações de poder que nasciam dos rumores ali perpetrados. Lugar de saques durante revoltas populares; a pilhagem dos latinos da Quarta Cruzada. A Coluna Serpentina erigida na origem em frente do templo de Apolo: trazida para Constantinopla no tempo do primeiro imperador. Marca ainda com a sua vetustez e patine de séculos, o centro da praça e lembra a grandeza do império.


Mesmo os momentos mais pungentes e terríficos da história, não ofuscam o tanto e tão belo que esta cidade tem para oferecer. Cada pedra é um livro, cada monumento um agasalho para o intelecto, cada brisa uma largada para a encruzilhada das civilizações. Imagino Orham Pamuk a correr por entre a brancura da neve, sentindo o bafo frio do Mar Negro, naqueles dias em que as agulhas dos minaretes são estalagmites forradas de pérolas brancas, dias, em que o som da chamada dos Muezins écoa forte em Uskudar. Pamuk inspirando-se para escrever o seu romance a " Neve" que visita brandamente no Inverno a sua amada Istambul. Dirijo-me para o Palácio Topkapi, junto à Porta Imperial; Roxelane espera-me, parece-me ainda de uma beleza mais cativante e delicada. Num ousar gracioso digo-lhe " Gunaydin" ( bom dia em turco) sai-me como frase cantada e entendível. Ela sorri e arrasta-me docemente pela mão. Depois numa língua que entendemos ambos, diz-me: " vou-te mostrar os recantos mais misteriosos do Serralho e do Palácio Topkapi!..." - Di-lo com um pérolado sorriso Caucasiano, retorquindo meigamente em velado mistério : " afinal foi quase sempre o reino da minha vida!.." As suas palavras estendem-se de murmúrio, enleiam-se entre um clarão brando da idade da manhã. Um grupo de músicos, de rua, ali perto, toca com destaque e melodiosamente: o Bendir dá percussão marcando a cadência, o Ud de sete cordas, este familiar dos alaúdes, varia em virtuosismos de escala, dos orifícios de um Nai, de junco do Lago Van, saiem os sons mais delicados e encantadores, confundindo-se com os gorjeios dos últimos bandos de estorninhos que ainda dançam no azul do céu.

José Movilha




































































Quarta-feira, 28 de Setembro de 2011

VISITA À SUBLIME PORTA - SEGUNDA PARTE

Caminhavamos por Divan Yolo, a rua que sai da Praça de Sultanahmet, e segue em direcção aos bazares, é a antiga espinha dorsal da Istambul da época bizantina e otomana. Hoje plena de lojas, cafés e casas de câmbio. Mustafa queria apresentar-me a Roxelane que tinha uma escola de danças tradicionais turcas, e cuja família tinha um dos mais antigos estabelecimentos comerciais de venda e fabrico de tapetes. Entrámos num vetusto espaço, com arcadas e paredes talvez do tempo de Justiniano, salas contínuas adornadas com uma profusão de tapetes de várias cores e desenhos. Nisan, o patriarca da família, veio receber-nos, tinha um porte nobre e talvez alguns traços escandinavos dos antigos Varegues guardas dos imperadores. Diz-nos : " A história do Tapete de "Nós", na Turquia islâmica, iniciou-se com a chegada dos seljúcidas. Alguns exemplares datam do século XIII. Apresentam como motivos de ornamento - nesta altura deslocámo-nos para uma sala abobadada, onde um soberbo tapete com vários metros cobria o centro da parede -, continuou Nisan : " aqui estão vários motivos dessa escola; estrelas, losangos, formas geométricas, pássaros, dragões. A cultura islâmica teve uma influência profunda sobre a história dos tapetes. Os otomanos conformando-se estritamente com as práticas sunitas, interditaram toda e qualquer representação de seres vivos, mesmo imaginários. A decoração encontra-se limitada às formas geométricas, às flores, às árvores estilizadas, aos nichos de pedra. Ao fundo ouvia-se o labor dos teares num local apropriado para aprendizagem e persevação desta arte secular. Afagámos aquela superfície de muitas cores e desenhos onde o encadeado dos motivos nascia como de um só entrelaçar se fizesse. Nisan sorriu : " A partir do século XVI, o leque dos motivos utilizados alargou-se e passou a incluir espiral, nuvens, rosetas, palmitos. O principal centro de fabrico situava-se nesta época em Usak. Arabescos formando uma sequência de losangos, ziguezagues, entrelaçados, são muito característicos destes tapetes raros, como o que está na nossa frente. No entanto ouve várias regiões do império otomano que se especializaram em produzir os seus tapetes dando-lhe uma marca muito própria. Os tapetes do Pérgamo, de veludo espesso e brilhante; Os tapetes de Milas, muito reputados historicamente como tapetes para orações, com cores muito claras e motivos simples e grandes; os tapetes de Ghiordes, cidade conhecida por ter dado o seu nome ao nó turco, perto do local onde Alexandre desfez o nó górdio; os tapetes de Kula, muito parecidos com os de Ghiordes, com a procura secular de servirem para cobrir os túmulos dos sultões e das famílias aristocratas; os tapetes de Ladik, ao norte de Konya, que marcam a passagem dos motivos puramente geométricos para os motivos florais, tulipas; os tapetes de Sivas, na tradição dos tapetes persas clássicos, com cores mais claras; os tapetes de Kayseri, do mesmo género dos de Sivas, mas, com vermelhos e azuis luminosos sobre fundo claro, predominando em muitos deles a seda; os tapetes de Isparta que são de veludo espesso que esconde a visibilidade dos nós; os tapetes de Hereke em lã ou seda. No século XIX, estes tapetes eram encomenda constante do sultão, e um grande número foi oferecido a cabeças coroadas de toda a Europa; os tapetes Nómadas, que são testemunhos do artesanato nómada, apresentando abundantes desenhos simples e geométricos, sendo as suas tintas de origem vegetal, resultando cores de todas as nuançes; os tapetes de KARS enlaçados pelas tribos caucassianas do nordeste da Anatólia, sendo muito raros pelos seus apurados motivos geométricos, Roxelane tinha uma especial predilecção pela sua delicada manufactura. E Nisan mostrava-nos todas estas preciosidades com raro entusiasmo e saber. "Ainda temos os Kilims, os tapetes de tecido, mais populares nas casas turcas. Os seus desenhos geométricos e as suas cores atractivas conferem-lhes uma grande originalidade - Mustafa tinha em sua casa, no lugar de mais convivência com os amigos, vários destes tapetes - , Nisan desdobra agora alguns: " desde há muito séculos que a tecelagem dos tapetes é uma arte executada pelas mulheres, Esta tradição mantém-se nos dias de hoje na Turquia; em milhares de aldeias, as raparigas jovens aprendem a dar nós nos tapetes, essa particularidade que reside nos tapetes turcos e que define o tipo de nós empregues; por exemplo em Ghiordes envolvem-se dois fios em cadeia, de forma que as duas extremidades do nó passem entre esses fios. O par de fios em cadeia é atado da mesma forma e assim sucessivamente, o que torna o esquema regular: duas extremidades atadas, alternando com dois fios da cadeia. Sendo depois disto que passa o fio de trama, e depois se faz de novo uma nova fila de nós."
Finalizámos na oficina de tapeçarias, onde todo um grande espaço era ocupado por inúmeros teares. Gente de várias idades dava movimento àqueles tantãns manuseadores que iam passando do branco às mais belas formas e cores que nasciam em desenhos variados.
Nisan oferece-nos um verdadeiro café turco, que ele mesmo prepara, é um enlevo de cortezia, muito ritualizado, para os distintos visitantes que recebe. O café turco é servido pouco açucarado( "az"), meio açucarado ( " orta"), açucarado ( " seker") ou sem açucar (" sade") e acompanhado de um copo de água, esta muito especial, vinda de um nascente que alimentava, também, a cisterna de Yerebatam. É um momento solene e cerimonial que estabelece algum recolhimento, é da tradição beber este genuíno café turco em pequenos goles, sorvê-lo e aspirá-lo. Este é o " Keyf", a arte de colher o instante que passa. Uma grande bandeja artisticamente trabalhada continha folhados cobertos de xarope de açucar ou mel, recheados de amêndoas, noz ou pistachio cortados em losangos e em triângulos, eram os ( baklava); a seu lado os ( muhallebi) doces açucarados de leite e arroz, fécula ou frutos.


Num enaltecimento difícil de controlar, fico-me pelo café meio açucarado ( "az"), encontrando, assim, o equilibrio perfeito na junção das duas coisas.
Roxelane chega. Cumprimenta o seu vetusto parente, sorri para Mustafa e todos nós. É de uma beleza cativante, um corpo palpitante e ginasticado de se entregar aos volteios da dança, um rosto perfeito emoldurado por um profuso cabelo dum ruivo escuro, caído sobre os ombros em cascatas naturais. " Pensei na herança caucasiana, no " imposto de sangue" a entrega obrigatória de filhos e filhas de cristãos para servirem " a Porta"; eles os jovens para a apredizagem da futura guarda do sultão , os Janízaros; elas para o Harém. Lembro-me de Amhet me ter dito : " que apesar de o Império Otomano ter adotado oficialmente o islamisno Sunita, os janízaros eram adeptos de uma ordem dervixe chamada bektashi, em alusão ao seu criador Hajji Bektash. Reunia elementos muçulmanos e cristãos; permitia o consumo de bebidas alcoólicas e a participação de mulheres sem véus. Quando em serviço, no entanto, eram rigorosamente disciplinados e proibidos de casar. Os janízaros ainda tinha o hábito de levar consigo símbolos ou citações cristãs para a batalha, com o consentimento dos seus superiores.
Sou desperto por um torpor invulgar, naquela mão que cinjo: um perfume milenar corre entre aquelas pequeninas veias cor lazúli. Sorri e diz-me que me vai mostrar todos os recantos do Topkapi, um a um: fico um pouco enebriado com a promessa. Roxelana vai-me mostrar o palácio onde a mulher de quem tem o nome, se destacou e ganhou o apelido de " Khourrem" ( aquela que sorri) e única esposa consentida e oficializada do sultão Suleimão. Agradeço, e fico a pensar: " já não é hoje que vamos à vetusta e invulgar livraria de Ameht".
A noite chega. Na varanda do meu lugar de recolhimento olho o luar pleno. Bizâncio, Constantinopla, Istambul, três nomes imemoriais no tempo para a mesma cidade; Istambul desde 1453, esta imensa metrópole que eu olhava serenada no manto da noite, envolvendo-se num calmo adormecimento aparente. Ali, no mais alto de um edifício no bairro Sultanahmet, dáva-me ao horizonte com a vontade de um etilita perpétuo, abraçando a transparente oferta de uma noite invulgar. Os inúmeros monumentos que a minha vista abarcava mostravam-se em luz e sombras como se planassem numa outra dimensão. Os minaretes apontavam-se às galáxias perpétuando a aliança sagrada e o engenho dos homens. Do outro lado a Torre de Galata circundava-se de envolvências de nevoado tule. A ponte do mesmo nome, assim como a de Ataturk, repiravam de calcorreio breve. Antes do nascer do sol. Europa e Ásia ouviriam milhões de seres; massa humana que ia e vinha dum continente ao outro. Gentes que sofriam, rezavam, comiam, tinham fome, amavam: mostrando alegrias e tristezas e o destino de um deambular trepidante.
Na serenidade da água lá longe, o Mar da Mármara enfeitava-se num luzeiro de miríades nas pequenas embarcações. A lua plena lembrava Hécate uma das padroeiras da cidade, a que rasgou breves trevas, clareando protectoramente, avisando os bisantinos, nesse mesmo ano de 340, quando o exército de Filipe da Macedónia estava nos contrafortes das muralhas. Da defesa e repelir dos sitiantes ficou o reconhecimento à deusa e foi cunhada moeda com o crescente e a estrela, os seus símbolos votivos que perpétuaram até aos nossos dias.
Escrevo no meu diário de apontamentos estas experiências do dia. Verifico o muito que há ainda para recolha em relação aos manuscritos antigos e mapas.
Tenho esperança que Ameht me fale da cidade subterrânea de Derinkuyu, na Capadócia, chamada o " Poço Profundo", que se pensa poderá ter 4.000 anos. Se é verdade que lá vive um santo e velho Sufi, o único que conhece o segredo e o paradeiro do mais misterioso, terrível e temido dos livros, o " Necronomicon" escrito por Abdul Alhazred.

( continua )

José Movilha

































































Quarta-feira, 21 de Setembro de 2011

VISITA À SUBLIME PORTA - PRIMEIRA PARTE





A segunda noite em Istambul tinha sido rica em libações e gastronomia. Mustafa tinha-se empenhado numa verdadeira noite do " leão" - o que se chama aguentar o Raki - a mais emblemática bebida turca, diluída em água, com toque e sabor a aniz, com algum grau que trai os mais incautos bebedores. A música fazia-se ouvi, Mustafa tinha a tocar Klásik Osmanh mûsikisi - música clássica otomana . Os pratos da acolhedora gastronomia turca sucediam-se: o Kebap e o Zeytinyagli Biber Dolmasi ( pimentos recheados), outros magníficos pratos não paravam de aparecer até chegar o frango com nozes ( cerkez tavugu), fazendo-se este, pela confecção, eleger a libações mais profundas de Raki: Eu poupava-me de contenção não acompanhando Mustafa ou Memet, no acto de pousar o copo vazio. A música torna-se mais fluída e envolvente de virtuosismo.


Mustafa contava-me que " os Osmanh padisahlar ( Sultãos Otomanos), recebiam aprendizagem em Siir ( poesia), e Hat ( caligrafia), também música, baseando-se no Árabe Persa para os Makams ( modos), Uiul's ( ritmos), ou Saz ( instrumentos). O que ouviamos fazia parte de um acervo com mais de 20 mil peças, o que atestava a grande produção Otomana entre as músicas de todos os povos muçulmanos. Ouvimos depois alguns trechos tocados pelas antigas bandas militares chamadas Tug, que tomaram o nome de Mehterhãme após Mehmed o Conquistador. A finalidade da música militar era indispensável para o exército turco. Tinha o intuito de amedrontar o o inimigo com o produzir de um som musical de grande intensidade com centenas de instrumenros de percussão e sopro que formavam essa banda que seguia entre as primeiras linhas militares incitando ainda mais a ferocidade dos Janízaros. A nossa visita relacionava-se com um estudo que pretendiamos fazer sobre este corpo de forças de guarda do Sultão, essa força temível que constituíu a elite do exército dos sultões Otomanos. A força que tinha sido criada pelo Sultão Murad I, por volta do ano de 1330; e, era formada por crianças não muçulmanas, geralmente cristãs, capturadas em batalha, levadas como escravas e convertidas ao Islão. Estes jovens não recusariam abafar qualquer revolta interna, pois não os motivavam laços de parentesco com as gentes otomanas. Obedecendo totalmente a qualquer ordem do Sultão.

No outro dia iamos à livraria Ahmet, onde podiamos encontrar cópias de mapas antigos e muitos manuscritos e livros sobre a época que pretendiamos estudar. Ainda referências sobre as actuais escavações arqueologicas em Éfeso, e alguns mapas muito antigos de origem Persa, sobre Antíoco II e o monumento ainda não estudado no cimo do monte Taurus.

A livraria era no Edifício Pamuk, construido pelo avô de Orhan Pamuk, datava da época em que este fez próspera fortuna a montar caminhos de ferro e fábricas , tudo sobre a égide de Kamal Ataturk. Era ali que Orhan escrevia os seus romances e onde Mustafa tirava fotografias únicas que ganhavam prémios internacionais. Num privilégio único, Mustafa levou-nos lá para que pudessemos observar o Corno Dourado; esse lugar que o oráculo de Delfos no séc. 7 a. C. tinha indicado a Byzas para procurar a fundação de uma nova cidade. O oráculo tinha ainda indicado a Byzas, que essa descoberta se passaria em " terra de cegos". Partem estes descobridores da Grécia, confiantes nos deuses para resolver tal enigma. Entram pelo estreito de Dardanelos, mar da Marmara, aportando do lado asiático. A vistas de tão abrigado lugar do outro lado do estreito, com tão estratégico porto natural, concluiram que deviam ser cegos os não muitos habitantes daquelas paragens, para não verem tal; e, era este o lugar indicado pelos deuses para a fundação de nova cidade. Foi aqui, mais tarde, dado o nome de " Corno de Oiro" pela configuração geográfica e o nascimento de Bizâncio, que foi invadida em 326 por Constantino, que lhe muda o nome para Constantinopla. Em 1453 o Sultão Mehmet II conquista Constantinopla dando-lhe o nome de Istambul.

Ali perto o Topkapi dáva-se de imponências rendilhadas. Maresias brandinhas sentiam-se daqueles páteos debruçados sobre o Bósforo. Nuvens de estorninhos pejavam o fim de tarde sem nuvens, sacralizando ali perto as leituras dos muezzins, ecoando para o poente mais uma chamada aos crentes. Cidade, esta, prodigiosa que está e estará sempre para os escritores como São Petersburgo esteve para Dostoiévsky; Buenos Aires para Jorge Luís Borges; Dublim para Joyce; ou Paris para Proust; aqui, toda e eternamente para Pamuk.

Dezoito milhões de seres fervilham nesta grande cidade colmeia. Com pedras que nos contam história milenar a cada passada. Em Santa Sofia, repousava sempre os olhos num último fresco e pensava :" como a filha de um domador de ursos, Teodora, com uma vida de forte licensiosidade, influênciou tanto o império, e mais tarde fez-se figurar em representação ícone e pose Mariana " - Aos olhos do Sol, pisei um último lajeado, a resplandecência tolhe-me, olho acobertado nas sombras de tanta vetustez. Justiniano tornado Santo Ortodoxo sem se desgastar nas subidas infindáveis do Monte Athos. Um novo friso de painéis, o Imperador Comnenos, a sua mulher Irene e o seu filho Alexis estão retratados com a Virgem Maria e o Menino Jesus ao seu colo. Cristo sentado no trono, ladeado pela imperatriz Zoe; foram vários os maridos desta imperatriz, a quem foram modificadas as representações dos rostos e nomes de cada um deles após os casamentos; parecem, neste enumerar, estes afrescos receber uma cumplicidade do tempo, ao serem tão esbatidos como a fugacidade dos reinados.

Ali perto, desço à Cisterna Yerebatam, ao lado oposto ao Museu de Santa Sofia, a maior existente hoje em Istambul, e construida durante o período bizantino. O prodígio e a dimensão levam-nos para outros estágios de exaltação, a frescura empresta uma respiração de mosto de Huris. As luzes são feéricas, cuidadosas de não ferir os olhares, esbatem-se naquele lajeado aquoso que se distende como um espelho de djíns que tem de idade mil anos. A água chegava dos rios e nascentes da floresta de Belgrado, a muitos quilómetros de distância. Quem se encaminha para a saída olha duas cabeças gigantescas de Medusas, usadas como bases das colunas, parecem olhar-nos; adormecidas, tocadas pela beatitude do lugar, transformando do emblema do seu horrível bacinete, ondulantes e inofensivos líquenes flutuantes.

Tenho que me encontrar com Mustafa. O tempo não chega para este périplo de multiplas apetências culturais. Já se divisa a Mesquita Azul ( Mesquita do Sultão Ahmet), a maior e mais explêndida de Istambul. Nas suas cinco portas existentes para o pátio, é sempre a mais evocativa a da corrente. De acordo com a história, esta corrente ajudava o sultão a descer da sua montada. A contornos perdemo-nos nos verdes do arvoredo e jardins circundantes à Praça do Sultão Ahmet, antigo lugar do Hipódromo que teve início de construção no ano 203, com Septimus Severus, logo após a conquista romana da cidade, sendo especialmente cocluido no ano de 330 para as cerimónias do imperador Constantino o Grande. Subindo a um pequeno mirante envolvemo-nos em inúmeros canteiros com as mais belas das flores. Dali como gajeiro de vastos horizontes, olha-se, lá em baixo, o Bósforo arremetendo-se em surtidas brandas de espumas intemporais. Imagina-se uma galera Veneziana a aportar no Corno de Ouro, ali em frente do palácio do Topkapi com mil deslumbramentos de brocados para Roxane e para as belas do Serralho. Para os lados da margem asiática, no começo daquela embocadura que já bebe do mar, teria o vento visto os balsões da frota da Cruzada para S. João de Acre. Ainda no adornar daquela linha ponteada da margem frontal, o Palácio Dolmabahçe recebendo quem vem da Ponte de Galata, o próprio Leonardo da Vinci chegou a apresentar um projecto ao Sultão, que de tão inovador, confundiu a sua aceitação - Francisco I foi mais bem acolhedor às inovações do génio. A tarde declinava rapidamente colorindo cornijas e minaretes de sépia branda. No outro dia além da livraria de Amhet, ia com Mustafa ao Grande Bazar ( Kapahçarsi ), encontrar Murat, para que nos falasse, também, de livros raros e dos antigos Caravansarais ( hospedarias), caminhadas na Anatólia, caminhos de Alexandre o Grande, grutas de Goreme e o secreto contacto com a irmandade Sufi.


( Continua )

José Movilha











































Segunda-feira, 12 de Setembro de 2011

ÍCONES, OBRAS SACRAS DA ARTE MILENAR

( Theotokos , Jerusalém - Reprodução de ícone - Gentileza de Alberto Ferreira )


Para quem visitou ou vai visitar uma igreja Ortodoxa, não irá esquecer como primeira visita, a beleza pictória do iconóstase, um figurado biombo -parede divisória -decorado com ícones, e que separa a nave da Igreja, do Santuário ( Santo dos Santos). Os ícones, termo derivado do grego ( Eukon, imagem), arte pictória religiosa pintada sobre um painél de madeira; consubstancía uma mensagem que representa menções dos Evangelhos, remontando a sua origem à introdução do Cristianismo em Bizâncio, atingindo o seu apogeu do século V até parte do século VIII. Este florescimento deveu-se à ressurgida Constantinopla, onde Constantino legaliza a fé cristã. Posteriormente religião oficial do império por édito de Teodósio I . Os bizantinos profetizavam ser um novo povo eleito do Novo Testamento, os novos israelitas, Constantinopla a cidade guardada por Deus, a nova Jerusalém.

É pois, dessa época, a primeira representação de Maria - Mãe de Deus - quando cerca do ano 460, a esposa de Teodósio II enviou de Jerusalém uma imagem pintada ao que se julga por S. Lucas. Isto libertou os cristãos das censuras e restrições judaicas e das religiões pagãs, que os perseguiam; começa um período de áurea criação, invocando-se figuras da Sagrada Família, Santos Mártires e tudo o que na figuração inspirasse piedosa devoção. Era uma forma de fazer chegar às pobres gentes analfabetas, por um meio pictório, passagens bíblicas e a vida dos santos.

A própria corte encorajava esta devoção: Justino II tinha um famoso ícone de Cristo, que fora guardado na cidade de Kamoulianai, na Capadócia, e levado para Constantinopla em 574. Segundo a crença popular, tratava-se de uma imagem milagrosa do tipo conhecido como " acheiropoietos" - arqueopoetas, figurações que se diziam serem feitas por mãos santas, atribuindo-se ainda a sua feitura a processos miraculosos, acreditando o povo ser revelação divina. Uma das mais famosas relíquias desse tempo, que inspirou muitas pinturas, foi o " Mandylion" de Edessa, uma toalha que se dizia ter a impressão da face de Cristo. Dizia a lenda que o mais antigo soberano de Edessa a pedira a Cristo: o Senhor apiedado de tanta devoção deixou miraculosamente impresso o seu rosto; servindo este retalho de linho para estandarte de batalha nas guerras com os sassânidas. O Imperador Maurício mandou substituir no cunho do sinete imperial, a figuração de uma célebre batalha romana, pela imagem da Mãe de Deus; mandando ainda instalar uma imagem de Cristo sobre o portão "Chsike", a principal entrada do palácio imperial. Nos próximos séculos aperfeiçoaram-se os aspéctos criativos, as madeiras de larice e de abeto ( as preferidas), eram aplainadas e preparadas com esmero. Era feito o desenho, e a pintura iniciava-se com aplicações douradas; geralmente nas margens, nos detalhes das roupas, nas auréolas e nos fundos que necessitassem resplandecência. Depois pintavam-se as roupas e as paisagens de fundo. Aplicava-se por fim, o branco puro nas mãos e na face; uma composição de ténuo castanho fazia sobressair as barbas, cabelo e olhos; finalizando-se com uma camada de fino verniz que realçava todo o conjunto nuns tons rosados. A COR DOS ÍCONES assumia uma importância significativa, expressando algumas tendências de escolas a que pertenciam os artistas. O vermelho era a cor mais presente nas pinturas; representava a cor do martírio. O verde a natureza e fertilidade; o castanho a pobreza e a humildade; o azul a transcendência divina; o branco a paz e a bonança anunciada.

NO SÉCULO VIII desenvolve-se um período iconoclasta, o imperador Leão III e o seu filho Constantino V proibem os ícones, sendo esta proibição revogada por um Concílio. Posteriormente o empenho da Imperatriz Teodora, surge como apelo inequívoco à sua veneração. Ultrapassado esse período mais cerceador e proibitivo a ascensão desta arte dissemina-se fortemente consolidando-se de esmero até à queda de Constantinopla, o fim do Império Bizantino em 1453.

Instaurada a religião muçulmana - que não era proibitiva à existência de outros credos religiosos - a tradição transferiu-se para os Balcãs e para Veneza a ocidente.

Em Veneza é criada uma escola de Patrono S. Lucas, uma guilda de pintores da escola bizantina. No apogeu do Renascimento, artistas incontestados como Leonardo, Tiziano, Mantegna, e outros mestres, aprimoraram toda esta técnica.

Na Grécia criou-se uma especialidade com conjuntos de painéis facilmente transportáveis, que lembrariam mais tarde a técnica dos " Ikonostas" russos. É então na Rússia, após a conversão ao Cristianismo Ortodoxo e 988, que o ícone atinge uma importância ímpar, disseminando-se a partir de Kiev. Venerado em mosteiros, igrejas, lares: o " Krasnyugol" - a colocação de canto de figuras de Santos devotos que é presença em todos os lares ainda hoje.

No entanto foi árdua a luta pela aceitação desta forma pictória de retratar as figuras dos Evangelhos; não obstante o apoio das poderosas forças imperiais e a aceitação da nobreza, o clero vigente da igreja primitiva via com muita desconfiança estas imagens religiosas, associando-as à idolatria. Só após a conversão de Constantino, esta arte passou a ter merecida aceitação. A própria irmã de Constantino, consultou Eusébio de Cesareia sobre a aquisição de uma imagem de Cristo, para devoção particular. A resposta não podia ser mais ciosa de poder conservador: o clérigo repreendeu-a, dizendo-lhe: " Se Cristo reinava em glória, só deveria ser contemplado na mente".

Maravilhamo-nos ainda hoje com esta arte sublime, do que ficou de Bizâncio, expraiando os olhos em enorme emoção contemplativa: desde os mosaicos bizantinos, vistos nessa obra arrebatadora do mosaico da Virgem com o Menino Jesus, na abside da Igreja de Stª Sofia, ou vendo toda a beleza interior da Igreja de S. Sérgio e S. Baco; lembrando, ainda, a Igreja dos Santos Apóstolos onde se encontra o mausoléu de Constantino. O Imperador crente que fez cristãs, pagãns gentes.


José Movilha

Domingo, 4 de Setembro de 2011

A MISTERIOSA DAMA DO PAÇO REAL DE SINTRA - SEGUNDA E ÚLTIMA PARTE





Tudo isto se me sublimou no espírito em fracções de segundos. Habituado pelo treino analítico ao catalogar do que me cercava; no espaço destes fugazes momentos de julgamento emocional ao que devia fazer: compreendi ir acontecer algo de mais surpreendente. Olhando mais em detalhe o programa do Concerto, vi um destacado cartão no seu interior, que dizia o seguinte: " Deve seguir -me". Fiquei algo perplexo, e a pensar ao que conduziria este jogo já começado de intensidade misteriosa e palaciana sedução. O mais estranho e paradoxal para mim, em todos estes desfilados e céleres actos, era a sensação de que aquela figura de mulher me era familiar; e, que algures, já a teria visto em qualquer lugar. Não era difícil seguir aquele rasto, o mais misterioso dos perfumes indicava-me o caminho, o mesmo era feito de parcerias com breves aparições de grupos coloquias que aguardavam o começo da segunda parte musical.



Na peugada de seguir a minha misteriosa guia, encontrava-me a breve trecho no pátio junto ao Tanque dos Cisnes. Dali, subindo umas estreitas escadas desemboquei no Pátio do Esguincho, ou Pátio Central; onde na calma vetustez daquele périplo por salas e pátios apartados de calor humano, já só chegavam aos ouvidos ecos remotos de conversas longínquas.



A partir daqui divisei junto à silhueta da minha misteriosa guia, uma luz do que parecia ser, talvez, uma lanterna. Eu caminhava afoito pelo conhecido domínio do casario, mas ao mesmo tempo preso da maior curiosidade; pensando até onde me levaria aquela luz e a motivadora iniciante daquela cativante perseguição. Em breve estávamos na Sala dos Árabes, e no Pátio da Carranca. Ali a luz imobilizou-se. Eu mantinha uma distância de , talvez, algumas dezenas de passos, e a continuar assim, em breve a alcançaria. Mais perto, e por entre um fugaz luar ocultado por passageiras nuvens, divisava já aquele forte bruxulear em cima de um banco de pedra. Mas, da misteriosa diva transportadora nem rasto.



Olhei em volta, surpreso e esperançado de que a cativante criatura que ali me tinha levado, ainda pudesse aparecer. Mas não: no ar pairava sómente de uma forma mais intensa o forte perfume que me enebriava mais, e me fazia lembrar algo que me parecia prática alquímica já por mim intentada. Era como se fosse um convite a pôr à prova a minha capacidade de separar essências para a primeira decifração de algo que não era possível para leigos; mas que poderia ser uma primeira pista para os conhecedores dos trabalhos do Athanor. O odor estranho e único da forte fragrância era agora mais intenso do que nunca. A misteriosa portadora parecia ter-se desmaterializado, transformando-se nesta presença volátil. Lembrei-me de que há muito intentava fazer o Kyphi perfeito, o perfume sagrado dos deuses egípcios; mas, ainda não tinha conseguido as verdadeiras proporções e as genuínas matérias. Tudo me dizia que naquela atmosfera existia algo daquela composição.



Voltando-me para o objecto luminoso e pegando-lhe vi tratar-se de uma lanterna. Era piramidal, de metal, bronze ou latão; devia ter uns trinta centímetros de altura. Na cúspide uma pequena argola era o meio de a transportar. Uma vivíssima luz num tom verde azulado desprendia-se, não se vislumbrando da sua proveniência.



O céu era agora uma cascata de réstias de luar, divisando-se perfeitamente tudo no interior do pátio. Resolvi-me a pegar na dádiva misteriosa da minha bela fugitiva, decifrar por fim todo ou alguma parte do mistério ali acontecido. Ao deslocá-la, elevando-a, a luz apagou. Mostrando-se junto à pega, um rolo de papel de alguma consistêcia. Era só eu, o luar, e aquela presença agora transformada em perfume.



Retrocedi nas sombras com a experiência de um conhecedor que a breve sairia do Palácio. Com o artefacto metálico embrulhado num abafo, restava-me vencer a breve ansiedade de procurar uma precária luz, que fosse, para a leitura. Distendi o rolo, do que me pareceu papiro de boa qualidade: em letra que talvez cálamo escrevesse, pude ler:



" Almejas conseguir o Kyphi, um dia o farás: Eu sou aquela com o cabelo enfeitado com sete estrelas, os sete alentos dos Deuses que movem e pulsam sua excelência. E tenho penteados os cabelos com sete pentes, nos quais são escritos os sete nomes secretos da morada divina, que não são conhecidos dos mortais.



Sou, ainda, um raio das sete Hator, da comunidade das que os deuses chamam « perfeitas, belas e puras». Também, chamadas « as veneráveis», as que afastam o Mal e favorecem a harmonia."



Nitócris



Trémulo de emoção internei-me num manto de folhagem e luar, subindo ao abraço da Cruz Alta. À medida que contemplava aquele papel e os caracteres, o perfume ainda era mais intenso. Não havia dúvida de que era o Kyphi, o perfume secreto e sagrado, preparado pelas sacerdotizas egípcias e ofertado aos deuses. Duvidei de que algum dia conseguiria o segredo desse composto, não obstante a escolha e a promessa escrita dessa princesa.



As horas apagaram-se de brisas e a manhã rasgou-me o peito de mansinho com o grito de mil aves vindas do mar. No murmúrio do azul coberto de brandas vagas. Ela vogava, já longe, numa barca para Mênfis.






José Movilha




































Quinta-feira, 1 de Setembro de 2011

A MISTERIOSA DAMA DO PAÇO REAL DE SINTRA - PRIMEIRA PARTE









Buganvílias ornavam-se como chapéus coloridos, compondo preces ao luar pleno que Sintra recebia naquela noite de absoluta limpidez celestial. O palácio dava-me a medida dos ecos conhecidos, tinha-o percorrido inúmeras vezes, não só em estudos para vários trabalhos, como também, em ciclos de aulas vivas com grupos nacionais e estrangeiros. Podia , pois, deambular por todas as salas com bastante desenvoltura e regressar ao ponto de partida o Terraço da entrada, ou à Sala dos Cisnes onde decorria o concerto musical.








Recordei tudo isto com um sorriso que me aflorou os lábios, certa vez caminhava com um grupo de trabalho italiano de professores de arte oriundos de Veneza, a quem mostrava o palácio e a quem descrevia o lugar da sala quarto-prisão onde vários anos permaneceu El-Rei D. Afonso VI. Quando se deu por falta de três elementos que se tinham afastado do grupo, sendo inexplicável de momento encontrá-los ou vislumbrar para que lado estariam. Pedi ao grupo que se mantivesse nas cercanias da antiga casa da distribuição da água e num prognóstico algo intuitivo desloquei-me em direcção à passagem para a sala dos brasões, alcançando em seguida a sala das colunas, das duas Irmãs ou de D. Afonso V ; acercando-me assim, do Jardim da Lindaraya. Ali, encontrei-os contemplando a idílica flora, entregando-se ao mesmo tempo a mantos de sombras que cativavam a tarde em prodígios de frescos. Resgatados para o périplo colectivo, rapidamente todos juntos fizemos o restante percurso da visita, e a breve trecho chegámos à Sala das Sereias, da Galé, ou da Câmara de Ouro, passando à sempre admirada Sala das Pêgas, deslocando-nos para a Sala de D. Sebastião, do Conselho, ou da Audiência, encontrando-nos em breve no Pátio da entrada.


Pensava em tudo isto quando estridente ovação veio coroar o virtuosismo dos executantes, tirando-me das minhas meditações recordativas. Era o marcado momento para tomar algum ar fresco, e amenizar o galopante fluído emotivo, elevado por tão intensa entrega melómana ao cativo dos sons. Junto ao Lago dos Cisnes encontrava-me há algum tempo só. Parado junto a um enorme cone de buxo tratado em forma piramidal, olhava impessoalmente os grupos de pessoas que me circundavam, quando fui atraído pelo odor de um perfume diferente de tudo o que nos cercava. Não sendo propriamente um " nariz", na plenitude do ofício, sabia distinguir as notas principais, as notas de cabeça, que são essências voláteis, as notas do coração, essências mais fortes que caracterizam toda a solidez da composição perfumista. Lembrei-me da oferta que um dia tinha feito a D. Sininho, com a cumplicidade de Senesino, que cantava nesse dia: um jogo de frascos de René Lalique, verdadeiras preciosidades, onde se incluía uma réplica do primeiro frasco para L'Effleurt de François Conty. Tudo adquirido num antigo vidreiro coleccionador de Murano. Para o conseguir dos preciosos frascos, depois de aturadas negociações, foi imposto como moeda de troca, duas bonitas gravuras de Bonnart, representando figuras em traje perfumista, uma cave de perfumes, caixa de conservação em madeira da Ilha de Fritis; e, ainda uma réplica de L'e Tépidarium de Théodore Chassérian, de 1853, cópia muito bem feita por um anónimo em princípios do século XX.


No nosso laboratório fazíamos vários incesos para rituais, e algumas vezes aquando de ocasiões especiais, tinha o privilegiado gosto de fazer algumas águas régias. Aqua Mirabilis, a água chamada da Rainha da Hungria, a indutora à água de colónia dos tempos correntes; e alguns óleos para práticas de aromaterapia. Onde amiudadamente lhe reservava três óleos: a lavanda para as frieiras, o zimbro para a circulação e o funcho para a obstipação. Das sete famílias de perfumes, D. Sininho gostava dos " chipres" constituídos no acorde bergamota-jasmim ; mas, preferia muito mais os " hespérideos", dádiva do grande Alexandre, o Grande, o seu divulgar de alguns pés de cidreira trazidos para a Grécia, após o regresso de muitas das suas expedições asiáticas. Os primórdios básicos onde deveriam assentar mais tarde, com os árabes, a laranja amarga da bacia mediterrânica, e quinhentos anos mais tarde a bergamota calabresa, os percursos até muitos dos perfumes dos nossos dias.


Parecia-me, pois, que o odor que me cercava tinha uma forte componente cítrica, mas também, talvez, a rosa damascena, ou a rosa centifólia estivessem presentes; a par de muito sândalo-branco e mais qualquer coisa muito subtil e muito forte, que não conseguia de todo identificar. Inclinei-me para através do olhar contornar o bojo da enorme escultura arbórea, de onde parecia emanar aquele odor. Divisei uma silhueta de mulher naquele recanto entre o arbusto e a janela que dava para o jardim. O sombreado fundido na luminescência difusa mostrava-me, num emolduramento quase pictório, uma mulher de traços finos e aparência muito bela, de vestes como nos aprontos da Serenissima. Os cabelos tufavam de mansinho até aos ombros, deixando-se afagar no alto por uma tiara singela; um colar cor de ébano adornava-lhe o níveo peito, como pressagiando a tepidez meio escondida e gémea, que se agitava ao bater das emoções.


Não tinha dúvidas, que era daquele ser cativante e distinto, que se desprendia a rara fragrância. Ainda não refeito por esta emoção, esta centelha ígnea, em que as almas algumas vezes capricham de encontro. Vi-a olhar-me, e acto contínuo, o seu gracioso braço estendido mostrava na mão um qualquer papel quadrangular




O mesmo caiu num propósito evidente de me envolver no que era, nos últimos minutos, toda a atenção dos meus sentidos. O pequeno conjunto de páginas, que apanhara, era agora com evidência o programa do concerto.


A cerca de alguns metros, já no interior da sala, iluminada por mil reflexos cristalinos de uma luz não natural; um corpo olvidado de tensões de pose, aquela calma das princesas nas varandas de Ítaca. Tecendo oferendas para os deuses e falando com o mar; o apelo algo adorativo que cativa e prende a quem olha; e, que, inexoravelmente nos faz pensar num tributo relogioso a uma Deusa que nos aleita de presença pujante e nos coloca em ara de sortes que apelam ao respeito contemplativo.




( continua)




José Movilha





















































































































































































































































































Sexta-feira, 26 de Agosto de 2011

MEMÓRIAS DE UM TENENTE DE CAÇADORES - ROLIÇA.17 DE AGOSTO; VIMEIRO, 21 DE AGOSTO DE 1808 - A DERROTA DE ANDOCHE JUNOT - ÚLTIMA PARTE

( exército anglo-luso)




Junot, já intitulado com o pomposo nome de duque de Abrantes, sai ele próprio de Lisboa, no propósito de mostrar aos seus generais como se comanda uma batalha. Reune em Torres Vedras cerca de 14.000 homens, incluindo 1.300 cavalos e 26 peças de artilharia. As forças anglo-lusas ascendiam a cerca de 21.800 homens, incluindo os dois mil homens da Real Legião, e também, um grande número de populares deficientemente armados. O general William Beresford achava-se a bordo da bem equipada esquadra que bloqueava a barra do Tejo.




Junot temia por Lisboa. Sabia que ao mais pequeno incentivo de fervor pátrio, a população se levantaria em revolta. No dia 20 ordena à cavalaria e ao grosso do exército que marche pelos caminhos da Lourinhã e Vimeiro; ( o plano, viemos a saber quando do aprisionamento do general Brenier ), seria o caminhar durante a noite, da artilharia e infantaria, para que pusessem passar num pequeno desfiladeiro, encontrando-se na manhã seguinte, dia 21, a cerca de uma légua das nossas posições para tentar surpreender-nos. No entanto as nossas tropas estavam muito bem posicionadas no terreno, aproveitando as boas condições naturais que o mesmo oferecia. Junot manda os generais Brenier e Solignac atacar o que lhe parecia um enfranquecido flanco esquerdo posicional das nossas tropas. Eu encontrava-me nesse flanco, confesso que se apoderou de mim um ímpeto de tanta vontade de combater, que a idéia da morte não me assombrou um minuto sequer.




Trava-se medonho e fero combate; a metralha varre corpos de homens e animais como se vento em moinha de eira se tratasse. As fumaças da pólvora sufocavam as gargantas; as tropas inglesas apresentam na artilharia uma nova peça o " shrapnell", de munições semelhantes à metralha mas com maior alcançe e efeitos devastadores. As nossas companhias estavam em grande parte equipadas com mosquetes, a arma mais apropriada para salvas e cujo carregar era o mais rápido, permitiam ainda ainda o encaixe de uma baioneta por baixo da boca do cano. Eu usava uma carabina Baker de cano estriado, cuja precisão e alcance ia aos 250m; era a arma ideal para o tiro selectivo. Os tambores rufam de compasso marcando o destino da progressão; os estandartes iluminam-se do nome dos idos, como fárois que guiam. Os peitos cavam-se de sangue vivo, roupas definham de rasgos sangrentos: uivos, gemidos, carnes soltas que se apartam misturando-se numa terra mãe que se cobre de corpos sem vida.

Clamar e desafiar a morte tem já a sua tença. São de muitas centenas as baixas, os franceses perdem mais de 2000 homens entre mortos, feridos e prisioneiros. As tropas luso-britânicas cerca de 1000. Eu exausto contornava a morte: escapava-lhe, desafiando-a em temeridades aos volteios da sua fouce. Fincando-me num calcar de mar de fetos, avançando ébrio de desafios senti a sua marca como um ferro em brasa que me maculou o braço esquerdo rasgando-me as carnes. O garrote ficou-se num vivo tricolor como a lembrar a origem do disparo.


O general Brenier, feito prisioneiro, é interrogado pelo general Wellesley, confessando que todas as tropas francesas estavam no terreno, incluindo a reserva do general Kellermann. Os franceses retiram penosamente. Wellesley traça um plano de perseguição que se não fosse sustido por sir Harry Burrard, comandante em chefe, infligiria uma das maiores derrotas de sempre aos exércitos napoleónicos. Consegue assim Junot chegar a Torres Vedras com o resto do seu exército. Numa última bravata, bem ao seu gosto, ferido no mais fundo do seu orgulho, apresenta-se como um vencedor ao povo. Mas a verdade da derrota era inuludível, os sinos das igrejas de todo o rincão pátrio começam a tocar odes vitoriosas. O povo exulta gritando liberdade, hasteiam-se novamente as quinas e a lembrança de Ourique dá cor aos mastros dos fortins lusos, naus de aves brancas contornam o bojador da opressão, nascem poentes novos. Portugal está liberto!


Na outra manhã seguinte, 22 de Agosto de 1808, Lisboa amanhece em grinaldas de Tejo novo, as flores namoram os beirais, um éco soalheiro casa com as colinas, São Roque respinga de alegres bronzes, do lugar da restinga do Restelo, partem velames de boas novas às gentes de Vera Cruz.


Numa rua íngreme, num palácio sumptuoso, correm-se veludinos reposteiros, o cravo emudece de aprontos aos pares futuros e ao fausto costumeiro. Um raivoso luto cobre a derrota de Andoche Junot; os seus generais secundam-no, cabisbaixos, não ousando olhá-lo, temendo já o vociferar do grande Corso. É emanado um pedido de capitulação às tropas anglo-lusas, o princípio do fim de Andoche Junot e da primeira invasão francesa.


Portugal liberta-se do opressor; mas, não se liberta de um desconsiderado tratamento de menoridade que o continua a marginalizar. A chamada Convenção de Sintra, por ser aqui assinada, apoia-se em termos de acordo entre unicamente ingleses e franceses, favorecendo estes. É permitido aos franceses levarem todos os bens e preciosidades fruto dos saques e muitas rapinagens.


Entre eles, os oito volumes de iluminuras do séc XV, da preciosa " Bíblia dos Jerónimos"; legado testamentário do rei D. Manuel I ao Mosteiro dos Jerónimos; que só décadas depois voltaria a solo pátrio. Também, já em 1807, colecções do Real Museu da Ajuda são levadas para Paris, pelo naturalista francês Geoffroy de Saint-Hilaire, só uma parte seria restituída mais tarde.




Pasme-se os custos que teve a liberdade, os próprios britânicos ajudam a levar o saque dos franceses, obras de arte, tapeçarias, jóias, alfaias religiosas, até cavalos de Alter. Todo um conluio vergonhoso que teve até ignóbil partilha. Numa intenção de menorizar o escandalo, o Parlamento Inglês pede mais tarde, mas sem consequências, explicações aos seus generais e a Arthur Wellesley.



Eis o que propus contar-vos, parte destas minhas memórias de um tenente de Caçadores e da visão histórica destes momentos tão pungentes que assolaram a nossa nação. Faço-o na calmia veterana de quem foi ferido na Batalha do Vimeiro. Que derramou com estoicismo algum sangue pela sua pátria, num voluntário destino afrontado, numa morte desafiada; quiseram os fados tolher-me alguma destreza do meu braço esquerdo. Deste findar de relato, neste horizonte pleno, o silêncio impera na sombra de uma árvore que guarda túmulos; em alguns dias ainda oiço o eco dos corpos que tombaram, o relincho apavorante das montadas, o som dos tambores, a metralha zumbindo como roçadora cega, o toque final a silêncio que homenageia e dá guarida aos bravos de sempre.






BIBLIOGRAFIA


Implantação do Regime Liberal, da Revolução de 1820 à Queda da Monarquia - Hernâni Cidade


A Monarquia Absolutista - Da Afirmação do Poder às Invasões Francesas - Ângelo Ribeiro e Hernâni Cidade


Liberais e Miguelistas - Mário Domingues


Junot em Portugal - Mário Domingues






José Movilha



































Quarta-feira, 24 de Agosto de 2011

MEMÓRIAS DE UM TENENTE DE CAÇADORES - ROLIÇA, 17 DE AGOSTO; VIMEIRO, 21 DE AGOSTO DE 1808 - A DERROTA DE ANDOCHE JUNOT - TERCEIRA PARTE



A imprensa foi amordaçada e controlada com forte censura. A Gazeta de Lisboa, na alçada dos ocupantes, foi obrigada a substituir as armas portuguesas que encimavam a sua primeira página, tendo que as trocar pela Águia Imperial e tornar-se orgão noticioso dos franceses. Surgem entretando no Porto e em Coimbra, os periódicos Leal Português e Minerva Lusitana, que nas entrelinhas davam nota de algum inconformismo. Em Junho de 1808 surge um extraordinário surto panfletário em Portugal. O 2 de Maio em Espanha tem grande influência nas consciências nacionais e na catalização da insurreição portuguesa. Isto permite que circule em Portugal um dos grandes libelos espanhóis de acusação aos franceses - lembremo-nos de que a Espanha estava em luta contra os franceses -; o opúsculo " Exposição dos factos e maquinações com que se preparou a usurpação da Coroa de Espanha" , de Pedro de Cevallos; na tradução portuguesa atinge significativo exito com 4 edições e alguns milhares de exemplares. Proliferam, então, os panfletos em prosa e verso de pendor patriótico e de crítica ao invasor, na sua maior parte de autores anónimos. Qualquer indivíduo vertia os seus pensamentos ou sentimentos nestes folhetins que circulavam mais , nos maiores centros populacionais; alguns de prosa mais elaborada tinham como assinaturas " um português patriota", ou um " português amante da pátria".


Enquanto isto, Junot entretinha-se em conquistas mundanas, ora avançando nos salões ao som do" Chant de départ de Méhul", ou aconchegando o chaile de Cachemira nos níveos ombros da condessa de Ega. Entretando o tenente-general Artur Wellesley larga de Cork com uma frota, em 12 de Julho de 1808. No dia 5 de Agosto as tropas inglesas, não obstante o mau tempo no mar, com vagas enormes, desembarcaram em solo português entre Lavos e Buarcos. Logo a seguir aproximam-se mais navios, com o general Spencer e as suas tropas. Renasce a esperança portuguesa: os generais Bernardino Freire de Andrade e Pinto Bacelar movimentam as suas tropas a caminho de Lisboa. Numa frente patriótica o povo adere entusiasta, com todas as armas possíveis de encontrar. A minha companhia de Regulares enquadrava ainda dez milícias a que tinhamos ministrado treino; mais do que treino tinham uma vontade indómita de lutar e vencer.

A 12 de Agosto, em Leiria, junta-se a vanguarda inglesa e o exército português. Wellesley e Freire de Andrade traçam planos para as operações, divergindo os seus planos. Wellesley não queria abandonar a costa devido à garantia que essa posição dava em termos de abastecimento ( confesso que foi uma sábia determinação, como se verá mais tarde ), Bernardim Freire parte para Leiria para fazer frente ao terrível e de má menória general Loison. A intenção era não deixar passar tropas francesas para aquem da serra de Minde. Wellesley recolhe víveres em Alcobaça, que vieram de bordo pela costa da Nazaré. No dia 17, achava-se Wellesley em marcha para a Roliça, com 13.400 homens de infantaria e cavalaria; ao mesmo tempo o brigadeiro Pinto Bacelar iniciava a marcha com as suas tropas da Beira.


Imaginai quanto esforço elaborei para guardar junto da minha bagagem de combatente, os escritos que retivessem as memórias que observava e registava nestes dias, a par da tensão da iminência do combate.

Junot sabia desde o dia 2 deste Agosto, que os ingleses tinham desembarcado e que os portugueses se tinham revoltado, o povo estava em armas. As forças francesas tinham de efectivo cerca de 26.000 homens; mas, muito dispersas por várias províncias. Junot ordena ao general Delaborde, Thomiéres e Brenier que saiam com tropas de Lisboa ao encontro do exército anglo-luso. No dia 14 de Agosto as tropas francesas tomam lugar de combate perto do lugar de Roliça. Às sete da manhã do dia 17 de Agosto de 1808, o exército anglo-luso comandado por sir Artur Wellesley, iniciou a sua marcha, a sorte desta grande batalha estava lançada.

Em pouco tempo as tropas portuguesas, onde se incluia a minha companhia e tropas da Real Legião, situavam-se na aldeia de São Mamede, enquanto duas brigadas avançavam até aos postos franceses na Roliça. Delaborde tinha 6.000 homens, esperava tropas de Loison, tropas que nunca haviam de chegar. Delaborde encontrava-se em posição difícil.


Resolve abandonar a sua posição principal na Roliça e procurar os sítios da Columbeira, atalhando num esforço desesperado ( mas reconheça-se indómito), por escarpas a coberto da montanha em busca de melhores posições. As nossas tropas persegue-os, os franceses deslocam-se para a Zambujeira dos Carros. O terreno é mais hostil ao invasor. Há centenas de mortos de parte a parte. Os franceses reconhecem a impossibilidade de manter as suas posições, sem o apoio esperado abandonam todas as bagagens e munições de guerra. A sorte de Junot ia declinar com a primeira vitória portuguesa.


( continua )


José Movilha










Segunda-feira, 22 de Agosto de 2011

MEMÓRIAS DE UM TENENTE DE CAÇADORES - ROLIÇA, 17 DE AGOSTO; VIMEIRO, 21 DE AGOSTO DE 1808 - A DERROTA DE ANDOCHE JUNOT - SEGUNDA PARTE





No pensamento de Junot, o grande Corso teria por certo ficado desagradado com esta missão falhada; urgia colher inúmeros bens e tesouros. Impor rendas municipais, ir aos guardados bens pios, confiscar, agradar e aplacar qualquer troca de planos do Imperador em relação às suas ambições. Estender dura soberania sobre a agora desprotegida nação lusa. De pavoneio em pavoneio, não serve a Junot hospedaria convencional ou palácio de menor monta. Requisita o Palácio Quintela, o mais belo e dotado de salões, baixelas e jardins, e de todos os edificados o mais formoso nas colinas que olhavam o Tejo. O Barão titular, um dos homens mais ricos do reino, macula-se de subserviência facultando tudo ao invasor. Uma deputação de práticos interesseiros nobiliárquicos apresenta-se em louvares afrancesados, levando as chaves da cidade num beija mão vergonhoso. Só o povo, os intelectuais, os artistas, tropas desarmadas na disponibilidade e alguns poucos e honrados nobres, sentiam o vergastar da humilhação. Nenhum patrióta deixou de considerar esta atitude de vender a pátria - ostracizar a bandeira e tornar Junot o senhor de Lisboa -, como um cruel insulto. Não contente com isso, Andoche Junot mandou formar as suas tropas no Rossio, e em uniforme de gala passa revista ao seu exército, proclamando uma cínica e mentirosa exortação:



" Soldados franceses! Bravo exército de Girona! Da parte do grande Napoleão vos agradeço a constância com que tendes sofrido os trabalhos e as fadigas da nossa marcha: o céu proteje o objectivo que nos propusemos de salvar esta bela cidade da opressão dos ingleses e da desordem. Finalmente, tivemos a glória de ver arvorada a bandeira francesa neste porto. Soldados, oficiais e generais; eu estou contente de vós: o grande Napoleão saberá compensar o vosso trabalho e a boa conduta, é preciso que digamos todos em altas vozes: viva o imperador Napoleão !..."



Os já alguns portugueses vendidos, proferiam vivas acompanhando os franceses. O povo humilhado não pôde de momento manifestar a sua indignação perante aqueles 6000 homens fortemente armados.



Longas lágrimas marejaram os olhos de uma multidão. Cresciam no fundo do peito promessas de liberdade ou morte, teria que ser efémero o jugo de Junot. Este aumentava a sua arrogância, não contente procedia em cada dia como um déspota senhor reinante. Promove um sumptuoso banquete e uma récita de gala no Teatro de São Carlos. Durante a mesma manda desdobrar uma gigantesca bandeira francesa, dos camarotes até à boca da cena. Nessa mesma noite são desafiadas as armas francesas, o povo rasga éditos afixados, profere ditos patióticos, apoda em letras murais avisos de não capitular. O sangue dos primeiros mártires mancha as pedras do Rossio. Junot iria saber quanto vale um povo de passado tão glorioso.



Seguem- se meses de invulgar rapinagem: os bens, as casas, as propriedades dos idos para o Brasil, são confiscadas. O cheiro a patriotismo é punido de igual modo. Junot exige cada vez mais; estabelece para si mensalmente uma astronómica renda municipal. Os tesouros sacros são delapidados, obras de arte convetuais e pinturas são arroladas para envio para França. Junot guarda já para si a inestimável e preciosa " Bíblia dos Jerónimos", dádiva votiva de D. Manuel I, ao mosteiro dos Jerónimos, de sua mandada edificação. Os generais franceses seguem a prática de Junot, pela província fora. O general Loison, o maneta, aterrorisa Évora, pune com o fusilamento e a forca qualquer gesto de insurgimento à situação. Jovens, freiras, mulheres de todas as idades, são violadas ferozmente sem qualquer contemplação ou avaliar da condição. O palácio onde Loison habita está a abarrotar de preciosidades rapinadas continuamente. Em périplos de sortidas nefastas são profanados inúmeros lugares jacentes: em Alcobaça o túmulo de D. Pedro I e D. Inês de Castro. Vestes , sacrários,cálices consagrados, estatuária pia: tudo enche toscos báus em carros que deambulam por tudo o que é lugar de cheiro áureo. O povo não tem armas, os paiois foram desactivados, muitas armas anuladas na sua eficácia combativa. Milhares de soldados desmobilizados que engrossam o contigente do povo que pouco pode fazer por enquanto para fins libertadores.



Junot pensa que tendo na mão Lisboa, poderia cercear os ímpetos de liberdade que clareavam por todo o Portugal. Nessa apreciação de sobranceria o contigente geral de todas as tropas francesas ia sendo moldado ao que seria mais tarde um táctica e fatal engano. Os generais Delaborde, Thomières, Brenier, e sobretudo Loison, ostentavam-se como pequenos reis em Coimbra, Abrantes, Castelo Branco, Évora, e outras cidades da província, cultivando na lauta vida que levavam, enormes riquezas acumuladas.






Por essa altura, finalmente, o zelo da conspiração já fermentava. Nessa Primavera de 1808 existiam células secretas constituidas por militares, estudantes e gentes do povo. Eu estava sediado com as forças comandadas pelos generais Bernardino Freire de Andrade e Manuel Pinto Bacelar; entre o forte de Peniche e a Nazaré. O nosso impedimento a uma sublevação eram as escassas armas e munições. Fazendo parte do corpo pessoal de ajudantes do general Freire; quando se fala de um enviado a Plymouth para contactar alguma centenas de portugueses que esperavam aqui o embarque para o Brasil; não hesito e parto nessa nobre missão de convence-los a lutar pela pátria. Parto numa noite escura da costa da Nazaré para a velha Albion, a bordo da nau Agamemnon, glorioso vaso de guerra que tinha combatido na vitória de Trafalgar. De nada valia o bloqueio francês, a frota inglesa era ainda a rainha dos mares; persistia ainda bem viva em todas as nações, a vitória de há três anos ( 1805), de Nelson. Em inglaterra os coronéis José Maria De Moura e Carlos Frederico Lecor já tinham uma petição para despertar o interesse do governo inglês. Quiseram os designios da história que o pedido de auxílio de Portugal à sua velha aliada Inglaterra, tivesse agora melhor acolhimento; não que Portugal estivesse como primeiro interesse, mas sim, pela mudança da guerra entre a França e a Inglaterra para outro xadrez do tabuleiro da Europa.



Selada a vontade britânica, constituiu-se uma legião com elementos que já havia em Plymouth, das armas de infantaria, cavalaria e artilharia, a que devia completar-se com recrutas a incorporar no nosso país. Chamar-se-ia Leal Legião Lusitana: formada por três batalhões de caçadores e uma companhia de artilheiros. Adoptando-se como fardamento o verde com vivos brancos, as duas cores da Casa de Bragança. Cada batalhão tinha oito companhias, cada uma com 1 capitão, 1 tenente, 1 alferes, 3 sargentos, 192 cabos e soldados e 2 tambores. O estado maior da legião seria de 3 tenentes-coronéis, 3 ajudantes, 1 quartel-mestre, 2 sargentos ajudantes do mesmo, 1 capelão. 1 cirurgião-mor, 6 cirurgiões ajudantes, 3 tambores-mores e 4 artifíces. A junta do Porto retiraria da caixa militar inglesa as verbas necessárias para a manutenção do corpo militar. Coube-me a honrosa distinção de comandar uma destas companhias.



O entusiasmo do povo em pegar em armas alastrava continuadamente, os dias decisivos para conquistar a liberdade e expulsar o invasor, adivinhavam-se para breve.






( continua )






José Movilha










































Domingo, 21 de Agosto de 2011

MEMÓRIAS DE UM TENENTE DE CAÇADORES - ROLIÇA,17 DE AGOSTO, VIMEIRO, 21 DE AGOSTO DE 1808 - A DERROTA DE ANDOCHE JUNOT - PRIMEIRA PARTE





Alquebrado e algo triste, mas esperançado nos vindouros, escrevo estas linhas que são parte das minhas memórias; ciente que daqui a muitas décadas serão lidas com o despertado interesse de quem medita e pondera nas agruras e privações que as gentes deste rincão luso passaram. Escrevo de manhã, quando o enleio das névoas frescas da serra trazem o perfume das estevas, do rosmaninho e da cidreira, ouvindo o chilreio forte dos melros, a delicadeza do rouxinol e o murmúrio compassado da água do açude. Dá-me guarida um frondoso chorão de pendente folhagem; uma laje de idade vetusta serve-me de mesa. Nela distendo o papél e alguns doutos livros com apontamentos da nossa gloriosa história. Vivo então hoje só. Com o olhar da saudade e da lembrança. Neste local de tanta vida outrora, só resto eu, os meus livros e a fidelidade da minha cadela Vitória, da antiga estirpe e raça dos cães rafeiros que a Serra d'Ossa sempre conheceu.



Despertei para a vida neste local, perto da formosa Estremoz, no Alto Alentejo; corria o ano de 1775, tendo por nome Cândido - mais tarde o meu padrinho, curador da casa de Bragança, dizia-me que um senhor francês de nome Voltaire, gostaria deste meu nome -, mais tarde percebi o que ele queria dizer e li esses seus livros. Eu era o segundo mais velho de quatro irmãos: dois rapazes e duas raparigas. A minha família era pobre, o meu pai tinha uma pequena courela, uma pequena parcela de terra de onde tiravamos o nosso sustento, vendendo ainda na vila vários dos outros produtos hortícolas da nossa produção. Quis a caprichada sorte mudar o meu destino futuro: um dia um abastado senhor, nosso cliente de há muito, viúvo e falho de descendência, querendo honrar os votos de desejo de um filho, que tanto a esposa clamou em vida. Pediu ao meu pai a minha tutela e o meu apadrinhar para os estudos e os aprontos da vida. Acedeu o meu pai e a minha mãe, ainda que com grande mortificação pela separação futura que isso implicava; mas explicando-me que seria para meu bem, era uma sorte que me tinha tocado; poderia aprender a ler, e quem sabe estudar mais e ter melhor vida. Despedi-me dos meus irmãos e dos meus pais, com muitas lágrimas nos olhos, despedi-me do "manjerico", o nosso velho burro, e dei os meus grilos e as gaiolas ao meu irmão Miguel. Vim para a vila de Estremoz com muita saudade da nossa casa, dos meus pais, meus irmãos, e de tanta coisa boa que aquele lugar no campo me dava. O meu padrinho tinha uma linda casa na parte alta de Estremoz, não muito longe da Torre de Menagem; casa tão grande que nos primeiros tempos me custei a adaptar. Logo o meu padrinho me levou para a escola dos frades Agostinhos, que começaram por me dar os primeiros saberes. Eu esforçava-me por ser um aluno aplicado e diligente; o meu padrinho não poupava nas finanças para me levar ao bacharelato, estando visivelmente contente com os meus progressos. Eis-me anos mais tarde titular do melhor dos graus académicos; e, por vontade patriótica do meu padrinho, ingressei na Escola Real do Exército. O meu labor castrense era denotado e admirável, montava eximiamente, era lesto e temível com o sabre, não falhava um tiro a cem passos. Em 1793, acabava eu os meus estudos militares, dá-se a campanha do Rossilhão e eu fui incorporado no Exército Auxiliar à Coroa de Espanha. Espanha e Portugal, com o apoio britânico declaravam guerra à França revolucionária. O general inglês John Forbes comandava este exército de 5.400 homens. Mas quis o destino que eu, como alferes, fizesse parte da Divisão do brioso general Gomes Freire de Andrade. Estivemos nesta dura campanha até 1795, e as nossa forças cobriram-se de glória; quem me diria a mim, que 14 anos mais tarde teriamos invasões francesas em solo luso e que eu combateria contra as forças de Junot. Já como alferes, no meu fervor de observação, inteirava-me do periclitante abandono e declínio do nosso exército, os altos cargos de comando eram dados à impreparada nobreza, as regiões das províncias ao Sul do Tejo tinham por comando o senhor Duque de Lafões, que Deus guarde, ancião alquebrado e atormentado por persistentes ataques de gota; longe da realidade e do terreno. Emanava as suas ordens da capital, do seu palácio, nas cercanias da Madre de Deus, em Lisboa. Os oficiais briosos e de carreira não tinham voz nem patente nos altos comandos.






Resultando de como 14 anos mais tarde, 1807, uma pleiade de briosos jovens que tinham abraçado a carreira das armas, foram impedidos de lutar; quase desarmados, sem voz de comando superior, corrompidos numa inércia que apontava à vassalagem quando os franceses invadissem o reino. E, nesse ano de 1807 avançaram as tropas de Junot e de D. Manuel Godoy, a Espanha agora movida por outros interesses esqueceu o auxilio da Campanha do Rossilhão. Pelas tais razões de decrepitude do exército português, Junot avança sem conhecer a oposição das forças regulares portuguesas. Só o " general Inverno" tolhia os passos aos franceses. Atolando-os nos terenos alagados, fustigando-os de tempestuosa chuva, fazendo-os arrastar por montes e vales na direcção a Lisboa, que Napoleão não estava satisfeito com a progressão, e Junot não queria perder as graças do grande Corso. Houvesse uma réstea de patriótica vontade organizativa por parte da nobreza em assumir os seus deveres para com o reino, e os invasores não tinham passado as terras raianas da fronteira com Espanha.



Eis, como a treze de Dezembro de 1807, um domingo, o povo de Lisboa soluçou de raiva ao ver arreada a bandeira nacional no Castelo de S. Jorge; e o inçar da bandeira francesa. Junot irado queria descarregar a sua vingança em tudo o que fosse ainda afirmação lusa. Dias antes, como louco, tinha vagueado no cais de Belém, soltando imprecauções, entre os seus generais, maldizendo a rigorosa invernia que o tinha feito chegar tarde. Apontando os seus punhos contra o horizonte oceânico, que punha já a bom recato desde 29 de Novembro a família Real rumo ao Brasil , no bojo da nau Princípe Real . Seguindo a inúmera prole que a acompanhava, na Afonso de Albuquerque, ladeando as fragatas de apoio Urânia e Minerva, ainda mais 50 naus com a nobreza e criadagem possível . O Contra Almirante Sydney Smith comandava os navios protectores ingleses, que velavam pela segurança dessas amontoadas e angustiadas 2000 criaturas que cumpririam uns temerosos e rudes 99 dias até à acalmia portuária de São Sebastião do Rio de Janeiro.






( continua )






José Movilha