segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

O REPÓRTER NO TEMPO E NA HISTÓRIA - XXIV





ENTREVISTA COM SÃO NUNO DE SANTA MARIA

24 de Junho de 1360 - 1 de Novembro de 1431

BATALHA DE VALVERDE - Segunda e última Parte


Repórter - D. Nuno, o senhor foi deveras uma figura de bom exemplo humano a todos os níveis. A guerra não o apaixonava, não cultivava a barbárie, a glória não era para si uma meta, não se embriagava de vitórias. Não havia comandante mais amigo dos seus homens, quem instilasse mais conforto e ânimo nas horas de perigo e decisivas, quem mais semeasse a fé e a bondade que viviam permanentemente no seu coração. E quem fosse mais piedoso com os vencidos e com as populações indefesas. Talvez esta batalha de Valverde, passada nas margens do Guadiana, fosse de todas as que participou a que colocou a sua vida mais em perigo. Ia e vinha da vanguarda à rectaguarda, às alas, a todos os lugares em que a sua espada era necessária, não havendo ferro que o molestasse, fadiga que o tolhesse. Vinha realmente dos céus a força da sua missão transcendente de salvar Portugal.


São Nuno - Tudo o que diz: é elevar-me a uma dimensão, a uma gesta que eu considerava somente como missão obrigatória. Os meus deveres eram todos esses que enumerou para todas as gentes, amigos e oponentes, não lhe chamo inimigos, eles também lutavam pela sua pátria e mereciam respeito. Sim, a nossa situação nesta batalha, pela circunstância posicional de atravessar um vau de um rio, foi muito vulnerável aos ataques vindos das duas margens, mas conseguimos sair dessa posição com bravura e destemor.


Repórter - Como aconteceu esse ascender e ganhar socalcos na margem, pejados de castelhanos e, chegar ao cimo à vanguarda dessas tropas ?


São Nuno - Tínhamos de romper com uma força hercúlea, apostar todas as forças em sair daquela posição. Quando chegámos ao cimo deparámos na campina com as forças dos mestres de Calatrava, Alcântara e Santiago, o grosso daquelas forças de Castela. Foi o momento culminante da batalha: pois contrariamente ao que eles esperavam, uma paragem nossa, surpreende-os a força e o vigor da nossa investida.


Repórter - Entretanto parece que o São Nuno é atingido num pé por uma flecha, resgatando a mesma da ferida prossegue acorrendo a todo o lado. A batalha feria-se medonha de ceifar vidas. Os ferros tiniam misturando-se com os gritos de exortação à coragem, a lembrança dos patronos era invocada na rouquidão de mil gargantas; os balsões e estandartes pios norteavam os terços como faróis, tótemes aglutinadores que abriam caminho. Eis que o São Nuno deixa momentaneamente de ser visto pelos seus capitães. Um gélido pavor perpassa por todos: teria sido atingido por ferro fatal? Jazia já entre a multidão de corpos que cobriam a erva rala ? Onde estava o Condestável ?, apodera-se uma crescente quebra e ansiedade dos nossos. Era como se de súbito faltasse a força a milhares de braços, uma energia escoada, perdida, um conforto que quando preciso fazia fortes as fracas forças. Entretanto Ruy Gonçalves procurando, avista junto aos penhascos a silhueta de um cavalo, ao lado um pajem que segurava armas; acerca-se: o São Nuno de joelhos rezava, elevando os olhos ao céu, nas mãos a pia relíquia vinda de Aljubarrota, o relicário colhido na tenda real de Castela, originário da Catedral de Burgos, continha um espinho da coroa do Redentor, ossos dos santos mártires e uma moeda de ouro da traição de Judas. Parece que o seu rosto era banhado por uma luz desconhecida à vista dos homens, da sua oração desprendia-se um êxtase, um silêncio, uma acalmia, como se o fragor da batalha não existisse.


São Nuno - Sim, tive necessidade de orar, de orar muito à Virgem!...Elevar aquela relíquia pia aos céus e pedir com humildade protecção; firmar ali a promessa de erigir em Lisboa um templo para sua glória, se com as suas mercês as nossas vidas fossem poupadas. Senti o sinal de que todo o meu ser tinha o sopro divino, arrostaria os maiores perigos sem temor.


Rep.- Parece que Ruy Gonçalves teria dito elevando a voz: «Senhor!...Estamos perdidos!...», Gonçalo Annes acercando-se gritava: « Senhor!...Vamos todos morrer!...». O São Nuno continuava a rezar como transportado ao céu, como se noutra dimensão, sem ouvir, o que se passou a seguir ?


São Nuno - é natural que esses meus validos temessem que tudo estivesse acabado, que a batalha estivesse perdida, mas eu tinha o meu tempo consagrado à Virgem Santa, precisava de orar. Ao sinal de me erguer tinha a certeza da vitória. Voltei à batalha que rugia medonha, parecendo pender para Castela. Acerquei-me de Diogo Gil meu alferes-mor e da nossa pia bandeira. Apontei-lhe o estandarte do mestre de Santiago que norteava no cume do monte em frente. Parti para lá abrindo clareiras que ninguém podia contrariar, tudo caia à minha volta como espigas em tempo de segar. Os homens recobraram ânimo, avançaram atrás de mim nesse ímpeto avassalador. O mestre de Santiago jazia por terra, a bandeira apagava-se de dizer presente. Castela desorganizava-se perante a força imparável dos portugueses; as mesnadas dos outros nobres desarticularam-se, tudo fugia pela campina fora tentando acautelar a vida, era bem o vergar da derrota e humilhação o que viram as gentes de Mérida, desse orgulhoso exército castelhano que dias antes ali tinha passado tão certeiro da vitória.

Ficámos no lugar da batalha até ao outro dia, permitindo que gentes enterrassem os seus e cuidassem dos feridos. No outro dia seguimos em sossego o curso do Guadiana, transportando valioso espólio, direito a Elvas onde entrámos a 20 de Outubro desse ano da graça de 1385, tinham decorrido dezoito dias de expedição vitoriosa em terras de D. Juan de Castela.


Repórter - Depois de Atoleiros, Aljubarrora, o que representou para nós mais esta vitória, Valverde, desta vez em terrenos de Castela ?


São Nuno - Foi muito importante, mostrou que escasso tempo passado sobre a grande vitória de Aljubarrota, nós afrontávamos Castela no seu seio, estava intacta a nossa determinação de sermos livres; poderíamos doravante passar a fronteira e inquietar praças castelhanas a qualquer momento.


Repórter - Seria o caminho para as tréguas e o reconhecimento por parte de Castela da legitimidade de D. João I como rei de Portugal ?


São Nuno - Sim, era minha convicção que estas feridas de guerra eram para Castela um sinal para se aquietar e não importunar pela guerra Portugal; uma abertura para um tratado de paz. Tudo isto era muito importante também para os nossos aliados ingleses e para as forças e tratados havidos na Europa.


Repórter - Que ia fazer o São Nuno a seguir ?


São Nuno - Sentia que grande parte da minha missão estava cumprida, ajudara a salvar Portugal desde a primeira hora de perigo para a nossa independência. Estive sempre onde devia estar não me furtando a perigos e sacrifícios. Bani a intriga, cupidez, inveja, o suborno; as propostas oferecidas para trocar a honra da pátria. A outra metade do meu caminho adivinhava-a na vetustez dos claustros, na oração, na tomada dos preceitos pios, no acolhimento das almas sedentas de florido caminho; no tratamento dos corpos mortificados dos que sofrem e procuram um refrigério para as chagas, para a fome e desigualdade que assola todos os dias. Mas também pensava que se de mim a pátria voltar a precisar, vestirei de novo armadura, empunharei a espada da defesa e farei tudo de novo pelo nome de Portugal.


(continua )

josé movilha





quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

O REPÓRTER NO TEMPO E NA HISTÓRIA - XXIII












ENTREVISTA COM SÃO NUNO DE SANTA MARIA
- 24 de Junho de 1360 - 1 de Novembro de 1431

BATALHA DE VALVERDE - Primeira Parte


Repórter - Entretanto, enquanto o São Nuno ruma para o Alentejo, para em Estremoz congregar tropas e depois atravessar a fronteira para dar luta aos castelhanos no seu próprio solo. O rei D. João I, antes de ir para norte para submeter algumas praças ainda castelhanas, acorre a prover para o arranque das obras do mosteiro dedicado a Santa Maria da Vitória, promessa feita no campo de batalha, nesse 14 de Agosto, dia da " Batalha Real" que marcou definitivamente a nossa independência. Havia já indicações dos mestres construtores de que as terras que tinham sido teatro da peleja, não ofereciam grandes condições para a edificação e tinham muita falta de água. Escolheu-se então o lugar de Jardeira uma pequena povoação que ficava no vale em frente e distava muito perto, seria mais tarde conhecida como a vila da Batalha.


São Nuno - Sim, o rei tinha grande preocupação em que as obras começassem, a promessa se cumprisse, a glória da intervenção da Virgem fosse descrita com o cinzel e, fosse dada lembrança aos homens vindouros do que se tinha passado nesse dia. O local não foi escolhido por mero acaso, a construção obedeceu a ditames, desígnios e orientações que vieram do alto. Eu, em Estremoz, durante o mês de Setembro, formei a nossa hoste, composta de mil lanças e dois mil peões e besteiros. Na vanguarda seguia comigo o alferes-mor Diogo Gil que transportava o nosso estandarte protector. Na rectaguarda o novo prior do Hospital, Álvaro Gonçalves Camelo; numa das alas Martim de Mello e na outra Gonçalo Annes. Saímos direito a Vila Viçosa, progredindo pelos campos passámos o Guadiana e internando-nos pela charneca tomámos caminho entre Olivença e Valverde-de-Leganez para entrar depois em Almendra.


Rep.- Entretanto já algumas léguas internados em solo de Castela, não sofrem qualquer afronto de tropas castelhanas ?


São Nuno - Sim, internados no terreno cerca de oito léguas, de tropas de Castela não era dado ver. Gente dos campos atemorizava-se com a nossa presença, verificando que eram tropas do reino de Portugal, temiam perder vidas ou verem queimados os seus lares e celeiros, desfeitas as suas colheitas. Mas, não tomava destas indefesas gentes mais do que o prover do sustento para a hoste, tranquilizando-os e ordenando de que nada de mal lhes acontecesse. Chegados ao lugar de Parra vimos no alto da serra vários cavaleiros, que viemos a saber mais tarde serem forças do Barbuda, Martim Annes, recém nomeado mestre de Alcântara e com sede no castelo de Faria. Observava-nos, mas não procurava combate. De Parra fomos para Zafra, depois para leste, para Fuente-del-Maestro, encontrando o Matachel que leva as suas águas ao Guadiana. Subindo por Almendralejo e Usagre fomos até Villa- Garcia. O curso do pequeno rio era agora esquecido do caudaloso vigor da invernia e, somente pequenos charcos se interligavam entre si numa estreita ponte de brancos seixos. Ao Chegar a Villa Garcia encontrámos o castelo recentemente abandonado, pois a guarnição fugiu ao avistar-nos.


Rep.- Não lhe pareceu estranho, até então, não se ter deparado com forças oponentes ?


São Nuno - Estava muito fresco o desaire recente de Aljubarrota. Havia hostes de condados em que o senhor da alcaidaria tinha perecido na batalha. Ascenderam novos comandantes era uma fase de reorganização. Esta nossa presença tão audaz surpreendia-os, possivelmente tentavam agrupar o maior número de efectivos para nos atacar. No outro dia de manhã fomos nós surpreendidos pelo atroar próximo de trombetas, mas não era pronúncio de batalha; era o aproximar de um arauto portador de um desafio, um molho de varas em que cada uma representava uma espada de um senhor de Castela. Conduzido até mim, o emissário, respeitosamente ajoelhou estendendo-me uma primeira vara que era o desafio do Mestre de Santiago D. Pedro Munoz; seguiram-se outras em nome de: D. Alfonso de Guzman; os mestres de Santiago e Calatrava, o conde de Medina Coeli, D. Gastão de la Cerda; o senhor de Marchena e o de Aguilar; e a enviada pela casa dos Vinte-e-Quatro de Sevilha.


Repórter- Os castelhanos perante tal temeridade de os afrontar nos seus terrenos, agrupavam-se pensando num desafio final que desagravasse as suas derrotas passadas ?


São Nuno - Tudo indicava isso, nestes dias do nosso internar por terras de Castela, juntavam estes forças para a próxima batalha. Recebi as varas dos desafios, mandei dar cem dobras ao escudeiro. Que dissesse aos seus senhores que aceitava todos os desafios e com eles me sentia honrado e que em breve os esperava no campo de batalha.


Rep - Não temia um dia funesto ? Um abrandar da protecção divina ? Perecer como qualquer mortal que desafiava a morte em lutas tão brutais e sangrentas ?


São Nuno - Como lhe disse: não temia a morte em batalha. Se os desígnios divinos determinassem uma chamada aos céus, acataria a vontade da Virgem Mãe; seria para mim o exercício do cumprimento de um dever para com a pátria. Aceitei o repto, e contando com a batalha para breve, fui para norte, descendo o trilho do Guadamez, direito ao Guadiana, quinze léguas que nos levaram até Magacela. Tropas castelhanas seguiam-nos à distância. Marginando o Guadiana pela esquerda, no sentido de o passar, chegámos a Villa-nueva-de-la-Serena; entre Medellin e Merida, o Guadiana descreve aqui uma volta muito cingida, ficando muito perto o local de Valverde, de Merida, formando um afigurado promontório que se debruça sobre a campina. Ladeado de montes graníticos que contrastam com a extensa planície aluvial. Acampámos a jusante da embocadura do Matachel. Dali avistavam-se as forças do Barbuda, acantonadas no cerro.


Repórter- Possivelmente o Barbuda esperava a junção de todas as forças para atacarem. Estes seriam: as hostes de Sevilha, Córdova, Jaen, Mancha e de Aragão. Isto queria dizer muitos milhares de combatentes, ao que se pensa hoje entre cinco e seis mil homens; de novo, como em batalhas anteriores, a desproporção de forças era grande pendendo para o lado de Castela. Observadores nossos avançados nas cumeadas, vieram trazer a notícia de que os castelhanos eram bastos como a erva. Pela situação descrita, eram eles agora que ocupavam uma posição bastante forte no cimo dos morros; invertiam-se as posições de Aljubarrota ?


São Nuno - Sim, novamente ia ocorrer uma grande peleja, agora em território de Castela, em que as forças portuguesas eram em menor número. Estavámos informados de que todos os comandantes disponíveis de Castela tinham acorrido com as suas hostes, era um exército forte. Mas eu confiava na nossa bravura e determinação e, mais uma vez no anteparo dos céus. Rompia então a manhã, nesse Outubro de 1385 que já ia pelo meio. Formámos em quadrado e dirigimo-nos para o vau que o Guadiana nos mostrava a légua e meia do arraial. Passaríamos ali em direcção a Valverde. Ao chegar-se ao lugar da passagem despontam à vista centenas de oponentes que se concentravam nas margem esquerda e à nossa frente na direita. Era a intenção de nos meter numa apertada tenaz que nos flagelaria pela vanguarda e rectaguarda ao mesmo tempo.


Repórter-Com o vau do rio algo impetuoso de corrente, com tantos inimigos nas duas margens bem entrincheirados e em posição vantajosa, como é que o São Nuno de pronto avaliou a situação que nos obrigava a romper as águas para o outro lado ?


São Nuno - Avaliei, que romper, afrontar o que se deparava, era o único caminho para chegar ao cimo da margem direita. A nossa hoste em quadrado, compactamente, ombro a ombro, fazendo uso dos escudos repelia as lanças, setas, virotões e pedras que desabavam de cima. Passado o vau, rompeu-se pela encosta acima com tanto ímpeto que os castelhanos ficaram surprezos. A margem era uma progressão de socalcos que se iam ganhando palmo a palmo em feroz peleja. Porém, a nossa rectaguarda era atacada pelos castelhanos posicionados na margem esquerda e sem perder a formação tínhamos que nos agigantar e acorrer onde era mais preciso.

(continua )


josé movilha

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

O REPÓRTER NO TEMPO E NA HISTÓRIA - XXII



ENTREVISTA COM SÃO NUNO DE SANTA MARIA

24 de Junho de 1460 - 1 de Novembro de 1431

Aljubarrota - Sexta e última parte


Repórter - Entretanto nas sombras dessa noite que começava, os archotes davam a visão medonha do campo de batalha alastrado de mortos, ouvindo-se gritos de pelejas distantes, estertores moribundos para quem o olhar de piedade era um olvido. Parece que D. João I encontra o seu irmão Diog'Álvares, que vinha prisioneiro de Egas Coelho. O rei parece que o abraça estando disposto a perdoar-lhe ter combatido por Castela. Entretanto corre que estavam a atacar o Condestável; D. João acorre para esse pretenso lugar: na muita escuridão gentes iam e vinham procurando castelhanos, alguns avistam Diog'Álvares que vestia um laudel com as cores de Castela, disso ocorreu trespassarem-no a golpes de lança.


São Nuno - Sim, tudo isso foi muito terrível para mim, esta guerra com Castela já tinha cerceado a vida de quatro de meus irmãos mais chegados. Três em pelejas, no campo de batalha vestiam as cores de Castela, outro que nas nossas cores comigo terçava, que morreu no assalto ao Castela de Vila Viçosa. Mas digo-lhe: os oponentes mereciam de mim a maior das piedades e rezava pelas suas almas. Já no despontar da alva pudemos então avaliar do espólio que ficara a terreiro. A bagagem era muita e vária, tendas reais riquíssimas, os balsões e bandeiras reais de Castela; o oratório de prata da capela real; uma Bíblia e um relicário muito lavrado; o próprio ceptro castelhano de cristal com lavores artísticos engastados em ouro. Mais coisas iam chegando: os colossais caldeirões de cobre da cozinha, que logo foram destinados para os frades de Alcobaça. Mas, entre tantos despojos, nenhum nos cativou mais e orgulhou, do que a bandeira real de Castela, com o dragão bordado em campo verde; um dragão que já não era altaneiro e já não ondulava mostrando-se como norteio às suas gentes.


Rep - Entretanto era terça-feira dia 15 de Agosto de 1385, dia de Nossa Senhora. Sabia-se já que o rei de Castela tinha abandonado o local da batalha e tinha rumado a Santarém. Ao que se sabe o São Nuno vai a Ourém, ao seu condado, para rezar no local onde irá mandar construir o templo que tinha prometido à Virgem, durante a batalha.


S. Nuno - Chega D. Juan de Castela ao local de Santarém, após três horas de cavalgada. Ali no Paço dá largas ao seu desespero, rompendo num pranto irado com os seus validos, derrubando baixelas, arrancando veludinos, a todos verberando:« desastre!...Desastre!...» Proferia sem cessar; cerrando os punhos que batiam incontidos no mobiliário circundante. Entretanto Guzman, Mestre de Alcântara, ruma com as suas forças quase intactas na peugada do rei, caminho de Santarém, para se lhe juntar, recolhendo soldadesca e cavalaria dispersa que rumava incerta e perdida pelas campinas. Quando ali chega, o rei tinha partido, as notícias do desastre avolumavam-se e tingiam-se de funestidade; muitos dos maiores de Castela tinham perecido na batalha, ele rei, só queria rumar a Sevilha; toma um batel e desce o Tejo ao encontro da esquadra castelhana fundeada em frente de Lisboa. Vai de imediato para a nau de Pero Afan de Ribeira: parte para Sevilha com escolta de três galés. Por esta determinação tinha Santarém ficado livre de castelhanos. A população liberta os vários presos portugueses e, todos em conjunto tomam posse da vila, procurando quem era pelas cores de Castela e perseguindo e prendendo castelhanos em fuga.


Repórter- Não havia dúvidas, era uma vitória consumada. Castela tinha sido atingida com um golpe fulminante e decisivo, mais uma vez saía derrotada de uma batalha com as tropas portuguesas, desta vez na maior das batalhas em que tinham empenhado milhares de homens. Isto mudava tudo: as guarnições castelhanas espalhadas pelo país abandonaram as suas posições, fugiram para Castela, os alcaides portugueses que jogavam um jogo expectante aguardando pendores futuros, pronunciaram-se por D. João I. O país sacudia negras nuvens que até há bem pouco tempo se apresentavam como grilhetas à independência. O que começou de novo para Portugal a partir desta data ?




São Nuno - Tudo mudou graças à Virgem. Após o rei de Portugal D. João I e todas as nossas forças terem ficado no campo de batalha durante três dias para, segundo as regras da Cavalaria, confirmar a vitória, mostrando que ninguém mais se atrevia a disputá-la. Rumámos para Alcobaça onde fomos recebidos pelo prior de Cister, a hoste acampou no vale de Chiqueda e D. João I mandou que piedoso trabalho fosse de pronto feito: enterrar os inúmeros mortos castelhanos que se espalhavam nos campos em redor. Dali o rei mandou levar para Lisboa as bandeiras de Castela, para logo as muitas gentes da capital do reino verem os mais significativos dos troféus. Entretanto chegavam notícias da debandada do rei D. Juan de Castela e de tropas e guarnições de castelos. Nesse próximo sábado chegámos a Santarém, o povo dava vivas entusiásticas saltando e cantando nas ruas; guardando as portas das igrejas e conventos onde alguns castelhanos se acoitavam ao abrigo destes lugares santos. Deparou-se-nos uma multidão de prisioneiros que impressionava pela quantidade, chegavam de todos os lados como enorme rebanho e iam acorrentados e em grandes bandos beber ao Tejo. Comida não havia para prover o sustento destas pobres gentes, Resolvendo o rei usar de compaixão; libertar todas aquelas gentes, que fossem sem qualquer perigo para as suas terras.

Eram neste cálido mês de Agosto o acontecer de esperanças novas para todos nós. A pátria estava liberta, os solos e caminhos eram senda lusa doravante, sem perigos opressores, os balsões das quinas iam de novo ondular em todas as menagens do reino. Tinha valido a pena confiar nos céus, ter dado o peito à protecção esperada, o reino estava salvo.


Rep- Parece que em Lisboa, a mártir de há um ano pelos agraves do cerco, se declarava um júbilo incontido, saíram procissões em honra de Nossa-Senhora-da- Escada e de São Jorge. Homens, mulheres, clérigos e frades cantavam acções de graças e louvores a tão grande protecção divina. Ao passar a Ribeira, em frente às galés, mostraram-se às tripulações as bandeiras reais ganhas na Batalha; aquelas naus e galés eram a última presença castelhana ?


São Nuno- Sim, o povo de Lisboa tão atormentado pelo cerco de há um ano, deu largas ao seu exultar; com manifestações pias e naturais folguedos. Chegam mais notícias de praças importantes reavidas pelas nossas cores: Leiria, Óbidos, Alenquer, Torres-Vedras, Sintra, estavam livres. No Alentejo: Crato, Monforte, Vila-Viçosa, Mourão. Doravante tudo iria ser diferente, o rincão luso seria um bloco que teria por divisa a unidade de todos.


Rep- São Nuno, já lhe lhe falei de Sandoval, de Ayala, do nosso Fernão Lopes, não lhe falei do cronista francês Froissart, que também tem mérito no relato da batalha, buscando fontes em entrevistas feitas três anos após a mesma nas pessoas de um cavaleiro gasgão e um fidalgo português ambos participantes na luta; também, na crónica sobre a sua vida escrita por autor desconhecido entre 1431 e 1440. Todas estas fontes nos dão relatos muito detalhados da batalha. Pergunto-lhe: na sua visão experimentada de combatente e estratega das nossas posições, quantas vidas pensa que se perderam no campo de batalha de um e outro lado ?



São Nuno - Sim, foi graças a esses cronistas que se registaram muitas ocorrências das batalhas, todos tiveram o seu mérito de um relato para a posteridade. Nunca saberemos com muita exactidão o número dos que tombaram para sempre. Da parte portuguesa parece que foram mais de mil; da parte de Castela estima-se em quatro mil os que ficaram no campo de batalha e, na fuga pereceram cerca de cinco mil às mãos das gentes dos campos; outros cinco mil foram tomados prisioneiros, esses que D. João I mandou libertar e seguir para as suas terras de Castela. Foi tal a intensidade desta funesta campanha, que Castela decretou um período de luto de dois anos.


Repórter - O rei reúne então em Santarém, quer lavrar doações a todos os que foram fiéis a Portugal.


São Nuno - Em Santarém o rei D. João I reunia o conselho, era sua intenção premiar todos os que tão grande entrega tinham tido pela pátria. A Vasco Martins de Mello foi confiada Santarém; era uma justo entregar, uma homenagem que lembrava seu filho morto por querer cumprir um juramento: deitar a mão ao rei de Castela, dessa temeridade heróica, bateu-se até as forças lhe faltarem e os muitos castelhanos o abaterem. Para outros combatentes foram doadas muitas terras e rendas, a ponto do Dr. João das Regras dizer que a proceder assim iríamos ter «um rei sem reino...».


Repórter - Foi o rei muito magnânimo para si, o estratega da nossa vitória, fez-lhe doações importantes: confirmou-lhe o condado de Ourém e doações anteriores; o condado de Barcelos; Arraiolos; acrescentado-lhe Porto -de-Mós; Rabaçal; Sacavém e os seus reguengos; as rendas dos judeus de Lisboa e seu termo; Eram tantas dobras de bom valor, que logo os que a inveja alimenta se puseram a comentar. Tornava-se o homem mais rico do reino ?


São Nuno - Eram mercês a mais: não merecia tanto, tal não me envolveria em sobrançarias, desmandos ufanos e falta de humildade. Iria repartir muito, fazer doações, acudir aos necessitados e doentes. A riqueza não me transformava. Já perpassava por mim a voluntariosa ideia de um dia quando o reino não precisasse de mim, me desapossar de tudo por boas causas.


Repórter - Foi aqui, nesta altura, que pagou ao Alfageme de Santarém, esse artífice profeta; que corrigiu a sua famosa espada de saga. Livrando-o de uma malfadada intriga tecida por um escudeiro; intriga essa a que o rei tinha dado provimento mandando espoliar o artífice em favor do escudeiro, pela sua acção o Alfageme foi pago em moedas e em justiça, nada mais o molestando.



São Nuno- Sim, nunca mais tinha tido oportunidade de passar na forja do Alfageme, pagar-lhe e dizer-lhe que a sua profecia de eu ser conde de Ourém se tinha cumprido e, que nunca têmpera de lâmina de espada se tinha visto tão resistente. Fiquei contente por o ter salvo e aos seus haveres, ter podido ser-lhe útil e ajudar a fazer justiça.



Repórter - Entretanto o rei D. João I vai a Leiria para negociar o resgate do cronista Ayala, que tinha sido feito prisioneiro. Trinta mil dobras cruzadas e trinta cavalos. Dez mil dobras foram recebidas em prisioneiros portugueses de outras guerras com Castela. o resto foi pago em ouro. Ressalta com agrado a importância que tinham os cronistas e letrados para qualquer côrte da época.

O que ia fazer o São Nuno a seguir ?


São Nuno - Despedi-me do rei, ainda havia muito que fazer para tornar consolidada esta recente vitória. Parti com as tropas para o Alentejo, esse lugar onde sempre congreguei esforços e despertei gentes para a causa pátria. Atravessaria a fronteira para travar luta no seio de Castela. Mostrar que havia uma legenda a respeitar, um solo que não se curvava a outros estandartes, que estávamos presentes e não vivíamos de uma só vitória. Em breve seria traçada outra legenda, seria mais uma jornada da nossa afirmação.


(continua)


josé movilha



























quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

O REPÓRTER NO TEMPO E NA HISTÓRIA - XXI




ENTREVISTA COM SÃO NUNO DE SANTA MARIA




24 de Junho de 1360 - 1 de Novembro de 1431




ALJUBARROTA - Quinta

Parte


Repórter - A tarde declinava com rapidez, não haveria muitas mais horas de sol. A batalha parecia iminente, mas no entanto não se feria de avanço e confrontos. Isso seria de muita preocupação para si, São Nuno, e, para toda a nossa estratégia. Chegou a pensar que o confronto não se realizaria nesse dia ?


São Nuno - Sim, em breve seria noite, o adiar da batalha por parte dos castelhanos representava para nós um imprevisto que nos podia estragar a estratégia pensada. Havia uma parte do conselho de Castela, o mais conservador e algo prudente, que era por um adiamento para o outro dia; outro grupo, o de gente mais nova queria atacar de imediato argumentando que nada deteria o poderio em campo; são esses que convencem o rei D. Juan de Castela.


Repórter - Começa então a batalha com disparos dos trons, os tais canhões nunca vistos nos nossos arraiais de peleja ?


São Nuno - Sim, subitamente acontece um zumbido seco, uns ecoares cavos e sucessivos a que não estávamos acostumados, eram os disparos dos trons que rasgavam à nossa frente o horizonte toldando o campo de ninguém com uma fumaça enegrecida. Os projécteis de pedra causaram apenas danos de morte a um inglês e a dois escudeiros que eram irmãos e, que estavam a campo de peleja pendentes de serem julgados em breve por terem causado a morte a um clérigo. Foi isto tomado pelos que tinham presenciado mais de perto o deflagrar, como castigo divino aos dois sacrílegos e, um poupar aos combatentes crentes que defendiam Portugal.


Repórter - Enfim, era o começo da tão esperada " Batalha Real" que iria decidir os destinos futuros do solo pátrio.


São Nuno - Atroaram de um e outro lado os gritos aos seus patronos: « A ellos!... Castela!... Santiago!» ;« pela Virgem Santa!...Por São Jorge!...» - gritavam os nossos com desmedida fé e bravura. Uma mancha férrea tapava o horizonte avançando no terreno. Viamo-los vir afunilando progressivamente entre ladeado de baias de terra e tojo crescido. Cada vez mais, nos que se não escondiam no sigilo dos bacinetes, viam-se os rostos cavos de ansiedade e fevre sacrificial, muitos que se conheciam de pelejas irmanadas, agora sob a cor de outros estandartes. Ao alcance de ferros que rompiam carne da mesma carne, caminhavam para a morte. No desenfrear imparável muitos cavaleiros tombavam por falta de solo firme para os seus corcéis, afundavam-se nas várias covas, fossas, abatizes; os cavalos relinchavam retalhados pela dor imprevista e mortal que os trespassava na forma de paus acerados. A imensa mole que se seguia, tudo triturava: não parando, não se apiedando de quem já era uma massa informe que jazia vítima das mesmas cores. Consumava-se o embate tremendo, avassalador, ululante de encomendas ao paraíso e às preces protectoras; o ar rasgava-se de silvos continuados e milhares de flechas e dardos abatiam-se como granizo grado, sombreando tudo como nuvem que anunciava a morte. Como forja ciclópica cruzavam-se os milhares de ferros, era um cantar estranho, um tinido que se ia tingindo do vermelho da vida; os corpos escoavam-se, esgotavam-se num tempo de respirar, agonizavam abraçando poeiras e resinas de estevas rasteiras, tornando-se ataúdes férreos que ficavam inertes com os brilhos embaciados, rotos e pejados de muitos bicos acerados virados para o céu.

videoRepórter - É avassalador de crueza e realidade o relato que faz dos começos da batalha e seu desenrolar: presumo que tenha avistado gente conhecida!... Entre eles o seu irmão Pedr'Álvares, Mestre de Calatrava, que vinha num lugar de destaque na vanguarda.


São Nuno - Sim, era muito cruel defrontarmo-nos, estar-mos frente a frente como oponentes; combater-mos por causas diferentes. Nessa vanguarda castelhana vinha o meu irmão Pedro e o meu irmão Diogo; o Afonso Tello, o Velasquez, Sanches de Toledo, o letrado Galvez, o sem medo, Montanchez, o conde de Vilhalpandos, Marique, o Guevara, que se untava com o sangue dos seus oponentes; todos os mais ousados comandantes de Castela estavam ali para tentar abrir uma brecha na estreiteza do local das nossas defesas. Existia já um longo terreno à nossa frente pejado de corpos, os que se acercavam não podiam escolher, tinham que ignorar este jazer e ser desapiedados de calcar por força das circunstâncias. Vi contristado e com muita dor, o meu irmão Pedro ser varado por uma lança que o vitimou junto à gola da armadura.. Em breve todos os comandantes que mencionei e destacavam esta vanguarda, estavam mortos.


Repórter - Como conseguimos resistir àquela onda continua e avassaladora que parecia não ter fim ?


São Nuno - Perante tão crescente continuidade de forças adversas, tivemos que ceder um pouco no centro das nossas defesas. Foi um pequeno arco, uma meia lua por onde os castelhanos avançaram. Mas, rapidamente gentes das alas e da rectaguarda ocorreram e rechaçámos os castelhanos para a posição inicial. Disto observou lá longe o rei de Castela e confirmaram-lhe que esta primeira surtida tinha sido de muitas perdas de vidas e equipamentos e que os portugueses não tinham cedido em nenhuma das suas defesas. Manda então avançar uma poderosa segunda linha que formaria em crescente à moda mourisca, no intuito de envolver as forças portuguesas. Porém, esta segunda linha não estava definitivamente preparada, a longa fila de oito léguas, este dragão alongado, que levava mais de meio dia a movimentar-se da frente à rectaguarda, ainda não avistava a batalha. Mesmo assim, a tal força quando avançou deparou-se com a retirada das diminuidas forças da primeira vaga. Ocorre um confuso choque, um desnorte, uma falta de discernir de comando que aglutinasse e reflectisse o que fazer. O ataque frontal parece perdido como opção para os castelhanos. Numa última manobra de tentar romper as nossas defesas, vem ainda a poderosa força do Mestre de Alcântara, avançando por leste, tentando furar a nossa rectaguarda onde estava D.João I. Fomos lá reforçar esse local, pois, como já contei a nossa grande estratégia passava pela mobilidade que o bloco das nossas tropas tinham em acorrer a qualquer frente da batalha.


Repórter - Entretanto o dia declinava ?


São Nuno - Sim, o dia declinava: eu olhava o início do luzeiro celeste numa prece agradecida, o meu pio estandarte desfraldava-se nos braços de uma brisa vinda dos hermínios, pareciam crescer para nós as marcas das efígies santas numa auréola de concedidas graças. Mais um poderoso ataque de Castela não tinha sortido efeito. Tínhamos mesmo empurrado os castelhanos para muito além das suas linhas iniciais.


Repórter - É verdade que el-rei D. João I esteve em perigo de vida durante a batalha, ao cair perante o terçar de armas com Sandoval, preparando-se este para o acometer com uma estocada que poderia ser funesta e, que Martim Gonçalves de Macedo o salvou ferindo de morte este oponente ?


São Nuno - Em perigo de vida estávamos todos, como lhe disse, desde o começar da batalha éramos todos pasto de oferenda para a morte, em qualquer momento podíamos ser fendidos por qualquer arremesso de lanças ou dardos, receber uma cutilada num ponto mais desguarnecido, sermos frechados num ponto vulnerável. Sim, esse nobre fidalgo possivelmente salvou o nosso rei, mas era essa a missão de todos nós: ocorrer-mos aos lugares mais necessitados de ajuda.


Repórter - Quando é que avaliou que a vitória podia ser das nossas cores ? Numa batalha que se antevia tão feroz e de tantas horas e, que afinal parece que durou tão pouco !


São Nuno - Sim, a batalha foi muito curta, durou cerca de pouco mais de uma hora. Mas, foi muito violenta e muito fatídica para milhares de combatentes. Apercebi-me de que a vitória poderia ser ser do nosso campo quando vi os movimentos de Castela pararem e, sem fito de novo ataque organizado. Parece que o rei D. Juan de Castela, cujo estado de saúde no começo da batalha não era o melhor, foi acometido no decorrer da mesma de uma ansiedade febril, a que o malogro e desaires dos assaltos às nossas posições não foi estranho. Com uma falta de comando firme, minam-se no ânimo dos castelhanos a ideia da debandada. O crepúsculo abraçou então um enorme grito de aflições, interjeições ansiosas rasgavam os campos para o lado de Alcobaça; a charneca abrigava milhares de fugitivos que entre moitas procuravam as dobras da noite para poder escapar. Isto faz acordar uma multidão de aldeões das vizinhanças que apercebendo-se daquele tropel de gentes sem rumo, lhes dá perseguição impiedosa e os fere de morte.


Repórter- Era a legenda segura da nossa vitória que já se escrevia ?


São Nuno - Não era bem assim: eu, o rei, todos os comandantes, usámos de prudência. A cavalaria do Mestre de Alcântara quase que não tinha sofrido baixas. Havia ainda muitos milhares de combatentes castelhanos que podiam ser reorganizados. Mandei continuar todos nas suas posições e com atenção redobrada, não se sabia o que nos traria o novo dia.


( continua)

josé movilha

domingo, 18 de Outubro de 2009

O REPÓRTER NO TEMPO E NA HISTÓRIA - XX













ENTREVISTA COM SÃO NUNO DE SANTA MARIA


24 DE JUNHO DE 1360 - 1 DE NOVEMBRO DE 1431


ALJUBARROTA - Quarta Parte




video

Vídeo - Fundação Aljubarrota


SÃO NUNO- Diz muito bem referindo-se a esses homens que combatiam e escreviam, relatando todo o épico dessas jornadas: Sandoval, Ayala que faziam parte das forças de Castela, tinham o maior mérito, como teve mais tarde Fernão Lopes, que recolheu testemunhos de veteranos e, a quem eu próprio contei algumas coisas. Sobre a força esmagadora de Castela e o desenlace funesto para as nossas cores; pensava nisso; mas com a tal fé na vitória que já lhe tenho descrito. Já percebi, nesta nossa longa conversa, que tem uma apurada sensibilidade e uma cultura que prodigializa e investiga estes temas. Mas, meu amigo!... Não imagina o que era uma guerra medieval!... Uma grande batalha com milhares de homens envolvidos. Um avanço para o abismo do confronto, uma questão de minutos que separavam a vida da morte. O sangue derramado que tudo tingia em redor, cabeças decepadas, peitos trespassados, braços amputados, o juncar dum solo que acolhia cadáveres e moribundos, os ferros que tiniam ímpios, abafando a última encomenda da alma pronunciada em bálbucios pios entrecortados de agonia. Que valia então a morte ? Morrer era a mais natural das coisas nesta senda de desafios tomados. Portanto se a morte acontecesse era bem vinda, eram esses os desígnios dos céus. só tínhamos de confiar e entregar-mo-nos a eles.




REPÓRTER - Que grande lição nos dá, São Nuno, que verdades e reflexões estão contidas no que nos diz, é difícil para muitos homens nos dias de hoje terem esse desprendimento, esse amor á causa pátria e dos seus próximos. Como eram nesse despontar do dia as iminências da batalha ?




SÃO NUNO - O sol despontou nessa manhã bem vivo e indicador do muito calor que se anunciava. Para além do Lena as dobras do terreno não permitiam ver qualquer aproximação dos castelhanos. As sentinelas postadas no mais alto também não davam conta de qualquer aproximar. Todo o acampamento ouvia as santas práticas da palavra de Deus. O rei armava vários cavaleiros, entre eles Vasco de Lobeira, espírito tão galhardo das coisas cavaleirescas, que haveria de escrever mais tarde o Amadis de Gaula, o germinar dos romances de cavalaria peninsular. Eu orava fervorosamente à Virgem, tomando pálio da sombra do meu sagrado estandarte, prometendo para a sua glória edificar um templo em Ceiça, ao pé de Ourem, e outro a S. Jorge, ali neste mesmo local que os meus joelhos pisavam. Entretanto ouve-se um reboar imenso, um estrépito metálico de centos de trombetas, talvez a dois tiros de besta, eram os castelhanos que se aproximavam. Vinham em formatura de combate e, a sua vanguarda deveria ter umas duas mil lanças em linha dobrada; comandava-os o seu Condestável D. Pedro de Vilhena, tendo por alferes Diogo Furtado que transportava o pendão com as armas de Castela e Portugal. Faziam ainda parte da vanguarda João Afonso Tello, irmão de Leonor Teles, Vasco Pires de Camões, os Azevedos, ainda meu irmão Diog'Álvares. Na ala direita do mestre de Alcântara, estavam os homens de armas gasgões; na esquerda o meu irmão Pedr'Álvares, mestre de Calatrava; na rectaguarda vinha o rei de Castela com muitos milhares de lanças e a fina flor da fidalguia castelhana.


REPÓRTER - O que se deparou ao vosso ânimo, com aquele quadro avassalador na vossa frente, dum enorme campo preenchido de tantos milhares de homens. Armaduras faiscando ao sol, montadas alinhadas a perder de vista, cores de balsões e estandartes marcando os terços, evolução das tropas ligeiras mouriscas numa fantasia de ginetes adestrados que percorriam o campo de ninguém para mostrar todo aquele esplendor.


SÃO NUNO - Era realmente um grande exército, bem armado e numeroso de combatentes, o rei era um jovem que tinha a sua vivência repartida entre alguma saúde e crises que o enfermavam muito. A sua disposição era muito inconstante, as suas determinações no conselho muito imprevisíveis. Muitos dos grandes comandantes tinham morrido nos Atoleiros e, com a peste, durante o cerco de Lisboa. Parecia-me haver alguma desagregação nos comandos castelhanos, e a falta de um homem aglutinador que fosse a referência máxima do exército. Depois daquele avistar falámos às gentes, exortá-mo-los a estarem firmes a defender o local que ocupávamos, a vitória seria nossa.


REPÓRTER -Naquela avançar a passo da vanguarda da cavalaria castelhana, encurtando a distância com os nossos, divisava-se um mar de gentes que não deixava de afluir lá atrás, nem sequer estando em formação de combate. Seria uma confiança da parte deles parecida aos Atoleiros ?


SÃO NUNO - Sim, em parte, confiavam totalmente no seu poderio: subitamente a guarda avançada estacou, ao ver os nossos no alto da colina, este movimento comunicou-se a toda a rectaguarda, era como se uma grande seara metálica deixasse de ondular e ficasse de súbito falha de movimentos. Deviam estar em conselho com o rei. Era mais de meio-dia, o calor abrasava, o jejum que todos tinham feito por ser vésperas da Senhora-de- Agosto não lembrava alimento nem deminuia as nossas forças. Será que não queriam pelejar ? Esta larga espera mostrava que a nossa posição lhes metia respeito. Começaram então novamente em marcha, evitando investir de frente contra a posição da nossa vanguarda, torneando-a pelo poente, fazendo o curso do ribeiro de Calvaria, tentando atacar pela rectaguarda o arraial português.


REPÓRTER - Que fez então o São Nuno ?


SÃO NUNO - Tirei vantagem da mobilidade que o nosso dispositivo no terreno podia ter. Inverteram-se as alas, trocando-se o lugar da vanguarda. Parecia numa primeira análise que estas novas posições nos deixariam mais vulneráveis, mas não. Fiquei com a vanguarda numa estreita garganta, como se fora entrada de bastião. As alas avançavam ladeando os ribeiros, cerrando de novo o quadrado. As valas e fossas continuariam a tolher caminho, aproveitando o matagal os homens alinhavam a quatro e seis, os archeiros e besteiros ocupavam posições privilegiadas desfechando os seus tiros com grande certeza. Entretanto a primeira linha castelhana precedida pelas bombardas, formava em frente da nossa vanguarda, talvez à distância de um tiro de besta. Não temíamos muito aquelas armas. E, breve não seriam mais do que objectos obsoletos que permaneceriam no terreno.


REPÓRTER - Parece que mais uma vez os castelhanos enviam alguém a parlamentar ?


SÃO NUNO - Sim, enviaram o marechal de Castela, Diogo Fernandes; o cronista Ayala, e o meu irmão Diogo Álvares. Chamou-me D. João para que ouvisse as suas propostas. As condições eram que nos rendêssemos, pouparíamos vidas e, Castela deixaria todos ir a seus lugares e terras sem molestar ninguém. Se acercou de mim o meu irmão dizendo-me que Castela me daria muitas mercês e tudo quanto quisesse, ainda era tempo de evitar tamanha loucura. Disse-lhe que não: despedi-os com dignidade e foram a seu campo.


(continua)


josé movilha




sábado, 17 de Outubro de 2009

O REPÓRTER NO TEMPO E NA HISTÓRIA - XIX

ENTREVISTA COM SÃO NUNO DE SANTA MARIA


24 DE JUNHO DE 1460 - 1 DE NOVEMBRO DE 1431

ALJUBARROTA - Terceira Parte


REPÓRTER - De Ourem parte o nosso exército para o norte do vale do Liz, é a enorme várzea que cerca Leiria e se estende cerca de três léguas até Porto-de-Mós, são montes que se abraçam para norte, pelos alicerces da serra dos Albardos. Ladeando um pouco para além de Porto-de-Mós, a norte a estrada de Alcobaça permitia esperar o inimigo dando-lhe batalha, não o deixando passar, no seu rumo para sul. Nesse domingo, depois da missa, o São Nuno saiu com uma escolta de cerca de cem cavaleiros, interna-se por entre montes e vales para explorar o terreno e avaliar das condições que o mesmo oferecia para dispor o exército. Parece que nenhuma patrulha avançada de Castela aparece. O São Nuno dispensa a companhia da pequena hoste e sobe e desce lesto entre o vale e cumeadas, parecendo que tinha tudo em mente e só estava ali em reconhecimento. Como se fora nos Atoleiros: como é que voltou a descobrir um novo lugar tão defensável e propício para colocar o nosso exército para a batalha ?


São Nuno - Sabe, eu tinha uma fé inabalável de que receberia novo sinal divino, sinal que me indicaria, tal como nos Atoleiros, o local em que formaríamos para a batalha. Nessa manhã, depois da missa, cavalgando na frente da pequena guarda dos nossos cavaleiros, senti que uma mão comandava as rédeas daqueles passos. Quando olhei o Cabeço-Grande, os Penedos- negros, o extenso vale de Chiqueda com o Coa distendendo-se direito a Alcobaça. Voltando e internando-me mais entre o matagal e o serrado: vi que tudo formava uma cortina de montes, como se fora baluarte que vedava completamente a passagem para nascente. Para poente descaia e formava-se uma plataforma com uma suave ondulação que se prolongava desde o contra-forte fronteiro a Leiria até ao lugar de Aljubarrota. Era um esporão, uma cunha, melhor dizendo, que se debruçava sobre o lugar de Carvoeiro e, onde se juntavam as águas de dois ribeiros que juntos vão dar no Lena. Subindo, tudo se estreita em altas gargantas até ao lugar de S. Jorge, era como se alguém progredisse para depois deparar com a porta de um baluarte solidamente fortificado e altaneiro que dominava toda a várzea por onde o inimigo tinha que vir. Na rectaguarda o terreno deste castelo natural fechava-se por barrancos abruptos. Era a fortaleza natural que a Virgem Santa e S. Jorge tinham reservado para defender o nosso sagrado solo e a independência de Portugal.


REPÓRTER -Regressou então ao acampamento serenado e cheio de tranquila fé no local que tinha escolhido para lugar da peleja. Ocorre-me perguntar: como reagiu D. João I, quando lhe transmitiu que tinha escolhido o local para dispor as tropas para a batalha ? E porquê, ao que se sabe, nessa mesma noite levantar campo e rumar com o exército para o local escolhido ?


SÃO NUNO -Eu não determinava nada sem consultar o rei. Era da minha índole e formação esta conduta. D. João I concordava em absoluto comigo, não só por eu ser o Condestável, a mais alta patente com responsabilidades de comando, como sabia da minha ponderação e escolhas. Mandei levantar o acampamento ainda noite, apoderou-se de mim uma ansiosa necessidade de preencher aquele baluarte natural, preparar tudo ali para aguardar a batalha. Tivesse Castela comandos mais argutos, e a vantagem do terreno poderia ter sido deles.



REPÓRTER -Da caminhada pelos restos da noite, no furtivo enleio dos passos entre tojos e penhascos, depararam as tropas com os braços da alva que despontavam acalorados. Parece que D. João I sentiu tanta confiança ao ver tal local, que comovidamente se dirigiu a si e o abraçou, proferindo; « ser aquela posição inconquistável». Como é que ordenou o dispositivo para a batalha e o que tinha em mente para suprir a nossa imensa desvantagem ?


SÃO NUNO - Sim, D. João I e os combatentes mais experientes aperceberam-se da vantagem que aquele local escolhido para as nossas tropas, nos podia trazer. Aproveitando-se o que a natureza nos mostrava ampliaram-se na estreiteza da várzea as irregularidades do terreno, as pequenas covas, as tais covas de lobo, cravaram-se estacas aceradas e firmes, dissimulou-se com tojo, tudo não era mais na terra de ninguém, em frente da nossa vanguarda, do que um uniforme campo natural. Logo coloquei a vanguarda , onde eu combateria, os primeiros terços: seiscentas lanças que, com os peões, somavam cerca de dois mil e quinhentos homens; na ala esquerda, poentina, estendia-se a Ala dos Namorados, tanto fervor tinham aqueles jovens!... Mem Rodrigues, Ruy Mendes, levando a bandeira alferes Álvar'Eanes, criado do rei e anadel-mór dos besteiros de cavalo. Eram duzentas lanças, e novecentos peões, a flor dos jovens cavaleiros, que tinham um pendão verde por guia e uma profusão de bandeiras alegres e vistosas com motes alusivos aos seus amores.

A ala direita era composta com portugueses e alguns auxiliares estrangeiros, comandavam Antão Vasques, sempre de ânimo firme e galhofeiro e, João de Montferrat, veterano de inúmeras batalhas e participante na épica batalha de Poitiers. Era também uma força de duzentas lanças e novecentos peões. Tinham um grande pendão com a efígie de S. Jorge e vários balsões com motivos de heráldica mítica. Por detraz das alas formavam besteiros, archeiros e mais peonagem de armamento variado. Ao fundo preenchendo toda a chapada de lado a lado, fechava-se este quadrado a sul; era a rectaguarda comandada pelo rei, composta de uns cinco mil homens, entre cavaleiros, peões e besteiros.


REPÓRTER - Seria então mais uma batalha em que nos propúnhamos combater a pé, como nos Atoleiros de tão boa memória, ou os castelhanos procurariam também outros meios de nos dar combate, inclusive sitiar aquele local e tentar atrair-nos à várzea ?


SÃO NUNO -Sim, combateríamos sobretudo apeados, mantendo posições muito cerradas e unidas de proximidade e entreajuda, tudo muito semelhante aos Atoleiros, aqui aproveitando outras caracteristicas do terreno, reservava-se parte da entrada da cavalaria para uma outra fase da batalha. João de Montferrat, vindo de Inglaterra com outras tropas, para participar na batalha, elogiou este nosso dispositivo; muito semelhante aos que já tinham sido ensaiados em Crécy e Poitiers, com muito êxito.


REPÓRTER - Como se compunha então o exército de Castela ?


SÃO NUNO - O exército de Castela compunha-se de um efectivo muito numeroso e bem armado, ultrapassava tudo o que as vistas de gentes da nossa terra, até os mais velhos e veteranos de batalhas, tinham visto. Naquele treze de Agosto de 1385, pisando já a Várzea de Leiria, o exército castelhano formava na progressão do terreno seis corpos.


O primeiro era o da guarda real: senhores, pajens, donzeis, eram cerca de novecentos homens, armaduras reluzentes, bacinetes de muitas plumas, dele também faziam parte o cronista da corte Ayala e o general Sandoval que também tratava dos relatos e crónicas de pelejas. Erguiam-se aqui multicolores pendões e bandeiras, á frente os balsões reais com as armas de Castela e Portugal, leões e quinas juntos, cujo fundo eram rectângulos de ouro e prata simbolizando os dois reinos. Ladeavam-nos muitos pendões de campo verde com um falcão de asas aberta, segurando com as garras aduncas a legenda "En bon point". O segundo corpo eram lanceiros e peões das ordens militares de Santiago, Calatrava e Alcântara; fazendo ainda parte o esquadrão de jinetes de Andaluzia, mouros guerreando á mourisca, era uma milícia ligeira que executava uma fantasia guerreira correndo na frente, enquanto a cavalaria pesada avançava em seguida em colunas cerradas; contava dois mil homens. O terceiro compunha-se de um efectivo de doze mil homens, as mesnadas, lanças e peões, senhores, cavaleiros, prelados e monges guerreiros.. No quarto, um contingente enorme de catorze mil homens, compunha-se de representantes das cidades, vilas e concelhos: tropas várias; peões, besteiros, lanceiros, fundeiros; as armas eram chuços, dardos, virotes. No quinto vinham as companhias auxiliares, Francos do Béarn e da Gasgonha em número de dois milhares. Finalmente no sexto corpo de tropas figuravam os portugueses que combatiam por Castela, que eram em número de mil.

Com estes elementos se formava aquele imenso povoamento humano de trinta e dois mil homens: dos quais se poderia dizer que entravam em combate vinte mil, os restantes eram como se fossem forças de reserva compostas por clérigos, pajens, criados, serventes, mancebas,, açougueiros,, palafreneiros, alfagemes e, gentes que conduziam os enormes rebanhos para alimento e a fila interminável de carretas que transportavam o necessário para erguer o acampamento. Vinham também nesta coluna, o que se dizia ser uma terrível e desconhecida arma, os trons, esses canhões primitivos, feitos de madeira endurecida e chapeada de ferro, que disparavam projecteis de pedra e testavam o seu aparecimento e a sua utilidade nas guerras europeias.


REPÓRTER - O que relembra é esmagador, era realmente uma força que deveria colocar no ânimo de D. João de Castela e dos seus maiores comandantes um cunho de ilimitada confiança numa vitória certa. Relembro novamente o que nos descreveria de realismo Fernão Lopes, se estivesse no terreno; porém, nesta data era um menino com cerca de sete anos. Contando-nos magistralmente estas coisas décadas mais tarde. Não esqueçamos Sandoval e em especial Ayala que cronista e combatente tanto nos legou sobre as forças em confronto e o desenrolar da batalha. Depois desta realidade esmagadora, desta desproporção tão grande de forças em confronto, um português para quase dez oponentes, não temeu o mais funesto desenlace para as nossas forças ?


(continua)


josé movilha





quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

O REPÓRTER NO TEMPO E NA HISTÓRIA - XVIII

ENTREVISTA COM SÃO NUNO DE SANTA MARIA






24 de Junho de 1360 - 1 de Novembro de 1431
ALJUBARROTA - SEGUNDA PARTE



REPÓRTER - Parece que a deserção fidalga no nosso exército era notória, como já tinha acontecido nos Atoleiros, muitas casas de brasão estavam por Castela. D. Pedro de Castro, filho do conde Álvaro Pires de Castro; Pedro Álvares que o rei de Castela fizera mestre de Calatrava, e seu irmão Diogo Álvares; Çonçalo Vasques de Azevedo e seu filho; Garcia Rodrigues Taborda, alcaide de Leiria; e muitos outros. Dos nossos de maior nomeada viam-se os Mellos, Vasco Martins , o velho, e seus filhos; os Vasconcelos; Mem Rodrigues e Rui Mendes; Martim Afonso de Sousa; Lopo Vasques da Cunha e alguma gente nobre de brasão mais recente. Parece que neste reagrupar contaríamos dez mil homens muito mal armados e, nem todos combatentes ?


SÃO NUNO - Sim, era um contar de fileiras muito semelhante ao que aconteceu nos Atoleiros. Continuava muita gente nobre a não ter nenhum apego à liberdade pátria, a honrar os seus antepassados, inclusive meus irmãos, a maior parte pensava em honrarias e terras de um Portugal de Castela, retalhado e sem identidade. No acampamento feito em Tomar, dividimos o nosso exército em quatro corpos: o primeiro da guarda real, com duzentos homens; o segundo do Condestável, com dois mil; o terceiro, dos besteiros ingleses, com setecentos; o último, da peonagem, com sete mil. Era um efectivo de pouco mais de dez mil homens, onde nem todos eram combatentes. Um exército humilde, mal armado, é certo; com uma parte dos alistados pouco preparados para a guerra. Mas com muita exaltação pátria e pio fervor, acreditando nos seus comandantes, deixando-se guiar por um protector querer sagrado, uma religiosidade que transformava os que por este meio de acreditar se tornavam fortes.


REPÓRTER - Nesse ano de 1385 o rei de Castela era um jovem de vinte e seis anos, mais um do que o São Nuno, e menos um do que D. João I. Era de saúde enfermiça, com uma vivência algo infeliz, o que o tornava por vezes birrento, inerte e indeciso. Havia duas semanas que pequenas febres o incomodavam, para o que se fazia transportar numa liteira. Não se preocupava muito com o atraso da chegada do infante de Navarra e do seu contingente. Eram tão numerosas as forças de que dispunha no seu arraial que poucos exércitos se viam assim. Soberbo da sua força pensou numa surtida punitiva que desagravasse o recém desastre de Trancoso. Foi a Almeida e depois a Trancoso, destruindo ali a ermida de S. Marcos que tinha sido memória da recente grande derrota castelhana. Foi depois a Celorico, tomou o castelo e permaneceu ali dez dias. Entretanto sofre neste período uma das suas dolorosas crises de saúde, parece que chega a lavrar adendas ao seu testamento. Entretanto qual era a nossa posição ?


SÃO NUNO - Sim, éramos todos muito jovens, mas já expliquei quanto de idóneo tinham os jovens como nós, desse tempo. Estávamos acantonados nas cercanias de Abrantes, reunindo o máximo de gentes, aprontando toda a hoste das alfaias necessárias ao combate. Os alfagemes talhavam e consertavam armaduras, espadas eram temperadas de novo fio, escudos e lanças reforçados, as montadas aprontadas para os seus esforços de caminhada e obediência em batalha. Sabíamos que o rei de Castela era enfermiço, mas não nos vangloriava-mos com isso, só queríamos o que os santos desígnios determinassem a justeza da causa, e essa eu pressentia ser por S. Jorge.


REPÓRTER - Nesta altura, deviam chegar a cada dia notícias do poderio que o exército de Castela ia ganhando. As patrulhas de batedores davam conta que era de muitas léguas a progressão dos seus terços. A carriagem distendia pela rectaguarda muitos milhares de gentes: pajens, criados, azeméis, curadores, serventes, mancebas do mundo ; mais de sete centos de carretas com apetrechos vários, desde os que serviriam para cozinhar, a tendas, macas hospitalares, cordame e madeiras para consertos de estrada. Os animais de tiro eram muitos, pelos mesmos eram transportados os panos das tendas reais e da corte. Do que serviria para alimento, eram mais de oito mil cabeças de gado; porcos, carneiros, bois, aves: eram pastoreados e engrossavam o seu contingente com o que provinha das rapinas dos campos, que nem sempre eram frutuosas, pois os camponeses fugiam para as serras levando os seus animais e tudo o que podiam. No meio daquele desfile ainda uma terrível ameaça, do que poderia ser uma nova e temível arma, os trones ou bombardas, peças de artilharia que despontavam na Europa, feitas de madeira e arcadas de ferro, que disparavam projecteis de pedra. Parece que os castelhanos irados por pouco encontrarem de saque, queimavam tudo em redor da sua passagem, nada escapando, também pela sua índole cismática, as igrejas. Das algumas bagagens perdidas na cauda desta fila que parecia interminável, se apropriadas por míseros vagabundos e, descobertos os mesmos, lhes eram decepadas as mãos e cortadas as línguas. Era um rasto de terror que se alargava já por grande parte das nossas terras ?


SÃO NUNO - Sim, o clima já era de muito temor. Felizmente os nossos batedores eram homens experientes e contidos de observações. Avaliavam bem o que viam, mas isso era um segredo de preparação para a batalha. Não fiquei surpreso com as informações que chegavam, de que o exército de Castela tinha muitos milhares de homens bem equipados e arvorados de muito esplendor de terços e flâmulas. O seu rei estava em Coimbra, desceria talvez pela Estremadura, na direcção de Lisboa. Nós iríamos deslocar-nos para as cercanias de Ourém, tolher-lhes o passo; neste momento eram dois arietes que se deslocavam a menos de uma dezena de léguas um do outro, no sentido paralelo, um para sul e outo para norte. Neste já inicio de Agosto, não demoraria muitos dias a ferir-se a maior batalha, de tantas gentes, que algum dia pelejaram neste sagrado solo de fronteiras há muito consagradas.


(continua )


josé movilha






quinta-feira, 1 de Outubro de 2009

O REPÓRTER NO TEMPO E NA HISTÓRIA- XVII

Entrevista com São Nuno de Santa Maria



24 de Junho de 1360 - 1 de Novembro de 1431











ALJUBARROTA - Primeira Parte



REPÓRTER - Tudo parecia indicar, nesse Julho de 1385, que estávamos prestes a conhecer nova invasão dos castelhanos, com um grande exército do qual de momento ainda não se conhecia o total poderio. O São Nuno, penso que estava em Estremoz, vindo de Évora, arregimentava junto das comarcas gentes e armas para fortalecer a hoste. Os castelhanos iam entrar pela fronteira do Alentejo ?


São Nuno - As informações dos nossos batedores eram de que ao longo de vários locais da fronteira entre a Beira Baixa e o Alentejo se concentravam grande número de tropas de Castela prontas para entrar em nosso solo. Quando tal acontecesse não tínhamos dúvidas de que esse grande exército se dirigiria para Lisboa, com apetrechos para um cerco que seria demolidor e de que as nossas muralhas e gentes ainda abaladas da crueza de há um ano não conseguiriam resistir. Eu tinha feito um voto, quando do levantamento do cerco de Lisboa, nas minhas orações em Santa-Maria-da- Escada; de que no futuro enfrentaria em batalha e tolheria o passo aos castelhanos não os deixando chegar a Lisboa. Iria cumprir tal, ainda que a minha vida fosse desafortunada e perigasse.


REPÓRTER - Entretanto parece que o recado que D. João I lhe manda, é de que movimentações de tropas castelhanas se efectuam na zona de Almeida e, é aí que D. João de Castela entra com o seu exército, possivelmente direito a Coimbra; congregando no caminho mais tropas, seguindo para Santarém que há muito era Paço e guarnição castelhana, depois finalmente para Lisboa. Entretanto, antes da sua chegada, parece que há vozes que tentam influenciar o rei para que se faça uma surtida na Andaluzia, indo a Sevilha, obrigando os castelhanos a retroceder e abandonar a sua intenção de ir a Lisboa. Como Condestável, o surpremo comandante de todas as tropas do reino, como é que determinou o que ia fazer ?


SÃO NUNO - Foi um momento de grande tensão entre eu e D. João I, rei e amigo, o conselho era timorato e das leis da batalha nada sabia. Ir a Sevilha, pensando atrair os castelhanos a pelejarem lá, era um grande erro. Lisboa ficava à mercê de muitas tropas inimigas. Nós não tinhamos tropas suficientes para enfrentar Castela em dois locais diferentes. Como Condestável tinha que tomar uma posição inabalável: ir ao encontro do exército castelhano e dar-lhes batalha. Eu sabia que no íntimo também o rei pensava assim, mas teias amolecedoras e contrárias ao ousar eram-lhes relatadas como prudências a ter em conta e D. João I ficava na minha ausência envolvido nestas dúvidas do que fazer.



Repórter - Entretanto parte com as suas tropas, e quase tudo o que era o exército disponível, direito a Tomar, para barrar onde fosse necessário o avanço castelhano,sem,mesmo, a concordância do rei. Logo alguns disseram, os tais a quem São Nuno incomodava, que era um acto de rebeldia e havia que o chamar à razão, até o próprio Dr. João das Regras criticava o seu comportamento. Parece que o rei despacha um emissário para que regresse. Foi um momento muito doloroso para a sua consciência de escolha. O dever de obedecer ao rei de Portugal ? Ou o que o seu destino sagrado lhe segredava, lutar e libertar Portugal ?




SÃO NUNO - Diz muito bem sobre as minhas escolhas e o momento que vivi: o rei pelo que conhecia de mim sabia que eu seria o último homem do reino a desrespeitá-lo, que não ia á revelia de qualquer capricho de fama ou cargos, nem minado pela desobediência, o tempo urgia: sabia-se agora que com o rei de Castela já em campos do Mondego, continuavam a entrar mais terços do exército pela fronteira, isto dizia-nos que seriam muitos milhares de homens que vinham combater por Castela. Felizmente D. João I ouve um homem muito douto, o doutor Gil Ocem, que lhe diz que o desfecho é jogar tudo no terreno, que toda a honra de um ou outro destino para Portugal é ir a batalhar. Então o rei manda-me segundo recado, dizendo que se encontraria comigo em Tomar. Estavam lançados os alicerces e congregados todos os que poderiam em campo de peleja pegar num instrumento de luta. Este Julho de 1385 definhava, Agosto traria cetamente os pronúncios do maior combate até então com as forças de Castela.


Repórter - Entretanto enquanto espera as tropas que D. João traria, para que se formasse um único exército, manda três escudeiros ao arraial inimigo que estava em Soure e, que penso, levavam uma carta para o rei de Castela intimando-o a que abandonasse o reino, sob pena de batalha que nós portugueses não nos furtaríamos a travar. A resposta do rei de Castela parece que foi respeitosa, mas intimava o Condestável a submeter-se.


São Nuno - Sim, enviei uma carta que demonstrava o nosso ânimo a Castela e ao seu rei. Combateríamos logo que a ocasião se proporcionasse, D. João de Castela não encontraria o caminho tão fácil para Lisboa, como em princípio pensava.


(continua)

josé movilha

segunda-feira, 21 de Setembro de 2009

O REPÓRTER NO TEMPO E NA HISTÓRIA - XVI



ENTREVISTA COM SÃO NUNO DE SANTA MARIA

24 DE JUNHO DE 1360 - 1 DE NOVEMBRO DE 1431

AS CÔRTES DE COIMBRA ( Segunda Parte)


REPÓRTER- Nessa Páscoa de 1385 realizam-se mais algumas boas notícias para o reino, nesse mesmo domingo chega ao Tejo uma nau e uma barca, vindas de Plymouth, com duzentas lanças e duzentos archeiros ingleses; quatrocentos moios de trigo, e muita farinha e toucinho. A Setúbal tinha aportado um navio pequeno com quarenta e cinco lanças e outros tantos archeiros. Ao Porto uma nau, com cento e cinquenta lanças e número igual de archeiros, nos quatro navios vinham ainda setecentos soldados contratados pelos emissários do reino. Os embaixadores de Portugal em Inglaterra, o Mestre de Santiago e Lourenço Fogaça, que tinham assinado um tratado de cooperação que em troca do serviço destes soldados se enviaria para Inglaterra dez galés de guerra para combater ao lado da frota inglesa. Era o princípio de uma nova aliança mais estável e constante com o grande reino inglês ? Uma aliança que tão frutuosa foi ao ponto de D. João I ter vindo a casar com D. Filipa de Lencastre, senhora de tão esmerada educação que tanto influenciou a educação dos princípes a quem tão apropriadamente se chamou " Inclíta Geração".


SÃO NUNO-Sim, nós já mantínhamos relacionamento diplomático com os ingleses há algum tempo. Os ingleses estavam a braços com uma guerra muito dura com os franceses, que tinha anos. Castela tinha aliança com os franceses, os ingleses viam em nós um aliado útil, já com um desenvolvimento naval apreciável, e nós necessitávamos de reforço inglês em tropas, sobretudo archeiros experimentados.


REPÓRTER- Enquanto tudo isto se passa, parece que D. João de Castela ainda combalido e doente retempera forças em Sevilha. Neste mesmo Abril sai de Sevilha e vai para Córdova onde escrevia ao arcebispo de Toledo para que concentrasse as forças na fronteira de Portugal. São Nuno estava com o rei D.João I, no norte do país para libertar praças e afirmar a soberania. O rei é recebido entusiasticamente no Porto, onde muito agradeceu tudo o que a cidade e seus habitantes tinham feito nos terríveis meses anteriores da invasão castelhana e durante o cerco. São Nuno vê finalmente a sua mulher e a sua querida Beatriz. Digamos que foi um interregno para alguns afectos e o justo festejar com as gentes da nossa terra pelo rei que já tínhamos eleito.


SÃO NUNO- Tínhamos notícias de que o rei de Castela se refazia da saúde em Sevilha. Que tentava congregar e organizar de novo o exército para invadir Portugal. Esta breve pausa, foi como se diz, para festejar com o povo, mostrar às vilas e cidades que o nosso rei estava ali vivo, D. João I era o novo monarca desta pátria secular.


R- Entretanto castelhanos atravessam novamente a fronteira com forças consideráveis sob o comando do fronteiro Rodrigues Castanheda. Reúnem-se em Almeida, que estava em poder de tropas suas, marcham sobre Pinhel e Trancoso incendiando e talando campos, causando terrível aflição ás populações dos lugares, chegando a Viseu e incendiando parte da cidade, apropriando-se dos bens que lhe interessavam, fazendo fugir para os montes quem não quisesse abraçar a morte. Parece que o São Nuno, assim como o rei estavam no Minho, que esta notícia foi recebida com muita inquietação e consternação, pois demoraria a organizar uma força que batesse os castelhanos na Beira. Valeu os fidalgos e o povo das alcaidarias dessa província, em especial os Vasques que congregaram todos os outros. Juntou-se uma hoste, que ainda assim menor do que a castelhana, partiu no encalço destes encontrando-os a meia légua de Trancoso, ali junto ao ribeiro de Freches, para sul, na direcção de Celorico, ao pé da igreja de S. Marcos, deu-se um combate tremendo: os nossos, alguns comandantes que tinham combatido nos Atoleiros,concordaram adoptar o combate a pé. Os castelhanos foram vencidos, morrendo o seu fronteiro Castanheda e muitos comandantes e peonagem. Foram resgatados prisioneiros e o saque das surtidas que tinham feito em várias terras, fugindo o que restava da hoste para além-fronteira. Apesar de o São Nuno não estar presente e no comando, foi também uma das nossas grandes vitórias ?


SÃO NUNO- Sim, foi uma grande vitória, eu e el-rei D. João I estávamos no Minho onde resgatámos para a nossa causa algumas praças. Infelizmente não estive presente nessa batalha para poder ajudar as nossas cores. Mas isso só prova que passado tanto tempo de luta com Castela as nossas gentes estavam cada vez mais firmes e determinadas a não aceitar qualquer submissão. Os alcaides e gentes das Beiras alcançaram mais uma grande vitória para o reino de Portugal, mais uma vez os castelhanos abandonaram o território pátrio com uma derrota de muitas perdas que os feriu muito.


REPÓRTER- O rei de Castela parece que recebeu a notícia de mais este desastre, na fronteira de Alcântara, manifestando o seu desagrado e impaciência por tardar a passar a fronteira com todas as forças agregadas e sem perdas como as recentes nas terras da Beira. Entretanto decorriam trinta dias de tréguas no cerco de Guimarães; estes pediriam reforços a Castela. Passam para as nossas forças Braga que se rendeu, destino igual tem Viana, Valença, Monção, Ponte-de-Lima, Guimarães sem resposta de Castela rendeu-se também. As insígnias portuguesas cobrem os torreões de praticamente todas as praças do norte.. Estávamos em meados de Junho. Corre a notícia de que o rei de Castela reunia um poderoso exército junto a Badajoz, com o objectivo de passar a fronteira e rumar novamente a Lisboa onde nova frota castelhana se acercava do Tejo com 40 naus grandes, 12 barcas, 10 galés, 3 lenhatos e 5 barchotes. Entre outras vitórias, duas grandes vitórias maiores no terreno: Atoleiros e Trancoso, o cerco de Lisboa em que a aliança divina e o anjo emissário da espada da peste nos deu a vitória. Seria que em breve se desencadearia o mais terrível dos confrontos entre as forças Portuguesas e de Castela ? A maior das batalhas cujas gentes em peleja assombrariam terras e locais por onde passassem e quem vivo testemunhasse tal ?


SÃO NUNO- Eu pressentia e tinha o sinal vindo com as minhas orações, de um imenso campo onde uma nova e enorme batalha se iria ferir. Seria a mais terrífica de todas as lutas que algum dia ocorreram no nosso sagrado solo. Uma batalha que decidiria tudo em relação aos oponentes e á nossa independência. Acreditava que iríamos vencer, embora qualquer coração se atemorizasse com tão desigual proporção de forças. Acreditava!...Acreditava na vitória e tal como nos Atoleiros já me parecia ver o local onde acantonaríamos o nosso exército, visão tão lúcida que me transportava ido na vanguarda brandindo a espada e erguendo o vitorioso estandarte com as cores da pátria lusa.


(continua)

josé movilha












sábado, 19 de Setembro de 2009

OS GRANDES LIVROS



Todos leram mais ou menos os clássicos. Os livros marcos da literatura que galvanizam todas as idades de leitores. Quando lidos alguns e outros não, é sempre ensejo de descoberta num tempo novo e de novas leituras. É o que nos propõe agora Anthony O'Hear, com "OS GRANDES LIVROS". Mostrar-nos o caminho dos livros numa viagem fascinante de 25oo anos, começando por Homero, o patrono da literatura ocidental, a Tragédia grega, Platão, a Eneida de Virgílio, as Metamorfoses de Ovídio. Um percurso por Santo Agostinho, passando pela Divina Comédia de Dante, sublime e angélico percurso. Camões, Shakespeare, Chaucer, Cervantes, Milton, Pascal, Racine e Goethe, entre outros. Uma viagem pela literatura e pelo tempo com personagens fabulosas de sempre. O'Hear mostra-nos num apontar singelo os momentos cruciais destas obras imorredouras, tornando-se tudo muito mais do que uma obra de referência. É um contar e um apelo esperançoso na descoberta de valores de sempre da literatura, por vezes esquecidos.
Edição: Aletheia
Autor: Anthony O'Hear
Tradução: Maria José Figueiredo
nº pag. 517
Isbn:9789896221737
p.v.p. 19.00 €
josé movilha

quinta-feira, 17 de Setembro de 2009

O REPÓRTER NO TEMPO E NA HISTÓRIA - XV

ENTREVISTA COM SÃO NUNO DE SANTA MARIA


24 DE JUNHO DE 1360 - 1 DE NOVEMBRO DE 1431



AS CÔRTES DE COIMBRA -PRIMEIRA PARTE






REPÓRTER - Finalmente a 28 de Outubro de 1384, passados cinquenta e cinco dias após a saída de Portugal de D. João de Castela e da sua corte, a esquadra castelhana levantou ferro do Tejo. Lisboa inteira reúne-se numa gigantesca procissão de penitência e agradecimento a Deus que a salvara; "Misericordiam fecit nobiscum" era a voz exaltada que nos púlpitos lembrava quantas cidades na antiguidade com cercos tão padecentes e cruentos de Samaria a Jerusalém, também, tinham sido salvas pela intercepção divina com um Anjo que tudo conduziu tocando os sitiantes com o terrível mal da peste, punindo-os ainda pelo pecado de cismáticos assumidos.




SÃO NUNO - Sim, foi um dos mais enaltecidos actos de agradecimento que o povo de Lisboa e todos que às muralhas da nossa urbe tinham ocorrido como protecção, prestaram aos céus. Repicavam os sinos nas igrejas, pendões pios davam-se à brisa suave de um tempo sereno, o Tejo ondulava manso de perceber a sua génese local lusa de ser livre; naus, galés e embarcações de faina desfraldavam as bandeiras da cruz protectora. Havia povo nas colinas sedento de gastar o olhar no horizonte e beber os ares da plena liberdade.




REPÓRTER- Chega esse Março de 1385, a estrada de Coimbra é plena de muitas gentes e do povo em festa que se entretém com danças, música, momices e representações dos episódios da guerra e do cerco. O clero abria aquele enorme cordão humano, erguendo a cruz redentora, bandeiras e pendões ondulavam mostrando as efígies dos nossos santos protectores S. Jorge, S. Tiago; naquela mais que uma légua de gentes quando se avista o Mondego e se vê o prestito que vinha de Coimbra, rebentam as vivas: " Portugal! Portugal! por el-rei D. João"; " Em boa hora venha o nosso rei !" O Mestre e o São Nuno cavalgavam lado a lado, ecoando os vossos nomes em vivas constantes. Teria dito a D. João : " Deus fala pela boca do povo!..." Era o começo de um encetar novo, um passo decisivo de afirmação pátria com a nomeação do Mestre de Avis como rei de Portugal ?








SÃO NUNO - Sim, era muito necessário mostrar que com a convocação das côrtes de Coimbra, Portugal aclamava o seu rei e afirmava uma soberania inequívoca. O povo, os mesteirais, o clero e alguma parte da nobreza de maior tradição nas antigas e recentes lutas pátrias estava por D. João. é bem certo que nesse momento decisivo, das vilas e cidades com voz nas côrtes, setenta conservavam-se numa atitude expectante e pendiam pelos castelhanos. Tínhamos então cinquenta procuradores e, desse número mais de metade eram do Alentejo; fidalgos havia setenta e dois: entre eles muitos de grande prestígio e de grande devoção á causa da liberdade do trono português. Vasco Martins, o velho, que em Évora salvara o Mestre d'Avis quando então preso por ordem de D. Leonor; o bisneto d'el-rei D. Afonso III, Vasco Afonso de Sousa; Mem Rodrigues, que seria comandante da Ala dos Namorados em Aljubarrota; e muitos outros e valorosos comandantes. O episcopado estava todo por D. João, o arcebispo de Braga, D. Lourenço, que tanto tinha combatido no cerco de Lisboa e que tinha sido o responsável pela nossa frota que vei do Porto socorrer Lisboa; o Lançarote Vicente, que chamara a si a acção que o clero tinha na revolução portuguesa. Este era um iniciado na ciência nova do direito e cursara nas Universidades de Montpellier, de Toulouse e de Paris. No conselho eram os juristas presididos pelo Dr. João das Regras que tinha estudado leis em Bolonha, na escola do célebre Bartholo.


REPÓRTER- Consta que foram muito clamorosas e divergentes de opinião as côrtes de Coimbra e que o Dr. João das Regras se empregou com muita da sua sapiência jurídica para provar a legitimidade de D. João, Mestre de Avis. Ao que se sabe havia três pretendentes: o rei de Castela, primo irmão d'el-rei D. Fernando e casado, com a filha do mesmo rei e sua herdeira; o infante D. João e o infante D. Dinis, ambos filhos de D. Pedro e de D. Inês de Castro. Como se constata não faltavam candidatos a herdeiros. Como é que o Dr. João das Regras ao fim de alguns dias de desesperante incerteza em relação a concordâncias ao monarca eleito, demonstrou que não podia ser outro que D. João, Mestre de Avis ?



SÃO NUNO - Sabe, eu estava desesperado com aquele impasse, depois aquela retórica não era o meu meio, todas aquelas argumentações em defesa de outros candidatos, mormente o rei de Castela, soavam a interesses escondidos, a aglutinações de rincões de terras e alcaidarias que estes defensores aspiravam se o reino se tornasse castelhano. Quase que estive para me ausentar antes do fim das côrtes e da sua deliberação. Felizmente o Dr. João das Regras argumentou tão brilhantemente que as débeis resistências de alguns nobres foram vencidas e a maioria pronuncio-se pela eleição de D.João como rei de Portugal.


R-Curiosa correlação que as datas nos dão, no dia 6 de Abril de 1385, passado um ano sobre a batalha de Atoleiros, o Mestre de Avis era eleito rei de Portugal com o título de D. João I. Mostrava esta nova monarquia ser um principado popular, o rei formaria o seu conselho com cidadãos das principais vilas e cidades do reino, ouviria os povos em todos os negócios que lhe tocassem, não lançaria tributos sem os consultar e sem que ele e o conselho apreciassem os melhores meios de contribuições, não faria a guerra nem a paz sem o consentimento da côrtes, era certamente algo de novo ?


SÃO NUNO - Sim, era uma vivência nova em relação aos representantes do reino com assento nas côrtes, as vozes do povo e dos seus representantes das cidades e vilas teriam outro eco, foi tão importante o determinado em Coimbra que durante os reinados seguintes estes compromissos foram cumpridos.


REPÓRTER - Foi tudo tão extraordinário: o rei D. João I estava prestes a fazer 27 anos. No outro dia, 7 de Abril de 1385, o São Nuno é nomeado Condestável do reino, ainda não tinha 25 anos, as promessas futuras do nosso reino estavam na mão dos jovens: ficou surpreendido por ter sido nomeado Condestável do reino ? O mais alto cargo que um comandante podia aspirar ?


SÃO NUNO- Sabe, nesse tempo as nossas vivências amadureciam muito cedo, a nossa idade dava-nos a plenitude de uma conduta muito discernida; os homens podiam tornar-se muito ponderados e equilibrados de actos antes dos trinta anos, se as suas vidas fossem vividas num ideário cavaleiresco e religioso muito mais se guarnecia a sua constança e préstimo ás nobres causas e ao ideal pátrio. Depois, também, tinha muita importância a nossa conduta no terreno, o exemplo aos homens que nos seguiam, mostrando-lhe ser os primeiros nas pelejas, tendo-os como irmãos e amigos, não nos furtando aos mais humildes trabalhos no campo da hoste. Os altos cargos e honrarias nunca foram uma ambição para mim. Ser nomeado Condestável aceitei-o como sendo do livro divino que tinha escrito o meu destino em prol de Portugal. Tudo faria no futuro como sempre fiz, cingido no abraço da prece, na virtude que os céus me concederam para ajuda a afirmar a nossa independência.


(continua)


josé Movilha



















sábado, 5 de Setembro de 2009

O REPÓRTER NO TEMPO E NA HISTÓRIA - XIV

O CERCO DE LISBOA DE 1384 ( SEGUNDA PARTE)











ENTREVISTA COM SÃO NUNO DE SANTA MARIA

24 DE JUNHO DE 1360 - 1 DE NOVEMBRO DE 1431


Repórter- Entretanto a situação em Lisboa era dramática, a miséria era imensa e nos mais pobres a fome devastava. Tinham sido expulsos da cidade os judeus e as moças do mundo que os castelhanos acolheram com agrado. Fazia-se pão de bagaço de azeitona, de malvas, de raízes e de ervas várias. Os chãos dos celeiros eram esgravatados na miragem de se encontrarem alguns grãos. Não seria talvez a totalidade dos dias do cerco, que acentuavam esta tragédia, mas sim a enorme quantidade de gentes que se tinham refugiado entre-muros. A mendicidade era muita, a mortalidade não ficava atrás, a maior parte das gentes morria inchado pela água ingerida, já que a terrível sede produzida pelos pobres e impróprios cozinhados a isso conduzia. Começavam a haver grandes clamores pelas ruas pedindo a protecção divina. Mães com os seios secos, sem poderem amamentar, vendo morrer as crianças de tenra idade e outras a despontar de jovialidade. Dos ainda resistentes, grupos de crianças bradavam por pão. Todos pediam piedade aos céus para tão pronunciada calamidade que se avizinhava mortífera. Mas ninguém pensava em rendição e, a cada som das trombetas a dar conta dos passos dos castelhanos junto às torres, um vigor novo parecia desabrochar naqueles corpos. Entretanto parece que algo vem de novo trazer alento a estas gentes, por um lado o medo, por outro a confiança na protecção divina. Começam a morrer algumas gentes no arraial castelhano; breves dias passados já não havia dúvidas: a peste estava instalada no campo de Castela, o que iria fazer o rei D. João de Castela ?


SÃO NUNO - Sim, também era para mim muita angústia e sofrimento das gentes que se acoitavam em Lisboa, um cerco é sempre terrífico e os mais fracos e deserdados de vigor, as crianças, os idosos, as mulheres os mais sofredores e vítimas imediatas. Não se sabia o que a mão de Nosso Senhor Salvador ditaria para os que seriam cerceados pela peste. Quanto eu rezei para que as nossas gentes fossem protegidas e, parece que fui ouvido. No campo de Castela as mortes começam a acontecer às centenas, a foice da peste bubónica, a landre, declara-se violentamente. O rei D. João de Castela envia uma proposta de paz ao Mestre de Avis, para que aceite dois regentes que ficariam a governar o reino em nome de Castela, levantando ele o cerco e partindo. O Mestre não aceitou tal, temia-se e sabia-se da peste mas confiava-se que ela não ultrapassaria as muralhas de Lisboa. Em meados de Julho a doença toma carácter de epidemia. Começam a morrer dezenas de pessoas por dia, da carreagem a peões, besteiros, pelafreneiros, ninguém está imune aos crepes negros da foice segadora. Acontece logo a seguir, nesta altura de Agosto de 1384, a dezanove, o acontecimento de um eclipse solar. Logo os astrólogos disseram ser um terrível presságio que até a corte ameaçaria.



Morrem em poucos dias os Mestres de Santiago e Calatrava; Cabeza-de-Vaca e Ruy Gonçalves de Mexia; morria o almirante Tovar, o Velasco, camareiro-mór; os marechais Pedro Ruiz Sarmiento e Fernão Nunes de Lara. Sendo os físicos impotentes para combater tão avassalador mal. Instalou-se o pânico no acampamento castelhano.


Repórter- Que fez então o rei de Castela em seguida ?


São Nuno- Como se compreende era de muito temor e consternação o ambiente que se vivia entre os sitiantes castelhanos. Os corpos dos altos dignitários falecidos eram levados para Sintra onde se procedia à sua evisceração, salgando-os e conservando-os em ataúdes, para depois serem levados para os túmulos em suas alcaidarias em Castela. Não mais defrontaria Pedro Sarmiento também morto. Todos aconselhavam o rei a partir, a deixar as pestilências do lugar. Para mais tudo isto coincidiu com a ocupação que eu realizei no alto de Almada; fogueiras, som de trombetas, movimentação de estandartes; começou a correr que eu era o instrumento do castigo divino e que a peste só vitimava os castelhanos por serem cismáticos e contrários ao papa de Roma.


R- Parece que o rei de Castela estava renitente e esperava que a morte começasse a tolher os sitiados, porém, em princípios de Setembro desloca-se para Almada em busca de melhores ares. No entanto num próximo sábado a rainha Beatriz adoece, o rei então parece capitular ao terror daquele mal incontrolável e manda levantar o arraial bélico de Lisboa e queimar tudo em redor.


SN-Sim, foi um fogo tão intenso e cruento que durou uma noite e um dia ou talvez mais. Não imagina a minha angústia quando vi aquele clarão por sobre Lisboa e temi ter acontecido o pior no interior das nossas defesas.


Repórter- Consta que o rei D. João de Castela ao partir foi possuído de tanta raiva e desespero que já longe num último avistar das nossas colinas de Lisboa se voltou e proferiu: " tanta mercê me faça Deus, que ainda te eu veja lavrada de ferros de arado".


SN- Sim, foi o segundo grande revez para Castela. Primeiro os Atoleiros e agora o cerco de Lisboa. O primeiro em combate no terreno, frente a frente; o segundo um milagre que os céus nos concederam ao fazer eclodir a peste como nossa aliada que vitimou os castelhanos. Já após a retirada para Torres Vedras, as vidas dos monarcas de Castela chegaram a estar em perigo. Partem finalmente de Santarém com a corte, deixando grande parte do exército combalido e desmotivado em Valada do Ribatejo; Alenquer e Sintra, a armada continuava fundeada no Tejo..


R- Quando finalmente sabe que os castelhanos tinham retirado quais foram os seus passos futuros ?


São Nuno- Não imagina a alegria que me invadiu quando vi já dia claro que o grande incêndio não tinha tocado o interior dos nossos muros. Quando foi certeza que os castelhanos tinham retirado mandei mensagem ao Mestre de muito regozijo e alegria, dizendo-lhe que seria boa acção persegui-los com as tropas que tinha além-Tejo. O Mestre respondeu-me para esperar que em breve me mandava outras novas.


R- Ficou desapontado com as cautelas do Mestre? O senhor era um homem de acção e, entendia os momentos certos para ganhar crescendo sobre Castela. Parece que passaram três semanas sem saber mais nada de D. João. Impaciente: é verdade que numa noite se meteu num batel em Aldegalega( Montijo), envolvendo-se nas trevas da noite, passando entre a linha das naus inimigas e, quando tal aconteceu mandou tocar rijo as trombetas que atroaram os ares, causando um terror enorme nas tripulações. Seria o anjo da peste ? As trombetas do juízo derradeiro que se aproximavam ? Seria Nun'Álvares que nos vem procurar ? Parece que quando as débeis lanternas procuram divisar o negrume circundante e o que lá poderia estar, já o São Nuno tinha proa no cais da Ribeira.


SN- Sim, é verdade, fiquei um pouco desapontado com o Mestre. Podiamos enfraquecer mais a hoste castelhana procurando-os e dando-lhes batalha, dado que estavam mais dispersos. Afligia-me bastante a espera e resolvi rumar a Lisboa num pequeno batel, juntamente com o arrais e quatro cavaleiros. Tivemos a ousadia de assinalar a nossa passagem tocando as trombetas. Sabe, tudo isto galvanizava-me, era preciso acção, mostar aos castelhanos que não tinhamos medo.


Repórter- Não temeu ser descoberto e alvo de uma saraivada de flechas e virotões vindos das naus, que os trspassariam a todos ?


São Nuno-Não, não temi, tinha um acreditar imenso no que me estava reservado, no carinho dos céus, na protecção da Virgem Santa, na minha missão de combater pelo sagrado solo pátrio.


Repórter- Lisboa dormia quando adornou de passos o seu cerzido de ruelas, foi pela rua Nova, dali até aos bairros de S. Francisco e da Pedreira, foi a Valverde ouvir missa em Nossa Senhora da Escada. Foi a S. Martinho para abraçar o Mestre. Nessa altura já a limpidez da alva dava rosto aos caminheiros, Lisboa inteira despertava para si, a notícia espalhou-se, o anjo da vitória estava ali. Nun'Álvares era também o enviado com a espada da escolha, a espada que tolhia com a peste os inimigos do reino e poupava os portugueses. Parece que todas as duras provações se tinham ido, depois do cerco, a vinda do mais querido dos heróis que já tinha salvo o reino. Mulheres, homens, crianças cantavam de alegria quando se aproximou do Paço as ruas não continham mais povo. O Mestre desceu ao seu encontro onde choraram ambos num esteitado abraço. O São Nuno faz menção de ajoelhar, mas, o Mestre não consente, ergue-o e beijam-se nas faces. A multidão atordoua os ares com vivas patrióticas. Tudo isto foi mais um passo numa vitoriosa consolidação de independência que crescia. Apercebeu-se e poensou no que se seguiria ?


SN- Sim, os ecos das aclamadas palavras de liberdade que o povo proferia eram a melhor das mercês que me podiam conferir. Foi um dia muito bonito ver a nova esperança que ressurgia dos olhos de tanta gente. Desceu-se de novo ao adro de S. Domingos, onde o Mestre tinha sido aclamado Regedor, nesse forum ou ágora de Lisboa o Mestre falou de novo à multidão. Muitos perigos passaram mas outros viriam, era preciso coragem e determinação, sacrifícios tão ou maiores do que os passados. Chegámos ao fim desse dia com o Mestre ungido rei pela vontade de todos; à noite no Paço todos juraram fidelidade, os do conselho e os demais cargos. Resolveu-se reunir côrtes em Coimbra para legitimar D.João como rei de Portugal e, insentar Lisboa e muitas das suas gentes de pagas e rendas. Mas eu tinha a convicção de que os castelhanos não capitulariam tão facilmente. Seria uma retirada temporária, para determinar novos comandos, agrupar o novo exército, até porque algumas centenas de mortos devido à peste, não cerceava a determinação do rei de Castela em ser rei de Portugal e voltar de novo. Ainda havia muitas alcaidarias por Castela, nada estava decidido.


Repórter-Que fez então o São Nuno após o encerramento de mais este capítulo, do que podemos chamar o tormentoso cerco de Lisboa ?


São Nuno- Falei com o Mestre dizendo-lhe que ia partir novamente para o Alentejo, teria primeiro de dar a volta a toda a bacia do Tejo. Não poderiamos deixar de ter uma força presente nessa região, ainda havia fortalezas por Castela e idas e vindas de contigentes castelhanos pela fronteira. Não teria tempo de ver a minha mãe, minha mulher, a minha pequena Beatriz. Só o conforto divino me acompanharia. Sentia no meu intimo que a grande batalha ainda estava para vir, que talvez não demorasse muitos meses, precisava preparar a minha alma, para que o meu corpo ganhasse a indómita força dos heróis, uma voz dizia-me que ainda tinha muito que fazer ao serviço de Portugal.


(continua)

josé movilha






terça-feira, 1 de Setembro de 2009

O REPÓRTER NO TEMPO E NA HISTÓRIA - XIII
















O CERCO DE LISBOA DE 1384 ( primeira parte)




ENTREVISTA COM SÃO NUNO DE SANTA MARIA


24 DE JUNHO DE 1360 - 1 DE NOVEMBRO DE 1431






Repórter-Esse Maio de 1384 era o começo do cerco de Lisboa, são agora passados 625 anos que lembram essas terríveis provações e angústias que durariam quatro meses, sobretudo para as gentes que estavam refugiadas em Lisboa e para o restante povo das imediações e terras circunvizinhas. D. João de Castela recebia os últimos contingentes de tropas que tinha mandado vir do seu reino e reforços dos seus aliados franceses. Estava estabelecido o seu acampamento real em Santos. A esquadra de Castela bloqueava em toda a linha o Tejo, correntes e cordame ligavam as naus que se distendiam entre as duas margens tentando impedir qualquer auxílio por mar. Os nossos porfiavam bem da defesa desde a Ribeira até Santa Clara e depois para baixo até Santos, colocando-se forte estacada, eram pontas agudas de toros para impedir desembarque, a marcha dos cavalos, e forçar a peonagem a desfazer a formatura. Havia ainda muita pedra britada que completava a estacaria e impedia as embarcações de se aproximarem. Sabendo de tudo isto, e longe, lá no Alentejo, impedido de ter uma acção mais concretizadora de auxílio a Lisboa, qual era o seu ânimo e apreensões futuras em relação ao cerco?




São Nuno- Desde os Atoleiros que a minha atenção redobrava sobre as movimentações castelhanas. O contingente das tropas de Castela era muito forte, permitia-se ter algumas centenas de baixas, como no caso de Atoleiros e, nalguns recontros de menor importância sem diminuir muito o seu poderio que era deveras avassalador. No caso do cerco a Lisboa, o rei de Castela juntou todas as tropas possíveis, as imediações da capital eram um enorme acampamento de arraial bélico completado por inúmeras naus e galés que fechavam o Tejo a qualquer aproximação de socorro. Apropriando-se de todos os víveres dos campos, controlando tudo o que podia ser alimento para os sitiados, o exército castelhano cingia-se a esperar pela capitulação dos de entre-muros; arremetendo com algumas proclamações junto das portas do castelo no sentido da rendição. Era tal a confiança que não existia no acampamento material pesado para o assédio, somente utensílios para o assalto às muralhas, escadas e manteletes. Era pois de muita angústia a minha vivência diária, desloquei-me de Évora para Palmela, o meu primeiro pensamento foi fazer fogueiras no cimo das torres do castelo para que em Lisboa o Mestre e as gentes assinalassem a minha presença e a minha intenção de os socorrer logo que possível.




R- Entretanto nesses périplos entre o Alentejo e as terras Sadinas, ainda lhe aparece o judeu D. David, aproximando-se, talvez, untuoso de gestos, chocalhando pesadas bolsas que dizia terem mil dobras d'el-rei de Castela e, mil dobras de ouro do tempo d'el-rei D. Pedro I, muito valiosas e como já não se cunhavam, dado que agora só havia prata. Bastava aceitar e terçar armas na hoste castelhana. Parece que São Nuno o tratou com delicadeza e com tanto respeito que ele se foi em passo emudecido; levando eco do que lhe disse:" que só recebia soldo da real causa que abraçara".




SN- Sim, foi mais um episódio em que tentaram desta vez, com muito ouro, comprar a minha fidelidade à causa do Mestre.


R- Entretanto quatro naus da esquadra que tinha vindo do Porto, numa manobra arriscada e contando com a nossa experiência da navegabilidade do Tejo, rompem o cerco navegando rente à margem sul. Entre estas naus vinha a Milheira que era comandada pelo seu tio Ruy Pereira, um esteio na causa do Mestre. Albarloaram a nau almirante castelhana S. Juan de Arena, isto ocasionou manobras das naus castelhanas para protecção da nau de comando, permitindo às outras naus portuguesas e galés com abastecimentos rumar para o pontão da Ribeira. A nau Milheira, a Estrela e a Sangrenta envolveram-se então em fera peleja com as naus castelhanas, pendendo para junto do pontão de Almada. Combateu-se aí duramente durante horas, vindo por este gesto de sacrifício e destemor a morrer vários portugueses e o seu tio Ruy Pereira trespassado por um virote. Como é que recebeu esta notícia da morte de um familiar tão elevado na causa do Mestre, ele que foi a última mão que nos livrou do Andeiro e, cujo pensamento de acção estava muito em consonância consigo ?


SN- Olhe, foi uma perda muito grande para a nossa causa, o meu tio era um intrépido e leal cavaleiro e um homem devotado à causa do Mestre e à liberdade do nosso sagrado solo. Deu a vida por uma causa que tinha abraçado, mas o meu pesar não foi só para a memória do meu tio, foi também para os muitos portugueses que deram a vida para salvar outras ameaçadas, entre elas a de idosos, crianças, feridos e doentes, uma multidão de gente que entre-muros já só comia ervas e parcos grãos que arrancava do solo de idos celeiros, que mais nada tinham para dar. No entanto eu tinha muita fé que as coisas mudassem, tinha visões de Lisboa liberta, dos hinos e acções que se haviam de dizer nesse dia, acreditava, acreditava muito.


R- Entretanto Almada bate-se duramente mas cai em poder dos castelhanos, entre os defensores esta Diogo Lopes Pacheco, ancião de 80 anos, um dos matadores de Inês de Castro, que tinha vindo entregar-se ao Mestre, que lhe deu liberdade. No castelo de Almada está o Sarmiento, o Castanheira e o adelantado de Leão, que dão conta das fogueiras em Palmela e, assim, sabem que está próximo. O seu objectivo penso que era Almada, pois daí podia observar Lisboa e ter outra noção do que se passava. Faz algumas sortidas junto a Almada e repele uma guarnição castelhana que estava sediada um pouco acima de Cacilhas. Estes fogem aturdidos para o interior do castelo. O São Nuno assenta ali arraial, é mesmo em frente de Santos onde está o acampamento do rei D. João de Castela. O que aconteceu de seguida ?


SN - Mandei desfraldar pendões e estandartes e tocar fortemente as trombetas e voltear a cavalo levantando muita poeira. De tal ser visto em Santos e prender a atenção do acampamento e do rei de Castela, que era esta a minha intenção.


R- Consta que o rei perguntou ao Sarmiento, que ali estava, o que era aquilo. Parece que este respondeu: "Fareja-me que deve ser Nun'Álvares". Responde-lhe o rei de Castela: " Em verdade boa resposta essa...Sois fronteiro desse lugar e, sofreis uma afronta de um escudeiro de cinco rocins". Não se sabe se teria sido verdade o que o Sarmiento respondeu, mas parece que foi o seguinte: " Não está mau o escudeiro, senhor...Pois agradecei a Deus e a este rio que vai de permeio, que de outra forma aqui mesmo ele vos viria buscar". Isto denota o respeito que os castelhanos tinham por si e o temor que qualquer investida sobre o seu comando podia ocasionar. Era dito por grandes do exército castelhano, não havia um único pelejador de Castela que não soubesse o seu nome e que não se atemorizasse se fosse dado por perto.


SN - Começo por lhe responder pelo fim da pergunta que me faz. Os castelhanos não teriam assim tanto temor de mim, eu também podia ser vulnerável, também estava exposto às feras leis da peleja, aos inúmeros instrumentos de morte de que todos estávamos armados. Talvez os preocupasse mais a minha intrepidez, a minha forma de estar presente na vanguarda, o apoio que dava aos homens sobre o meu comando, sabiam também que eu era muito crente e frugal de vivência. Isso impressionava-os muito : efectivamente nessa altura Almada era um dos meus objectivos principais, poderia ver o cerco mais de perto. Sabe, eu estive muitas vezes, depois dos Atoleiros, para defrontar o que iria ser o Marechal Pedro Sarmiento, chegou a enviar-me um montante em desafio e, antes do cerco juntou oito mil lanças no Divor, perto de Évora, para me dar combate. Desloquei-me ao seu encontro mas eles retiraram como já tinha acontecido noutras alturas. Sabe, as fogueiras eram uma mensagem de grande proximidade e confiança de que estávamos unidos e presentes. Ao acendê-las em Palmela, logo respondiam de Lisboa com outras acesas no Paço e no Castelo.
(continua)
josé movilha





sábado, 22 de Agosto de 2009

BARTOLOMEU LOURENÇO DE GUSMÃO - LEMBRANÇA DO " PADRE VOADOR"





Bartolomeu Lourenço de Gusmão, nasceu em Santos, Brasil, em Dezembro de 1685, vindo a falecer em Toledo, Espanha, em 18 de Novembro de 1724. Tinha mais 11 irmãos entre homens e mulheres. Tomou contacto com as primeiras letras no colégio de São Miguel na Capitania de São Vicente. Prossegue depois os estudos na Capitania da Bahia e, aí ingressa no Seminário de Belém. Muito bom aluno e de espírito inventivo, logo ali deu mostras do seu génio, pois o colégio estava situado num monte com cerca de 100 metros de elevação e, tinha um precário abastecimento de água, grande parte captada em nascentes no sopé e transportada com muito esforço em cântaros. Apercebendo-se do problema Bartolomeu mete obra a inventivos estudos para construir um maquinismo para levar água do lago da nascente até ao Seminário. O mesmo consistia num conjunto de meias telhas que dispostas com propriedade e cálculos da física aproveitavam a força da gravidade.

Foi um sucesso e o reitor e os professores ficaram muito agradecidos pela utilidade do invento e a admirável inteligência do jovem que além do invento tinha dotes de prodigiosa memória. Terminado o curso no Seminário de Belém em 1699, Bartolomeu transfere-se para Salvador e ingressa na Companhia de Jesus, interrompe os estudos em 1701 e, viaja até à capital do reino Lisboa. Aqui são conhecidos já alguns ecos das qualidades intelectuais deste jovem de 16 anos e o 3º Marquês de Fontes hospedou-o em sua casa e foi em parte seu mecenas.

Nos saraus em casa do Marquês, o jovem é objecto de vivo interesse, pois recitava de cor os poetas da antiguidade clássica e detalhava factos e datas com uma precisão impressionante. Entretanto em 1702 retoma ao Brasil, pois sentiu o apelo à completação da sua ordenação sacerdotal. Pede também, à Câmara de Bahia registo de patente para a sua invenção "invento para subir água a toda a distância e altura necessária"; a mesma é expedida a 23 de Março de 1707 pelo rei D. João V, que se informa mais detalhadamente sobre o jovem, é a primeira patente concedida a um brasileiro. Em 1708 já membro da Companhia de Jesus, vem novamente a Portugal, instala-se novamente em Lisboa em casa do seu protector 3º Marquês de Fontes, D. Rodrigo Anes de Sá Almeida e Menezes, tem acesso a ser apresentado à corte, sendo recebido pelo rei D. João V e pela rainha D. Maria Ana de Áustria. Há muito que o Padre Bartolomeu estudava e concebia o projecto de um " instrumento para se andar pelo ar", lia muito projectos sobre este sonho do homem e, sobretudo Leonardo da Vinci, génio que tantas maravilhas inventou que venceram as leis da gravidade e da física. Tinha até o esboço de um projecto do mestre um " Leão Mecânico" que fora oferecido ao rei de França Francisco I, pensou em fazer algo semelhante para oferecer à rainha Maria Ana, um leão que contivesse um mecanismo que abrisse no dorso e de onde sairiam belas flores da época. Sobre o seu sonho de criar um aparelho voador elabora uma petição ao rei D. João V, que diria em parte: "...Se poderão levar avisos de maior importância ao exército e às terras mais remotas, quase ao mesmo tempo em que resolverem, porque interessa a Vossa Majestade muito mais de que nenhum dos outros princípes, pela maior distância dos seus domínios, evitando-se dessa sorte, os desgostos das conquistas que provêm em grande parte, de chegar muito tarde as notícias delas..."

A patente pedida ao rei foi concedida a 19 de Abril de 1709. A notícia espalhou-se pela capital do reino e por várias reinos da Europa. Logo apareceram várias estampas do que seria o secreto invento. Uma barca em formato de pássaro que ficou conhecido como " Passarola". Estas imagens foram criadas, com partilha de opinião do Padre Bartolomeu e pelo filho primogénito do Marquês de Fontes, D. Joaquim Francisco de Sá Almeida e Meneses. Destinou-se esta intenção a confundir os oportunistas e agentes de outras casas reais que indagavam das propriedades do invento. Além disto fez-se constar que o interior do aparelho tinha como base uma forte componente de magnetismo especial, uma das respostas para os mistérios científicos da época.

É então em Agosto de 1709 que o Padre Bartolomeu de Gusmão faz perante a corte Portuguesa algumas experiências com balões de pequenas dimensões construídos por ele. Seriam os protópitos de aparelhos maiores onde se pudesse viajar.

Alguns dos primeiros pegaram fogo logo após uma curta ascensão. Depois numa outra sala do palácio, mais ampla e alta, o pequeno balão subiu até junto ao tecto, inclinando-se sobre os pesados reposteiros. Ficou o intendente do palácio muito temeroso do perigo de incêndio e dois serviçais com vara-paus derrubaram o novel aeróstato. Numa próxima quarta-feira dia 7 de Agosto o balão é ensaiado no Terreiro do Paço. Sobe suavemente, sendo o ar quente produzido por um recipiente que continha álcool, calculado para determinado período. Um cabo guia controlava a ascensão e a descida, que passado tempo se verificou e foi suave e sem danos no aparelho.

Em Outubro de 1709 junto à Casa da Índia é feita nova demonstração com um aparelho de um porte maior e testemunhado por figuras de grande aceitação régia: o cardeal italiano Miquelângelo Conti, que seria o futuro papa Inocêncio XIII em 1721 ; os escritores Francisco Leitão Ferreira e José Soares da Silva, membros da Academia Real de História Portuguesa, ainda o diplomata Cunha Brochado e o cronista Salvador Ferreira.

Na presença de todas estas testemunhas o aeróstato levantou e pairou sobre a enorme praça e desceu sem danos. Infelizmente a inovação não foi mais longe, urgiam estudos mais profundos e mais amplos apoios. Bartolomeu foi ainda alvo de acirradas invejas e mal visto pelo Santo Ofício que não via com bons olhos a audácia de desbravar os caminhos do céu. O nosso inventor não pôde ir mais longe e nunca se saberá ou ficou registado, a odisseia que se diz ter feito de ir a bordo de um balão desde o Castelo de São Jorge até ao Terreiro do Paço.
Parte então em 1713 em viagem pela Europa. Regista na Holanda o invento de uma "máquina para drenagem de água alagadora de embarcações de alto mar". Viveu em Paris trabalhando como botânico e ervanário: O seu irmão Alexandre Gusmão, secretário do embaixador de Portugal na França, socorre-o. Volta a Portugal e a campanha de insidiosa perseguição acentua-se, a Inquisição acusa-o de simpatizar com os Cristãos-Novos e ser um forte apoiante dos judeus.

Foge pata Toledo, Espanha, adoece gravemente e é internado no Hospital da Misericórdia daquela cidade. Vem ali a falecer em 18 de Novembro de 1724 com 39 anos, quando a sua maturação de cientista experimental mal tinha começado.
Muito deveram as experiências futuras do balonismo e os irmãos Jaques e Joseph Montgolfier ao Padre Bartolomeu de Gusmão; graças aos estudos que este deixou ao seu irmão Alexandre de Gusmão, secretário da embaixada portuguesa em França, que por sua vez era amigo de um cientista português de nome José de Barros que estava ligado às pesquisas dos Montgolfier.
Setenta e quatro anos depois,1783, na presença do rei Luís XVI e da rainha Maria Antonieta, Joseph e Jaques apresentaram um balão com cerca de 32 metros de circunferência, feito de linho e cheio de ar quente proveniente de uma fogueira de palha seca. Levantou do chão cerca de 300 metros e voou cerca de 10 minutos, numa distância de 3 quilómetros.
Nesse Setembro do mesmo ano efectuou-se novamente na presença da família real e da corte; novo vô, este tripulado por dois balonistas, percorrendo cerca de 25 quilómetros.
Foi um tremendo êxito. Estavam lançados os alicerces para a conquista dos ares. Os próprios Montgolfier nunca esconderam quanto se devia ao pioneirismo do Padre Bartolomeu de Gusmão. Entre a panóplia das gravuras da época sobre o tema a que causou sempre mais viva impressão foi a mítica " Passarola Voadora" do " Padre Voador".
josé movilha

domingo, 9 de Agosto de 2009

O REPÓRTER NO TEMPO E NA HISTÓRIA - XII

ENTREVISTA COM SÃO NUNO DE SANTA MARIA



24 de Junho de 1360 - 1 de Novembro de 1431



R- São Nuno: por vezes ocorre-me perguntar-lhe coisas que não são só da guerra. Elas servem para que possamos ficar a saber mais de si e para ilustrar a sua tão rica personalidade. Dos anais ficou a constar que talvez fosse o mais espantoso guerreiro e místico que a última metade do século XIV nos deu, e um marco como comandante, homem e religioso de toda a Idade Média. Pergunto-lhe se chegou a frequentar, quando transferida para Lisboa, a Studium Portugalensis, a designada Universidade Portuguesa, que era estabelecida no mesmo edifício onde D. Dinis a fundara, perto do Castelo e do Paço Real da Alcaçova, sendo as suas aulas abertas a todos aqueles que estivessem interessados em completar os estudos elementares - o Trivium e o Quadrivium -, que englobado sob a denominação de Sete Artes Liberais, constituiam a cultura literária medieval.


SN-Gosto imenso das suas perguntas: elas denotam o seu interesse por multiplos aspectos da minha vida e pela envolvência política, social, religiosa, que a época em que vivi tinha em nós. Sim, aprendi Latim e depois mais tarde frequentei em regime livre algumas aulas na Studium Portugalensis. Tinha lá muitos amigos, alguns que viajavam muito, sobretudo a Inglaterra, trocávamos impressões várias e ficávamos a saber o que se passava noutros reinos e de que livros se falava por lá.


R-Contudo, para além da formação escolar e livreira, que se obtinha sobretudo através do Latim, havia ainda a cultura em língua vulgar, adquirida essencialmente por via oral, constituida por tradições populares, lendas, sermões, provérbios, novelas de cavalaria, e aquela novela de cavalaria e narrativa mística-cavaleiresca, " Demanda do Santo Graal" , que penso que leu e exerceu em si profunda influência e em grande parte dos que pelejaram em Aljubarrota; de tal maneira tudo isto foi que o São Nuno foi o único herói individual da Crónica de D. João I, escrita já após a sua morte e por um cronista tão notável Fernão Lopes, que tão bem conheceu.


SN-Sim, a cultura em língua vulgar era notável, a via oral era um manancial inesgotável: lendas, sermões, provérbios, as novelas de cavalaria. Sim, a " Demanda do Santo Graal" era uma novela que me fascinava e que eu sabia de cor, a componente sacra e mística aliada à bravura e porfiada lealdade e ideais, tornavam-na um ideário a seguir. Sim, alguns dos que pelejaram nos Atoleiros, Aljubarrota e outras batalhas, tinham esta leitura como paradigma. Quiseram os homens deste reino tratar-me muito bem nos escritos que perduraram sobre mim após a minha morte. Um princípe que me venerava muito, D. Duarte encarregou esse enaltecido escrivão Fernão Lopes, que lembro ainda jovem, já depois da paz com Castela, a falar e a tomar escritos junto aos veteranos das batalhas passadas, e Guarda-mor da Torre do Tombo. Escreveu sobre mim com muita generosidade de passos e actos.


R-São Nuno, a sua modéstia foi também sempre um dos seus exemplos e uma das suas muitas virtudes. Quando leio sobre si fico maravilhado e liberto de viva e real imaginação para pensar no passado, por isso lhe pedi para me contar factos desse tempo aqui em Estremoz; neste campo de Atoleiros que já não é o mesmo, desgastado por alguns séculos de erosão, sendo ainda intemporal o que hoje se chama a Ribeira das Águas Belas; no entanto caminhou sem vacilar para o local que escolheu para a primeira batalha vitoriosa que alterou o rumo da história. Quantas coisas ainda lhe vou pedir que nos conte e descreva.


(continua)


josé movilha

quarta-feira, 5 de Agosto de 2009

O REPÓRTER NO TEMPO E NA HISTÓRIA - XI


ENTREVISTA COM SÃO NUNO
DE SANTA MARIA



R-A repercussão da vitória na batalha de Atoleiros estendeu-se a todo o território. São Nuno inflecte para Évora para aguardar notícias do Mestre de Avis. Passa por Estremoz, para se dirigir à capela de Nossa Senhora dos Mártires, a quem tinha muita devoção e onde fez votos de agradecer a vitória mandando ampliar aquele local. Acontecem saudações muito jubilosas à hoste pelos vários locais do intenerário, novas gentes se querem alistar. Era um forte despertar social da consciência nacional, ou só em especial do povo ?


SN-Fiz precisamente esse percurso, eu rezava desde a adolescência nessa singela capelinha e fiz votos de mandá-la ampliar. Foi um acontecimento muito bom para nós portugueses a vitória dos Atoleiros. A nossa nobreza que estava por Castela não acreditava que isso pudesse acontecer, muitos já estavam arrependidos dessa adesão oportunista. Todos sentiram um entusiasmo enorme : dos homens de ofícios à pequena burguesia, o povo, sobretudo o povo redobrava de fervor patriótico querendo alistar-se e partir para as batalhas. Era um alvorecer novo, nada dali em diante atemorizava as nossas gentes nem cercearia o sentido da liberdade.


R-Diz-se que D. João de Castela, o rei que também era um jovem como são Nuno e o Mestre, ficou tão enfurecido quando soube do desfecho da batalha, que quase maltratou um seu camareiro que obedientemente lhe estendia uma bacia lavrada com água perfumada, na tenda do acampamento que já estava às portas de Lisboa. Parece que incrédulo perguntava onde estavam os seus comandantes, e uma tão valiosa parte do exército de Castela vencida por um nome que já todos proferiam com respeito, Álvares Pereira.


SN-Foi um golpe realmente muito duro para o rei de Castela e para os seus validos mais eminentes. O rei D. João de Castela deslocou-se a Portugal com um numeroso exército onde pontuava o luxo no mais fino pormenor que os países do centro enalteciam. As montadas enfeitavam-se de finas capas, os homens de gibões da melhor seda, as damas seguiam isto como se fora presença em justa. Nas tendas não faltavam o requinte do Paço de Castela. a água de rosas corria abundantemente, os folguedos e banquetes sucediam-se, havia trombetas, pendões, música e festas por todos os lados. Afinal parecia que era só tomar conta de um trono que estava aqui a algumas léguas!... Sem oposição até às portas de Lisboa: o que aconteceu foi uma contrariedade nunca pensada.


R-Entretanto parece que o cerco a Lisboa por parte dos castelhanos, é todo o seu intento de resolverem de vez a pretensão de D. João de Castela. Todas as forças acampam em volta da nossa capital. Enquanto isto o Mestre reúne algumas gentes de grande préstimo entre elas D. Lourenço, arcebispo de Braga, a quem entrega o providenciar de equipagem e armamento da frota portuguesa de doze naus que consegue sair do Tejo, comandada por Gonçalo Rodrigues de Sousa, alcaide de Monsaraz. Vai para o Porto, para trazer reforços e mantimentos. Com a antevisão do cerco afluem a Lisboa centenas de gentes dos arredores. Ninguém queria deparar com os castelhanos, pois ainda eram bem presentes as crueldades acontecidas nestes locais há uma dúzia de anos. Não tarda muito impera uma escassez de géneros. Parece por uma determinação superior acontecerem factos que nos vão ajudando. Várias naus castelhanas zurzidas pelo mau tempo sobem o Tejo e são apresadas pelos nossos, estão carregadas de farinha e peixe seco, é um bem temporário pata todos. Mas, entretanto chega ao Tejo a armada de Castela que se posiciona de forma a não permitir qualquer entrada ou saída dos nossos. Quando soube destas notícias o que pensou deste desfecho ?


SN-Recebi em Évora cartas de D. João, Mestre de Avis, felicitava-me muito e desejava abraçar-me. Conferia-me o título de conde de Ourem, proposta que a casa dos Vinte e Quatro aprovara, Lembrei-me da profecia do Alfageme de Santarém, de que viria a ser conde de Ourem. Confesso: fiquei feliz, mas não era muito importante para mim. Importante para mim era libertar Portugal e o mesmo ser um reino independente. As notícias do Mestre não eram as melhores, iniciara-se o fecho do cerco a Lisboa. Os castelhanos queriam submeter a capital pela fome, propor a rendição do Mestre; acontecendo isto não precisariam de qualquer outra batalha. Veja a minha angustia quando acabei de ler estes despachos!... Dizia-me o Mestre de que devia ir com parte da hoste em direcção ao Porto para ali embarcar e rumar para Lisboa. Deixei acampada aqui, em regime de prontidão, grande parte dos restantes. Mas, digo-lhe: apesar de tudo, parti com o coração cheio de fé, os altos desígnios dos céus não nos abandonariam.


R-Entretanto parece que se dá um desencontro e a frota parte do Porto sem que possa embarcar com as suas gentes. Sendo assim, ruma para Sul, Torres Vedras, Tomar, onde nos arredores desbarata uma coluna castelhana, parece que com transporte de bens em prata e ouro que tanta falta nos faziam. Novamente através do Alentejo ainda vai tomar definitivamente a praça de Monsaraz, com um ardil bem próprio de Ulisses ou de Sertório: havendo no castelo muita escassez de alimentos, manda, sem que ninguém se aperceba de dentro, tocar duas rêses para junto do portão. Ocorrem os da praça a abrir a porta, proporcionando a entrada e conquista. Depois fica pelas cercanias de Palmela, Coina, Almada. Sendo sobretudo em Palmela que faz bastas fogueiras no cimo das torres, que atestavam ao Mestre e às gentes de Lisboa da sua presença. Estávamos em Maio de 1384, cerca de mês e meio após os Atoleiros. Chegam ao Tejo as naus da esquadra castelhana, cerca de quarenta ao todo. O rei de Castela manda vir todas as tropas de Castela e aliados. Chegam a vir trezentas lanças de França, vem o princípe Carlos de Navarra; junta um exército de vinte e cinco mil homens. Não chegou a pensar que desta vez Lisboa iria sucumbir pela fome, pelo desespero, pela falta de meios de vir combater a campo aberto ?


SN-Sim, não cheguei a tempo de embarcar no Porto com a frota para Lisboa. Rumei novamente para Sul, tentando fazer surtidas às deslocações e caminhos dos oponentes. Realmente aquele expediente das rêses ajudou a conquistar Monsaraz. A situação era muito gravosa. Eu com a minha hoste poderia continuar a conquistar praças para a nossa causa. Enfrentar grupos de castelhanos que se deslocavam dentro do nosso território, mas enfrentar o contingente castelhano que rodeava Lisboa urgia recrutar mais gentes. Mas tudo isso não abalava a minha fé, a minha luta iria prosseguir com a vontade dos nossos. A Virgem Santa não permitiria o arrear dos sagrados estandartes da cumeada das nossas igrejas. No momento propício atacaria os castelhanos, esperavamos também alguns reforços de Inglaterra, sobretudo arqueiros, iriam ajudar muito. Acreditava, acreditava muito que iamos continuar a vencer.


R-Não se lembrava da sua esposa D. Leonor Alvim, e da sua pequena Beatriz que tanto amava ? A única filha viva, querendo os céus que as outras duas crianças em tenra idade para lá fossem chamadas.


SN-Sim, lembrava-me bastante, a minha esposa era uma piedosa e virtuosa senhora que nas nossas terras spocorria os necessitados; a minha Beatriz era mais uma dádiva que o céu me concedeu e assim quis. Rezava muito por elas. Masw todo o meu pulsar, a minha existência quotidiana era muito marcada pela intenção de me dedicar a salvar Portugal. Era uma missão conferida do alto, um apostolado, se para tal fosse preciso daria a minha vida.


(continua)

josé movilha







domingo, 2 de Agosto de 2009

O REPÓRTER NO TEMPO E NA HISTÓRIA - X

ENTREVISTA COM SÃO NUNO DE SANTA MARIA

24 de Junho de 1360 - 1 de Novembro de 1431


R-Diz-se que o seu estandarte, nesta batalha de Atoleiros, não sofreu sequer um rasgão ou mau tratamento. E que não tiveram baixas mortais, somente muitos feridos.

SN-Sim, as figuras pias bordadas no sagrado pano: a Santa Virgem; Nosso Senhor Jesus Cristo; S. Tiago e S. Jorge, pareceram sempre velar pela nossa vitória. Em boa verdade só por milagre ninguém morreu na batalha.



R-Dá instruções para que estandartes e balsões do campo contrário fossem recolhidos, como era corrente nas batalhas e, que fosse facultada a vinda dos que iriam recolher feridos e mortos ao campo de batalha. A sua religiosidade e humana caridade a vir à tona, até isto era um exemplo pouco visto nesse tempo e uma nova forma de preparar os seus homens.


SN-Sim, não procederia de outra maneira. A guerra era para mim cruenta e vil, fazia-a por necessidade libertadora, não por prática de ensaiadas atrocidades. Respeitava os meus oponentes, admirava-os como homens e combatentes, tinha por eles o respeito devido aos heróis; rezava pelas suas almas. Sempre quis tirar a alguns dos meus homens o sentido da barbárie, incutir-lhes a piedade pelos deminuidos, só assim estaríamos aptos a pelejar com um sentido moral superior.


S-Na perseguição que fez a parte do exército castelhano, depara com os castelos de Fronteira e Monforte que são por estas cores acolhendo muitos oponentes, é infrutífera a idéia de tomá-los. Depois é informado pelos seus batedores que toda a hoste de Castela levanta campo do Crato e da Flor da Rosa, partindo para Lisboa. Qual a sua visão militar em relação ao futuro ?


SN-De momento não era possível tomar esses castelos que tinham o partido de Castela. Um cerco poderia demorar meses, urgia outras providências e informações sobre os movimentos do exército castelhano. Estava convicto que Lisboa seria o alvo de toda a acção oponente, mesmo com esta vitória todos lá teriam que resistir. Era la que estava o Mestre de Avis, era o coração do reino e de Portugal.


R-Dali, despido da sua armadura e armas, vestindo com um singelo manto e descalço, o mais humilde dos peregrinos, parte a pé para a capela de Nossa Senhora do Assumar, rezar e agradecer a vitória. Chega lá e depara com enorme ocorrência de desmandos perpretados por alguns castelhanos que tinham feito daquele local estrebaria. Todos apercebem o desgosto que tal visão em si desencandeia. Todos ocorrem a limpar, mas é de si que vem o mais denotado esforço nesse trabalho, fazendo os mais esforçados e rudes. Ninguém já podia ficar indiferente às suas qualidades, nunca em tal cargo de altos comamdos se vira um homem assim.


SN-Sim, foi uma rudeza muito grande e desrespeito pio o que algumas gentes de Castela fizeram nesse local sagrado. Havia que limpar, colocar as alfaias litúrgicas nos locais próprios. Agradecer a Santa Maria a vitória. Orar pelos ímpios; quanto ao meu trabalho: quem era eu a mais que o mais simples dos peões ? Os tributos da minha fé ainda mais me motivavam para a humildade e para o exemplo, só assim todos sentiriam uma mudança nos seus corações.


(continua)

josé movilha

quinta-feira, 30 de Julho de 2009

O REPÓRTER NO TEMPO E NA HISTÓRIA - IX

ENTREVISTA COM SÃO NUNO DE SANTA MARIA












24 DE JUNHO DE 1360-



1 DE NOVEMBRO DE 1431



R- A sua resolução é já inabalável nessa quarta-feira da Semana Santa dia 6 de Abril de 1384, procurar os castelhanos para lhes dar batalha, possivelmente ali a poucas léguas de Estremoz. Consta que alta madrugada mandou levantar o campo e rumou a caminho de Fronteira onde as últimas informações davam conta dos castelhanos. Qual era o seu ânimo e o das suas tropas ?






SN-Sim, não se devia esperar mais, tudo o que foi possível fazer para a batalha estava feito. Os homens estavam ansiosos, prolongar a ida ao confronto era desmotivá-los, amolecer-lhes a intrepidez, arredá-los de um ânimo forte, furtá~los a um momento que eu sabia ser aquele. Por isso pusemos em marcha ainda antes da alva, todos os presentes estavam dispostos a morrer ou a vencer.






R-Diz-se que poucas léguas ao termo de Estremoz apareceu um escudeiro castelhano que era portador de grandes propostas de honra e mercês para si, desde que passasse para o partido de Castela, e uma carta de seus irmãos para que desistisse deste intento e loucura e se juntasse aos deles. E que teria dito ao emissário: " ide depressa para os vossos, pois mais depressa do que julgueis estaremos perto de Fronteira prontos para o combate ".






SN-Sim, é verdade: o rei de Castela e os meus irmãos davam mais um derradeiro passo para me aliciarem, enviando-me promessas de grandes honras e bens, caso passasse para a sua causa e me submetesse a Castela. Quanto mais esta tentação era perpretada, mais o meu coração cerrava fileiras de fidelidade e esperança à causa que abraçara na defesa de Portugal. Quando mandei a resposta pelo escudeiro, sabia que não distavam muitas horas para a primeira etapa deste destino se cumprir.






R-São Nuno, pergunto-lhe um facto que intriga bastantes estudiosos desta batalha e que eu pessoalmente gostaria que nos dissesse alguma coisa sobre tal. Como é que descobriu o local onde formou para a batalha, que era tão propício de relevos naturais como se fora fortaleza ? O que o levou a adoptar a táctica do quadrado, e a mandar apear quase toda a cavalaria para combater a pé ? Como é que teve a ideia de mandar cravar lanças entrecruzadas no solo no local que parecia mais vulnerável, tornando-o uma muralha intransponivel e de grande perda para a cavalaria castelhana ?






SN-Eu confiava de que receberia um sinal dos céus, sinal que me indicaria onde devia formar o exército. Quando a alva começou a clarear rompeu-se uma rosácea de fulgor do Espírito Santo, um jorro de luz que apontava aos campos, traçando o caminho no horizonte. Quando inflecti para os campos de Atoleiros, a todos conduzindo, sabia que em breve dava com o lugar para mim traçado para glória desse dia. Era realmente um lugar com todos os privilégios da melhor das fortalezas e de designíos protectores.



Uma ribeira muito dissimulada e de leito quase seco cobria quase três terços do cabeço, era uma temível barbacã natural, depois o cume do suave outeiro tinha a forma de um quadrado, dois dos lados pareciam suaves de inclinação, mas enganavam tornando-se nos últimos metros muito íngremes; uma barreira de lanças e piques acerados cravados no solo e apoiados pelos braços fortes dos peões, seriam difíceis de transpor. Depois havia ainda um terreno na frente Norte que era muito argiloso e conservava uma humidade notável, dificultando a progressão das montadas. Como sabe a forma do quadrado vem dos Hoplitas Gregos e das Legiões de Roma; nunca forma de entreajuda nas fileiras foi tão auspiciosa, ombro com ombro criando telhado férreo aos projecteis; quem cai é substituído pela rectaguarda, todo aquele conjunto ocorre por viragem simples à frente dos oponentes. Mandei apear quase toda a cavalaria, não iria combater com ela inicialmente em campo aberto, ficaram cerca de 50 cavaleiros montados, alguns veteranos do Salado, para conduzir as alas do quadrado e comandar os peões e besteiros.






R-Sabiam que o exército castelhano era bem equipado e ultrapassava os 4000 homens. Ora isto era uma força brutal comparada com os nossos cerca de 1400. O que os teria levado a proceder com aquela forma de ataque: excesso de confiança ao avistarem aquela pequena mancha dos nossos homens na planície ? Saberem que nós não estávamos muito bem armados ? Falta de comando capaz de gizar um ataque prudente e de acordo com as circunstâncias ?






SN-Faz-me perguntas muito pertinentes e interessantes: sim, foi um pouco disso tudo. A formação mais utilizada nesse tempo era o " Az", em linha distendida, com cargas sucessivas frontais de cavalaria sobre a vanguarda do oponente, só depois aparecia a peonagem e o envolvimento de mais cavalaria pelas alas. Ora os castelhanos pensaram que uma primeira vaga de algumas centenas de cavaleiros desbaratariam os nossos, não cuidando de prudência de avaliar o terreno e aquele tipo de batalha. O exército de Castela era ali comandado pelo que era dado ser a maior nobreza; o Mestre de Santiago, Garcia de Grizalva ; o conde de Niebla; o almirante Tovar; Gonçalo de Aza; Julião de Lerna; o meu irmão Pedro Álvares, Prior do Hospital, e muitos mais fidalgos de primeira nobreza.






R-Diziam no acampamento castelhano que o iriam fazer pagar a insolência por ter replicado o desafio do conde de Mayorca, D. Pedro Álvares de Lara, que estava em Santarém com o rei de Castela. Foi o primeiro dos primeiros na vanguarda portuguesa a enfrentar os oponentes, como tinha prometido. Quando é que atestou que a vitória era das nossas cores e que tinham vencido esta primeira grande batalha ?






SN-Sabe, havia vários desafios, era uma forma dos homens menos prudentes darem corpo a alguma bravata, fazerem eco e arauto pelo território do que parecia poderio. A maior parte nunca ia a campo de luta. Eu tive vários desafios do Marechal Pedro Sarmiento e nunca, porque ele evitou, me encontrei com ele em torneio. Sobre ser o primeiro, outra obrigação tão grande não haveria para mim. Como é que poderia dar ânimo àquelas gentes ? Quando ao pendor da batalha, as duas primeiras cargas malogradas dos castelhanos foram decisivas; perderam algumas centenas de homens e gente importante dum comando que se já era débil, depois ficou destroçado.






R-Consta que os castelhanos viram tal constância e apego à luta nos nossos, condições tão adversas quando tentavam acercar-se da vanguarda, que na própria hora da luta o desânimo se apoderou deles.






SN-Sim, não foram só as condições do terreno. Todo o nosso exército se bateu com bravura e heroicidade, se o quadrado abrisse brecha estávamos perdidos. O cerrar fileiras foi o mote em cada presente. Não imagina o embate brutal das montadas sobre as lanças os piques, o estertor dos nobres animais, os cavalos, rasgados e desventrados, os homens brutalmente esmagados jazendo nos escombros de uma amalgama de ferros cerceadores e rudes de ceifa. Quanto rezei para que o Criador recebesse todas aquelas almas.




R-Depois da terceira vaga de cavalaria castelhana, apercebe-se nesse quarto de légua onde tudo se passou, que as trombetas de Castela soavam para a retirada. Era o consumar de uma primeira vitória ? O primeiro dia de uma saga de lutas longe de estar concluída ? O ganhar do respeito de uma nação que tinha quem lutasse por ela ?




SN-Sim, tudo isso: os castelhanos desorientados com as perdas e com a falta de comando imediato, agruparam para a retirada. Compreendi que tínhamos ganho esta batalha, mas também que muito havia ainda por fazer, o exército de Castela era ainda muito poderoso, até à sua saída do reino muito haveria ainda por fazer. Mas era uma verdade que eles olhariam para nós com mais respeito e de outra maneira. Esta vitória traria eco a todos os rincões pátrios, mais gentes abraçariam a causa nacional.




(continua)


josé movilha

segunda-feira, 27 de Julho de 2009

O REPÓRTER NO TEMPO E NA HISTÓRIA - VIII




ENTREVISTA COM SÃO NUNO DE SANTA MARIA




24 de Junho de 1360 - 1 de Novembro de 1431




R-Qual era a percepção do poder das forças de Castela ? É verdade que já o temiam, após a sua bravura contra os castelhanos no reguengo de Alcântara e a sua resposta ao conde de Mayorca, D. Pedro Álvares de Lara, comandante do exército que acompanhava o rei de Castela, quando este manda o repto por um Annequim, jogral da corte, a D. João, que parece que dizia: « Se o Mestre de Avis persistir em alvoraçar este reino com traição e maldade tentando roubá-lo ao seu legítimo dono, lhe porei o pé em cima e lho farei reconhecer»: e que indignado e antes mesmo que o Mestre respondesse, disse : « Dizei lá que sou eu Nun'Álvares, fidalgo deste reino de Portugal, que lhe irá pôr a ele o pé em cima». Por tudo isto se interrogavam os grandes de Castela, desde D. Pedro Cabeza-de -Vaca, o camareiro Velasco, o conde de Niebla, o Almirante Tovar, o Marechal Pedro Sarmiento; todos sobranceiramente e com desdém do poderio perguntavam: quem seria este Nun'Álvares ?


SN-Não acredito que me temessem tanto, não tinha ainda feitos para tal. Mas nunca me fiquei perante um desafio de honra em que estivesse nomeado o nome de Portugal e o de um seu representante real. Já no tempo de D. Fernando eu mais alguns cavaleiros nos propusemos defrontar em torneio os castelhanos, quem vencesse tomava por liberdade a praça de Campo Maior e a retirada para fronteiras. Infelizmente D. Fernando não autorizou. Não nego que os castelhanos soubessem pelos meus irmãos quanto de persistente havia em mim, quanto de fervor pátrio e sentido de honra e compromisso me norteava.


R-Portanto aqui em Estremoz nesse mês de Abril de 1384, tempo de Quaresma, Semana de Trevas, tudo se preparava para a primeira grande batalha da Guerra da Independência. Os campos de Atoleiros são a poucas léguas, o exército aqui acampado recebia os últimos alistados. De quantas gentes se compunha o nosso exército ? É verdade que dos recentes alistados alguns queriam desistir ? É verdade que profere aqui uma célebre exortação a todos que consistiu em quem o quisesse acompanhar passasse para o outro lado do ribeiro ?


SN- Sim, foi aqui em Estremoz que ultimámos o contingente das nossas forças. Éramos pouca mais de catorze centenas de homens, entre cavaleiros , peões, besteiros, muita gente mal equipada, sem couraças, escudos, espadas, cotas de malha, mas todos com enorme fervor e fé na vitória. Pela proximidade das forças de Castela, sediadas no Crato, sabíamos dos seus efectivos; eram muitos numerosos e bem equipados. O exército castelhano, era cerca de três vezes mais do que o nosso. Tornava-se até compreensivel algum temor sobretudo nos recém alistados. Como já tinha feito no caminho de Lisboa, quis que todos se pronunciassem livremente se queriam combater. Surgiu essa tomada de posição que o ribeiro demarcava. Foi muito jubiloso e grato ao meu coração ver que todos me queriam acompanhar e que ninguém desistia.


R- Diz-me que São Nuno por hábito era muito parco de alimentos, chegando os seus próximos a temer tal frugalidade, mas que nessa Semana de Trevas jejuava bastante, sendo sómente água e alguns figos, dum carrascal aqui próximo, o seu único alimento. E que passou a noite que antecedeu a batalha em oração na Igreja de S. Francisco, surgindo pela manhã tão sereno de tez e passo que todos foram por isso também tocados de fé.


SN- Sim, é verdade, vivia sempre em mim um forte apelo monacal, na Quaresma redobrava esse voluntário e piedoso sacrifício em nome da fé. Dormia pouco, esquecia o alimento, quando a todos atendia de suas procuras, em pleno manto da noite pensava no destino daqueles homens que comandava. Antevia as suas posições na batalha, era como se a todos quisesse escudar e proteger, eu era um pouco de todos eles, eles eram um pouco de mim, da minha enorme fé na Virgem Santa e nos destinos de Portugal.


(continua)

josé movilha



quinta-feira, 23 de Julho de 2009

O REPÓRTER NO TEMPO E NA HISTÓRIA - VII





ENTREVISTA COM SÃO NUNO DE SANTA MARIA





24 de Junho de 1360 - 1 de Novembro de 1431






R- Já em terras de Além-Tejo e como Fronteiro-mor, faz um périplo pelas fortificações de Almada, Coina, Setúbal, os alcaides destes castelos estão timoratos de escolher obediência, sabe-se que pela causa do Mestre estão Lisboa o Porto e umas sessenta praças em todo o território, a maioria no Alentejo; não teve a sensação que partia para uma futuro batalhador incerto e muito desapoiado de gentes para uma guerra que breve se desencadearia ?


SN -Sabe, cada vez a fé em mim e na minha missão era maior, os meus homens viam-me cada vez mais como um exemplo que florescia nos seus corações. Eu era um comandante, mas também um igual, que não se furtava a acompanhar toda a vivência da hoste: saber como estavam de saúde, de onde eram, quem os esperava nas suas terras, os filhos que tinham, as mulheres que amavam. Eu dava-lhes um ânimo crescente em cada dia que passava; incuti na mente dos mais preparados esta maneira de ser, cada um adestrava o companheiro naquilo que sabia, dando e recebendo experiência.


R-Entretanto dá-se uma reviravolta em relação aos pretensos candidatos ao trono português. Por meandros tenebrosos e conspirativos que D. Leonor tece contra o genro D. João de Castela, este aprisiona-a num convento em Santarém, mandando-a em breve com igual fim para Valhadolide onde veio a morrer mais tarde. Eram agora mais nítidas as forças em confronto: D. João de Castela, ou D. João de Portugal.


SN -Sim, a luta era a coroa ser Portuguesa ou de Castela. Os apoiantes de D. Leonor já eram de certo modo por Castela, com este desfecho passaram para D. João e D. Beatriz. Depois o grande problema eram os alcaides e grandes senhores que esperavam o partido que lhes desse maior interesse e salvaguardasse os seus bens e propriedades. Casos houve em que o povo tornou esses desfechos logo pelo Mestre; veja-se os casos da tomada do castelo de Beja, Ourique, Estremoz, Évora, praças importantes que o povo tomou pelo Mestre.


R-Digamos então que a burguesia e sobretudo o povo a " arraia miúda", como lhes chamou mais tarde esse seu contemporâneo e tão grande cronista Fernão Lopes, que se nado mais cedo quanto gostaria de ter acompanhado passo a passo essa Guerra da Independência, como Pedro Ayala fez por Castela. Foram todas estas coisas também a primaira revolução burguesa nacional e o motor entusiasta desta luta contra Castela ?


SN-Sem dúvida !... Os homens de ofícios e o povo tiveram um sentimento muito forte de mudança, de independência, liberdade, de amor pátrio, foi graças a eles que juntámos forças e nos batemos com destreza e bravura contra o invasor.


R-Mas ocorreram alguns desmandos censuráveis: vejamos a morte do bispo D. Martinho, o prior de Guimarâes, o tabelião de Silves, a abadessa de Évora, o almirante Pessanha, e mais alguns de menor nomeada. Não parece que eclodiu alguma sublevação incontrolada do povo ?


SN - Convém lembrar: tudo isto era também de certo modo uma revolução interna; o povo estava massacrado por leis que favoreciam amplamente a nobreza latifundiária, os grandes senhores. Os contratos eram a belo prazer dos proprietários, os soldos fixados por estes, o vínculo e tutela de permanência no trabalho era lei enquanto o senhor assim quisesse. Depois a questão religiosa que era muito cara ao povo; muitos dos grandes senhores eram cismáticos, ou seja: tomavam o partido do papa de Avinhão, o papa que Castela também advogava. Pela minha parte sempre ditei éditos para o serenamento e respeito, mas compreendo que é difícil conter multidões.


R-Estamos aqui em Estremoz, neste rossio que se chamava de S. Brás, hoje Marquês de Pombal, aos nossos pés, duma forma hoje subterrânea ainda correm águas que no seu tempo a céu aberto eram um formoso arroio. No que é hoje a capelinha do Senhor Santo Cristo, ficou no subsolo a imagem santa esculpida na rocha e em frente deparase-nos a vetusta igreja de S. Francisco onde fez uma velada de armas antes da batalha de Atoleiros. La no alto a Torre das Três Coroas, o castelo, as muralhas, a capela e câmara da rainha Santa Isabel; passou aqui muitos dias felizes da sua adolescência ?


SN-Sim, guardo as melhores recordações de Estremoz: gostava muito deste local e suas terras circunvizinhas, cavalgava muitas vezes até Évoramonte, onde o filho do castelão tinha a minha idade e os dois folgávamos muito pelos campos até á ribeira de Tera e ao pego do Sino, lugares muito apraziveis. Mas, também, foi aqui que a minha observação despontou para reparar na má conduta da rainha com o conde Andeiro. Desgostou-me tanto estas aleivosias e traições que foi o embrião de eu querer sair da corte o mais depressa possível. Também, foi aqui que eu reuni as derradeiras forças para a batalha dos Atoleiros e rezei muito à milagrosa rainha Santa Isabel e ao Senhor Santo Cristo.

(continua)

josé movilha


domingo, 19 de Julho de 2009

O REPÓRTER NO TEMPO E NA HISTÓRIA - VI











ENTREVISTA COM SÃO NUNO DE SANTA MARIA



24 DE JUNHO DE 1360 - 1 DE NOVEMBRO DE 1431


R - Pela sua nova espada pagou ao artífice bastantes moedas de boa lei cunhadas ao tempo de D. Pedro I ?


SN -Curiosamente não paguei logo ali nada, muito contra a minhas práticas: diz-me o alfageme que não iria receber ali qualquer dinheiro. mas que quando fosse conde de Ourem por ali passaria para lhe pagar. Voltei ao convento quando já ali era nova recente a morte do Andeiro, conde de Ourem, que desígnios e enigma teriam feito falar assim o alfageme. Não foram as novas de Lisboa entusiasmo para os meus irmãos e eu fiquei somente com os meus homens. Reuni-os, disse-lhes os perigos que corriam se fossem para Lisboa e para a causa do Mestre, se alguém não o quisesse fazer que de pronto o afirmasse para ir a seu descanso e terras.

Todos sem excepção disseram que me seguiriam para dar o corpo e a vida pela causa mencionada. Estava lançada a semente do futuro exército que formaria e que venceu Atoleiros, Aljubarrota e Valverde, entre outras batalhas.


R- Como é que o Mestre de Avis o recebeu em Lisboa ? E como é que foi nomeado Fronteiro-mor do Alentejo ?


SN -Como lhe disse a pequena hoste de gentes da minha casa eram cerca de sessenta cavaleiros, peões e besteiros, todos em número de pouco mais da centena de homens; mas determinados a tudo e a tudo enfrentarem. Se acaso a rainha, que estava em Alenquer, por onde passámos muito perto, ao saber da minha ida para Lisboa, nos tenta mandar aprisionar ou tolher o passo, lutaríamos e não nos iríamos submeter. Foi de muito júbilo a minha chegada a Lisboa e junto ao Mestre de Avis. Ele viu em mim a espada da profecia, o entusiasmo de um condutor de homens, um comandante disposto a lutar abnegadamente pela sua causa e por Portugal.

Tive assento no conselho dos Vinte e Quatro, tomo contacto mais intenso com o Dr. João das Regras. D. João, Mestre de Avis, era então aclamado Defensor e Regedor do reino, se houvesse duvidas quanto à sua integridade, as mesmas foram desfeitas quando ele rasgou à frente do muito povo as cartas e ordens que a rainha lhe enviara. Depois houve ainda um momento de algumas indecisões e rivalidades. O Condestável nomeado por D. Fernando, que era o conde Álvaro Pires, não concordava com a minha nomeação como fronteiro do Alentejo; mais algumas vozes partilhavam desta opinião. Não compreendiam como um jovem de 24 anos podia ter tal cargo. Mas o Mestre confiava, sabia que eu manejaria a espada que protegeria o reino e conduziria à vitória.


R- Consta que sua mãe D. Iria Gonçalves veio a Lisboa ao seu encontro tentando demovê-lo de abraçar esta causa, dizem que trazia orientação do Prior seu irmão e sobretudo do rei de Castela. Ofereciam-lhe o condado de Viana, terras e rendas e tudo o mais que quisesse. Foi Assim ?


SN - Sabe, uma mãe quer sempre o melhor para os filhos. A minha mãe era uma santa senhora e, teve sempre em mim um filho obediente e cumpridor. Apreciava a minha devoção à Santa Virgem Maria e o meu zelo ao divino. O temor dela era a insegurança que o nosso partido parecia ter, a morte em peleja, as forças castelhanas que eram muitas. O meu maior júbilo foi ela depois ter compreendido a minha escolha e a fé que eu albergava pela liberdade de Portugal e ter trazido para mim o meu irmão Fernand'Álvares.


R- Parece então que D. João consegue recrutar 40 cavaleiros de primeira nobreza, mais alguns outros, e peões e besteiros dispostos a voluntário alistamento na hoste. Partem para o Alentejo com que fé na vossa empresa de combater o que se dizia um forte e numeroso exército castelhano ?

SN- Sim, quando atravessámos para Almada, querendo o Mestre acompanhar-me até ali para num estreitado abraço se despedir de mim. poucos mais éramos do que trezentos homens, mas tão confiantes e cerrados de querença e convicção que valíamos logo ali por muitas centenas de oponentes. Todos os olhares eram firmes, sabiam que eu era um pai, um irmão. um amigo, que nada pediria que não fizesse primeiro, que não desse o exemplo, o primeiro dos primeiros na frente seria eu, poderiam sempre contar comigo.

Era o começo de uma luta árdua, visitar castelos que eram pelas cores do Mestre, mantendo firmes as suas guarnições; demover Alcaides timoratos de o fazer e que eram por D. Leonor; recrutar gentes e prepará-las para a peleja; mostrar aos castelhanos que nunca voltávamos a cara nas pequenas e grandes lutas e, que iríamos ao seu encontro para as batalhas decisivas.


(continua)

josé movilha

quarta-feira, 15 de Julho de 2009

TERTÚLIA VIRTUAL

TERTÚLIA VIRTUAL É JÁ UMA SAUDADE !!! http://tervirtual.blogspot.com



A tertúlia é já saudade

abúlica de tempos idos

lembra ao novo e ao de idade
prosas dum tom incontido



Falou em jocosas notas

críticas, poemas, clivagens,

vitualhas irmanadas

e caminhos de viagens



Aglutinou meses largos

anseios de penas escondidas

falou de fogo e lhotas

e desejos permitidos



Fez rondas em cliques breves

centenas em comunhão

trocou horas internautas

ao luso solo rincão



E teve Pinheiro que é luso

e Eduardo " Tarantella"

tão boa ideia ao momento

que todos se lembram dela



Tenha a gesta património

a estes homens audazes

e a Tertúlia que foi breve

ressurge de mais roupagem



Lembramos agradecidos

tal génio e talento

um de S. Paulo é bem querido

outro na linha um portento.





josé movilha

quinta-feira, 9 de Julho de 2009

O REPÓRTER NO TEMPO E NA HISTÓRIA - V






ENTREVISTA COM SÃO NUNO DE SANTA MARIA - V





24 DE JUNHO DE 1360 - 1 DE NOVEMBRO DE 1431




R- O que se passou em Lisboa depois da morte do Andeiro e do povo ter aclamado o Mestre de Avis ?






SN- Lisboa vivia então um período de grande euforia e agitação popular, os artífices, os comerciantes, o povo, tudo discutia a coisa pública e a negação à submissão à rainha ou a Castela. Um dos lugares preferidos para arauto às novas era o Largo de S. Domingos. Logo alguém se lembra dos bens e do capital que os judeus tinham, era uma tentação aos fomentos e esteio financeiro que a revolução precisava. Dos mais abastados era D. David Negro que tinha sido tesoureiro - mor de D. Fernando e, tinha em Lisboa largos bens. Logo correu que sequestrar-lhes os bens a ele e a outros seria boa prática para soldos e armamento. Vai D. David com uma deputação queixar-se a D. João, de que temiam ser espoliados das fortunas: o Mestre parece ter-lhes dito que fossem fazer queixa à rainha. Depois aconselhado e pensando nalgum equilíbrio de decisão política, mandou lançar pregão em seu nome proibindo de atacar os judeus. Serviria para testar uma autoridade de que ainda não estava totalmente investido. Este refrear aos propósitos de grande parte do povo, causou algum falatório, mas apareceu uma leva de serenamento e o Mestre continuou nas melhores graças, visto e aclamado nas suas deambulações por Lisboa.




R-Entretanto o que fazia a rainha D. Leonor ?




SN-A rainha sabendo do movimento hostil que se tinha fomentado em Lisboa, decidiu sair com um séquito de velhos nobres, os tais que queriam manter intactos os seus títulos e fortunas, direito a Alenquer onde tinha apoiantes, para depois ir para Santarém onde esperaria o seu genro D. João de Castela e a sua filha D. Beatriz, que pensava a confirmariam como rainha regente.


R-É verdade que o Mestre sofre outro desânimo muito grande ao ver que brasões antigos da nobreza são pela rainha, vendo quão parcas eram as forças de que dispunha, pensando mesmo abandonar tudo, inclusive embarcar para Inglaterra e, que foi um oráculo providencial de um homem santo de Lisboa que o impediu ?


SN-Sim!... É verdade: entenda-mos que o Mestre não tinha na sua génese muito de comandante militar. Era mais um político, um negociador, um homem que reflectia sobre a evolução do xadrez das forças e apoiantes, que era informado e discutia a situação com outros conselheiros e chanceleres, era um homem que necessitava de um Fronteiro-mor; um Condestável, alguém que formasse, conduzisse e galvanizasse um exército.




R-Por fortuna dos céus esse homem foi o São Nuno ?




SN-Sim, em parte, quis Deus e a Santa Virgem Maria que fosse eu; incumbência tão marcante a que ninguém poderia fugir. Mas poderia ter sido outro, não faltavam valores no nosso reino, candidatos à escolha, só que a mesma vinha do alto e só pelas orações era entendida.




R-São Nuno, a sua modéstia mais uma vez, essa grande virtude que sempre aliou ao seu comando militar. Mas diga-nos o que foi esse episódio da profecia do homem santo em relação ao Mestre.


SN-Era um homem pregador que diziam santo; que tinha vindo de Jerusalém para Lisboa. Logo aqui chegado, a todos surpreendeu, pediu para o levarem a uma alta barroca que havia em frente da Porta se Stª Catarina, fora dos muros da cidade, logo numa pequena gruta se acoitou, pedindo para ser entaipada a progressão da sua saída, ficando somente uma pequena fresta para entrada de parcos alimentos e água e para falar e ouvir os penitentes. Muitos milagres fazia o emparedado da barroca: o próprio Álvaro Paes e muitos homens doutos e de fé não se apartavam de o visitar, colocando as suas dúvidas e ouvindo os seus oráculos. Parece ter dito ao Mestre, o santo homem, que nunca duvidasse dos desígnios de Deus, rezasse muito e, acreditasse que uma espada flamejante como a dos anjos apareceria para defender Portugal e, que o Castelo seria a sua casa até à coroa. Ficou o Mestre confortado, ciente de ter uma missão, tudo foi mais uma vez conduzido pelos desígnios dos céus.




R-Quando é que o Mestre lhe comunica que se formou uma junta em Lisboa, a Casa dos Vinte e Quatro, e que tudo se prepara para que ele seja nomeado " Defensor e Regedor do reino"e quando é que aconteceu o célebre episódio do alfageme que corregeu a sua espada mítica ?




SN-Estava eu no mosteiro de Santa Maria de Palhares em Pontevel, aguardava o meu irmão, era um retiro temporário que tinha procurado voluntariamente. Serenava com a contemplação das vistas para o Tejo, linhas de salgueiros e faias que compunham o horizonte, rezava e era atendido, transbordava em mim uma fé e confiança difíceis de serem abaladas por qualquer decisão humana. Cavalgava eu uma tarde nas margens do Tejo, quando mais uma vez esses caminhos que me guiavam me levaram a Santa Iria, na Ribeira, o som de uma bigorna cantava quase como hino sineiro.


Era a casa de um alfageme, à porta uma bela espada refulgia intensamente. Meti conversa com aquele homem dizendo-lhe que gostava de ter uma espada tão bela como aquela. Diz-me o artícife: "melhor do que esta, melhor do que todas as espadas dos heróis que tendes ouvido falar, meu senhor ! Amanhã será o dia de a ergueres, a espada que vos vai conduzir à vitória". Quando fui pela espada ao outro dia, foi grata a minha surpresa. Não a reconhecia: a folha parecia ter os mesmos três dedos de largura, mas o seu brilho confundia-nos o olhar, era como se desprendesse fogo da sua refulgência.


Num dos lados tinha a marca do alfageme: uma cruz e uma estrela, na extremidade desse desenho a legenda " Excelsus Super Ommes gentes, Dominus"; do outro lado tinha a cruz dos Álvares, enlaçada em letras que diziam: " D. Nuno Álvares", por cima o santo nome de " Maria". Nunca tanta fé se albergou no meu coração: quando empunhei e contemplei aquela espada que erguia aos céus desdobrei-me no etéreo, elevei-me na mais singela certeza de que cumpriria com zelo divino as missões que iam agora começar.




(continua)


josé movilha




sábado, 4 de Julho de 2009

BURLESCOS E BURLADEROS !...





Estava o repórter, em serviço de reportagem na " Academia do Caracol", para relatar a entrega dos "Manguitos de Gesso", quando de dá a insólita e burlesca cena do ministro aficionado aos burladeros que exemplifica dos motivos, terrenos e crença que a " Fera" pode escolher.

Tudo indicava que este dois de Julho de 2009 seria um dia de júbilo para a " Academia do Caracol". O almoço de Verão iria decorrer em clima de grande apoteose. Seriam entregues os " Manguitos de Gesso", o mais cobiçado prémio nacional e internacional promovido por esta agremiação em honra do Zé Povinho ; premiando as melhores e mais votadas comunicações apresentadas pelos sócios.

O primeiro prémio coube ao insigne associado Chico Lusitano e tinha por título: COMO DISSIMULAR EM POLÍTICA E ENGANAR AS MULTIDÕES

O segundo prémio coube ao talentoso trabalho do associado Marofa da Silveira e tinha por título: COMO ESVAZIAR AS CONTAS DE UM BANCO EM DEZ ANOS SEM NINGUÉM DAR POR NADA

O terceiro prémio coube a outro excelente trabalho do associado Ambrósio Sininho e denominava-se: MANUAL DO FAZ DE CONTA EM SUPERVISÃO BANCÁRIA

O quarto prémio foi outro excelente trabalho de Rufino Cansado, tinha por título: DEZ LIÇÕES DE COMO ENRIQUECER E AOS AMIGOS, COM ESTUDOS PÚBLICOS INEFICAZES

Segundo foi relatado ao repórter o nível dos trabalhos foi muito elevado e actual o que prestígia bastante esta agremiação e o escol dos concorrentes. A devido tempo daremos mais pormenorizadamente o teor destas comunicações.

R-D. Clementina, cozinheira, como é que vê esta cena que a televisões acabam de mostrar e o gesto do ministro ?

CL-Olhe !... eu já não estava hoje de muito bom humor porque já é o terceiro " Magalhães" que compro na " Feira da Ladra". A minha nétinha , a Susana, estava a participar num tal de Blogue " Minuto a Minuto" que acompanhava na Internet ou como lhe chamam, o tal " Estado da Nação". Então a miúda vem a correr esbaforida a dizer que um " Careto", que parecia mesmo das festas de Vinhais, a nossa terra, estava a fazer gestos de " Chanfrudo" para tudo o que era gente. Bem vê: a angústia de uma avó!... Estamos nós em casa a querer ensinar bons modos às crianças e, depois isto !...

R- Chico Lusitano, manufactor de calçada portuguesa, como é que vê o gesto do ministro ?

CL-Olhe, eu não me quero armar em intelectual, embora até já fizesse um desenho do " Mostrengo" que o outro senhor ministro falou. O que me parece é que este senhor representou Gil Vicente noutros tempos, e ficou-lhe este tique do " chanfrudo"; volta e meia solta-se e lá vai disto: só tenho pena que não fosse acompanhado de falas. Aí sim!... Vinha à tona o verdadeiro artista.

R-Arménio Alpendurado, apanhador de sável e antigo forcado: como é que vê o gesto do ministro ?

AR-Olhe meu amigo: eu tenho que ver tudo isto à luz da festa brava, ou por outra, à meia luz do Hemiciclo, aquele senhor é um grande aficionado, demonstrou-o no gesto: primeiro a colocação das pontas, o mais genuíno dos Miuras não teria tanto garbo e apronto; depois aquilo também pode ser tomado por um gesto que um apoderado faz ao seu tutelado em relação ao terreno que deve pisar e à crença do toiro. Lembremos que estamos em plena festa do " Colete Encarnado"; o senhor tutelava o turismo, que melhor propaganda à festa ?

R-Diga-me ainda, senhor Arménio, se fosse um manguito em lugar do gesto " chanfrudo"; como é que as coisas eram encaradas ?

AR-Bem, aí talvez as coisas mudassem: o manguito é nosso, está instituído, é nacional e, embora não se veja há muito tempo um bom manguito público para as bandas de S. Bento. Até parceria que o ministro estava a pensar na Fábrica Bordalo Pinheiro, nas Caldas da Rainha, e talvez tudo passasse mais discreto. Agora um gesto de Pamplona, Zafra e Zamora, uma Isidrada nunca!...

R-D. Efigénia Amador, vendedeira de peixe e manjericos nos Santos Populares, como é que avalia o gesto do ministro ao fazer aqueles " corninhos" na Assembleia ?

EA-Olhe !... aquilo é do mais feio que se pode fazer, muito sangue frio teve o outro moço do PC, senão apanhava-o cá fora e malhava-o, assim como o outro senhor diz, o Santos qualquer coisa...Que se deve malhar a torto e a direito. Se fosse aqui na praça levava logo com uma caixa de bogas pela cabeça abaixo que era um regalo.

R-Tolentino Fogaça. agente funerário, como é que interpretou o gesto do ministro ?

TF-Olhe, eu há muito tempo que me tornei sisudo por força da profissão, até podia sorrir àquele gesto se o mesmo não marcasse em tempos a minha vida. A minha Albertina abandonou-me há muito: traiu-me com um peão de brega, foi durante umas festas do S. Pedro. Dei por mim muitas vezes a apanhar de soslaio aquele gesto nas minhas costas, sabendo que era dirigido como rótulo de " cornudo". Veja agora o meu constrangimento ao ver este gesto feito por um ministro em quem eu tinha votado.

R- Rafael Rap, apanhador de caracóis e discojoquei nas horas vagas, como é que vê o gesto do ministro ?

RR-Qual é o Rap !...Meu... O ministro até foi um bacano ! Esteve na onda, tudo a dizer tretas, pevas que ninguém entende e liga, conversas muit'a complicadas e, o homem solta-se numa fixe e goza de bué e faz gozar a malta com a grand'a cena que fez!...

Termina este apontamento, prometendo aos nossos leitores que em breve regressaremos à " Academia do Caracol".

josé movilha

quarta-feira, 1 de Julho de 2009

O REPÓRTER NO TEMPO E NA HISTÓRIA - IV

ENTREVISTA COM SÃO NUNO DE SANTA MARIA - IV
24 DE JUNHO DE 1360 - 1 DE NOVEMBRO DE 1431



R-Vamos então centrar na morte do conde Andeiro.



SN- Compreendi depois que a morte do Andeiro teria que ser um episódio muito parecido ao que foi. D. João, Mestre de Avis, se a morte desse ao Andeiro, tinha que a legitimar num apoio que nascesse dos mesteirais, a burguesia da cidade e do reino e, sobretudo do povo. Eram já notados os sinais que grande parte da nobreza iria apoiar D. Leonor e até o próprio rei de Castela. Ciosos de que os seus interesses fossem tocados, os seus títulos postos em causa, o que interessava menos a esta gente era o patriotismo. O maior protesto a D. Leonor e a Castela era em Lisboa, Vale do Tejo acima até à fronteira. O norte do reino conservava-se mudo, indiferente. Para cima do Mondego era o Portugal semi-galego, semi-lionez, com um forte sentimento de vida local.

Passado o tempo adequado para as exéquias solenes da morte de D. Fernando, apareceu nas mesmas o Andeiro, refugiado em Ourem desde a expulsão do rei minutos antes de morrer; untuoso de préstimos e importância como se os mais altos cargos o esperassem e fosse bem vindo. Sabe, tudo isto mortificava-me, trazia-me numa inquietação permanente, rezava muitíssimo, parecia que o céu já me mostrava a senda dos tempos futuros, a morte do Andeiro, a expulsão dos Castelhanos e a aclamação do Mestre de Avis.

Quis o céu que D. João se fosse aconselhar com um homem que era uma referência dos velhos tempos; ex-chanceler de D. Pedro I, um homem que tinha o seu nome ligado à torre levantada no alto de S. Roque, era Álvaro Paes, um ancião tolhido pela gota, movimentado de amiúde numa liteira, era o oracúlo da vereação de Lisboa, a burguesia e a plebe não se apartavam das suas indicações. O seu espírito despertara de indignação pelos escândalos no paço.

Recebeu assim, o Mestre de Avis o apoio que lhe faltava para eliminar o Andeiro: Álvaro Paes iria pôr todas as corporações de ofícios, vereações e o povo na causa do Mestre. Eu tinha-me ausentado para o Minho, eles fizeram bem em avançar. D. João chamou o meu tio Rui Pereira e mais o Tello este daria instruções ao seu pajem para que a um sinal seu corresse a galope pela cidade a dizer que queriam matar o Mestre, depois Álvaro Paes sairia à rua e falaria às gentes.


R- É verdade que o Mestre de Avis, nas últimas horas, ponderou em perpetrar este acto ?


SN- Veja bem!... Era um assassínio a frio, o Mestre era um homem de honra e bravura, custaria sempre tal acto, não era uma peleja onde o oponente nos quer ferir ou matar e, estamos sujeitos às mesmas leis e contingências. Com tudo preparado D. João foi ao paço levantar os seus alvarás e cartas para seguir para o comando militar do Alentejo. Ninguém desconfiava de nada. Partiu com as suas tropas e ia a chegar a Santo António do Tojal, quando o assaltou essa enorme dúvida do acto que pensava adiar. Mas não podia recuar, tinha todos que em si confiavam dependentes da sua acção: eu esperava um sinal, o velho Álvaro Paes sairia a terreiro, por isso expondo a sua vida; Rui Pereira, Fernão Álvares, Lourenço Martins, ainda um bom punhado de patriotas. Volta D. João com estes que falei e mais alguns, de novo ao paço na manhã seguinte.

Batem com veemência à porta, a guarda vendo-os fortemente armados tenta impedir-lhe a entrada. São afastados e D. João à frente dos companheiros sobe até encontrar a rainha, curva-se em reverência perante ela. Os companheiros distribuem-se pela sala e portas. A rainha estava com as suas donas, vestida de burel negro, o Andeiro estava com um gibão vermelho acintado de pano negro fino. Na câmara estavam ainda Afonso Tello, Álvaro Pires de Castro, que sabiam do que iria acontecer. O Andeiro vendo o ambiente carregado tem bem uma saída a seu geito: convida o Mestre para jantar, a rainha pergunta porque vinha o Mestre se já devia estar no Alentejo.

O Andeiro tenta esgueirar-se a pretexto de ver das vitualhas. D. João tolhe-lhe o passo tomando-o por um pulso, apertando-o com energia arrastou-o para uma sala seguinte que tinha terraço que dava para o rio, ali o Mestre vibra-lhe uma cutelada à cabeça que o fere mas não o mata, dando-lhe ainda para tentar fugir para a câmara da rainha; perseguem-no o meu tio Rui Pereira e dá-lhe uma estocada fatal. O Mestre não consentiu que lhe tocassem mais. Mandou fechar as portas do paço e sair o pajem a clamar pela cidade que queriam ali matar o Mestre. A rainha sabendo de tal clamava e chorava escondendo-se no seu quarto. O Mestre mandou tranquilizá-la pelas aias, mandando dizer que nenhum mal a ela aconteceria.


R- E no exterior ? E Álvaro Paes e o povo de Lisboa ?


SN-O Mestre no terraço do palácio via o tumulto do povo que crescia atroador enchendo as ruas. O pajem no caminho, para casa de Álvaro Paes, gritava dos perigos que o Mestre de Avis corria no paço. O velho fidalgo vence o sacrifício dum entrevado, deixa a sua cadeira de doente e monta a cavalo. As ruas apinhavam-se de multidões. Logo o velho conselheiro diz ao povo que o Andeiro quer matar o Mestre com ordem da rainha. A turba reage ameaçadora como fera acossada, levantam-se punhos no ar em fúria, cada qual armava-se como podia. Eram homens, mulheres, crianças, um povo inteiro em cólera. Dando com as portas do paço fechadas cresceram as imprecações, logo aparecem montes de rama, achas, carqueija para pôr fogo às portas. Muitos do serviço de dentro temendo a morte fugiram pelos telhados e balcões querendo ir para longe.

Dividiam-se os ditos: uns que o Mestre não morrera, mas sim o Andeiro, outros que fora mesmo o Mestre, por isso não era visto.

Parecia que a razão a todos faltava. Ardiam já os molhos com muito vivo lume, junto às portas, rolos enormes de fumo envolviam as cantarias, quando num balcão aparece o Mestre que se faz reconhecer. Rebentam gritos de alegria, vivas, abraços, D. João é aclamado e levado em triunfo, as ruas e janelas de Lisboa não podem conter mais gentes. Os sinos repicam, pois assim Álvaro Paes tinha providenciado. Dá o povo pelo não repicar dos sinos da Sé. O bispo D. Martinho era castelhano, de Zamora, tinha vindo de Silves para Lisboa, dizia-se de obediência ao papa de Avinhão, mandou fechar as portas da Sé e estava no alto junto à torre sineira, conjuntamente com o prior de Guimarães e um tabelião de Silves. Dado que não abriu as portas como o povo pedia, arrombaram estes as mesmas, encontrando os três lá em cima, atiramdo-os para a rua numa morte cruel. Levaram o corpo do bispo até ao Rossio, dando de arauto pelo caminho que era o que se fazia aos traidores por Castela e aos cismáticos que fidelidade não tinham a Nosso Senhor e ao Santo papa Urbano VI.

Era então um princípio de revolução a que se juntava o motivo religioso. Castela era pelo papa francês de Avinhão, Clemente VII ; Portugal declarara-se pelo papa de Roma Urbano VI. D. João, Mestre de Avis ganhara o povo, todos nós que patrioticamente acreditávamos na liberdade tínhamos ganho gentes para a luta, era ainda tudo a luz de uma candeia de pequeno bruxulear, mas de fulgor adivinhado. Foi o começo de uma longa luta onde não de poderia vacilar um instante.


R- São Nuno !... Conta-nos tudo tão magistralmente e com tal pormenor que fico surpreso pelos detalhes e agradecido pela sua disponibilidade em esclarecer-nos; há muita coisa de que terei de abreviar, pois os seus 71 anos de vida foram tão ricos de acontecimentos e exemplos que por vezes é difícil seleccionar as perguntas.


SN- Conte comigo !... Eu é que temo alongar-me muito, felizmente, graças a Deus, conservei sempre uma memória muito boa, e há aspectos em que quero elucidar da melhor maneira os leitores.


(continua)


josé movilha

segunda-feira, 29 de Junho de 2009

O REPÓRTER NO TEMPO E NA HISTÓRIA-III






ENTREVISTA COM SÃO NUNO DE SANTA MARIA - TERCEIRA PARTE-





24 DE JUNHO DE 1360 - 1 DE NOVEMBRO DE 1431











R- Consta que os castelhanos se tinham habituado constantemente a rapinar nos campos ribeirinhos do Tejo. É verdade que um dia saiu com uma vintena de cavaleiros, alguns peões, direito aos reguengos de Alcântara, Santos e Belém para os encontrar, avistando cerca de cinco dezenas deles que tinham desembarcado de uma nau e como de costume, sem serem importunados, procediam a grossa rapinagem aos hortícolas e a fruta e tudo o mais que as capoeiras davam, maltratando ainda os camponeses com grande zombaria aos seus lamentos. E que vendo tal não se amedrontou e prontamente foi a enfrentá-los, desbaratando-os em parte e fugindo os restantes para a nau.


Ao que se diz desembarcaram depois muitos deles, cerca de 200, formando à vossa frente para combate. Vindo receio aos seus companheiros pela desproporção, mas a si não: e que a breve trecho estavam muitos deles fora de combate com ferimentos e, que logo da nau outros quiseram vir a ajudar, não o amedrontando tal, mas os seus companheiros estiveram por pouco a deixá-lo sozinho pois diziam que não queriam morrer. Voltando depois por vergonha e, porque apareceu seu irmão Diogo Álvares e Fernão Pereira com mais cavaleiros, fugindo de vez os castelhanos. Diz que de outra coisa não se falou em Lisboa das ribeiras ao Paço, das tripulações das naus aos terreiros de comércio. Tão valente e jovem moço enfrentando tantos inimigos; sem sombra de vacilação, sem cansaço, sem medo, não sofrendo um ferimento grave sequer. Consta que depois desta vitória de que saiu ileso, passou a noite em oração aos pés da Virgem Maria; mortificando-se de humildade no lajeado da Sé. Foi o princípio de uma lenda ? O nascer de um herói ? Ou já pronúncio divino ao Condestável libertador ?


SN- Foi verdade: encontrava-me no Paço de Lisboa, isto foi alguns meses antes do meu casamento, eu sabia desta impunidade de conduta e humilhação que os castelhanos davam às gentes humildes do povo, maltratando e roubando. Com uns companheiros saímos pela porta de Santa Catarina, até ao lugar dos cultivos e vinha, quando deparámos com largos prantos de gente humilde que era despojada de suas colheitas e parcos haveres pelos castelhanos desembarcados. Era habitual estas surtidas realizarem-se na mais total impunidade. Perante tal indignidade arremeti de pronto contra estes não temendo desporpoções numéricas ou o temor que alguns companheiros meus por prudência demonstraram. Sabe, nunca fui um desordeiro ou pelejador sobranceiro, longe de mim provocar alguém ou ir para combate sem razão; mas nunca pactuei com injustiças ou opressões. Logo ali a Virgem Santa me protegeu pois de peleja tão rude, em que alguns temeram pela minha vida, só as minhas carnes ficaram pisadas nos ombros e braços, não sofrendo qualquer ferida gravosa ou ruim. Todos rejubilaram nesta nossa Lisboa, mais do que todos o povo, ficaram os haveres dos pobres no futuro mais intocáveis de rapina. Nessa noite, nas longas horas de oração, compreendi no mais fundo do meu coração que a Santa Virgem Maria encaminharia os meus passos futuros.


R- Remontando um pouco atrás: lembro a morte de seu pai, 1378, à data, no castelo de Amieira. Vem do Minho assistir às exéquias e encontra-se com os seus irmãos e irmãs, que vivos, curiosamente eram nove homens e nove mulheres, sendo os restantes catorze filhos já falecidos. Pergunto: tinha alguma cumplicidade especial com alguns dos seus irmãos ? Estes partilhavam das suas ideias de justiça social e pendor libertário em relação à pátria ameaçada ?


SN-Foi um rude golpe para mim a morte de meu pai: fui o último a sair de ao pé do seu túmulo no Mosteiro de Flor da Rosa, que ele tinha mandado edificar. Eu admirava muito o meu irmão mais velho Ped'Álvares, nomeado Prior do Crato. Também o meu irmão Diogo e Rodrig'Álvares. Infelizmente nenhum partilhava de abnegação e limpidez de coração que em mim vivia, interessando-se muito mais por honrarias cargos e riquezas, vendendo-se depois a Castela.


R- Conheceu o conde Andeiro, que espécie de homem era ele: um aventureiro sem escrúpulos ? Um manipulador hábil que se servia de tudo e de todos para os seus fins ? Um magnetizador que enfeitiçou o rei e sobretudo a rainha, tornando-os sem vontade própria ?


SN -Tudo isso que enumera e muito mais. Se as Sagradas Escrituras falam de legiões de demónios e de seus mentores; esse homem encarnaria muito bem essa génese infernal. Nunca pessoa tão ardilosa e vil se viu no trato com outras gentes. Nesta Torre de Estremoz esteve ele escondido de todos menos do rei e da rainha, indo ao ponto de estes pactuarem com as suas diatribes e conspirações interesseiras que perdiam cada vez mais Portugal; andou o Andeiro por grossa maquia e seu interesse, sendo já conde de Ourem, a tratar do casamento de D. Beatriz com o príncipe Eduardo filho do duque de Cambridge; rompe o casamento o compromisso desta com o infante castelhano. Convenceu a rainha, o rei D. Fernando pusilânime e desonrado e um instrumento dócil a tudo, a declarar guerra a Castela. Logo vai outro homem sem escrúpulos Afonso Tello, irmão da rainha Leonor Teles, a comandar uma esquadra despreparada que afrontaria Cadiz e bloquearia Sevilha e o Guadalquivir; logo este fanfarrão vicioso, interessado sim em riquezas, deixou destruir em seis dias a esquadra, o desastre de Sales nessa memória pungente de 17 de Julho de 1381, ocasionando o desbaratar de seis mil portugueses entre mortos, feridos e prisioneiros e setenta mil dobras que valiam as galés e as suas equipagens.

Isto precipitou ainda mais as escaramuças com Castela, levando estes por esta declaração de guerra desnecessária, a uma retaliação, acelerando o propósito de uma invasão que visava subjugar Portugal.


R-É realmente impressionante o poder de manipulação que esse homem teve sobre o rei e a rainha. É verdade que o rei D. Fernando, já muito doente e a braços com uma tísica galopante que em breve o mataria, teve intenção de mandar matar o Andeiro e o executor seria o seu meio irmão o Mestre de Avis ? Recuando depois deste propósito por conselho de que isso seria indicar um sucessor ? Após a morte do rei D. Fernando que gentes conspiraram para tal fim ? Quando é que foi decidido eliminar este homem ?


SN-Muitas perguntas para uma só resposta, mas daquilo que sei vou contar-vos. Sim, D. Fernando nos seus últimos dias de vida votou um ódio mortal ao Andeiro, era como se viesse à tona o refinamento e recalque de toda a vileza, desonra e traição que este o fizera passar sendo amante da rainha. Teve intenção de encontrar no Mestre de Avis, o sicário para esse fim. Depois recuou, porque já era um farrapo de querença. Foi de tal maneira trágico que o rei moribundo aguardando a morte no seu leito, rodeado dos seus próximos, a rainha e as suas aias, os seus validos; vendo entrar o Andeiro: ergueu os braços descarnados num último esgar à afronta, indicando a porta para onde o mandava sair: caindo depois morto.

Após a morte do rei viveu-se um período em que as próprias sombras nas paredes eram pronúncio de tratos e conspirações. Eu próprio vim às exéquias do rei, armado e com vários cavaleiros e peões de minha casa. Por artimanhas políticas aparece Afonso Tello, resgatado como prisioneiro de Castela, ameaçando a irmã D. Leonor. Querendo também, por interesse pessoal, que esta se afastasse do Andeiro. Conspirou com o meu irmão Ped'Álvares, o Mestre de Avis e Gonçalo Vasques Azevedo, chegaram a comprar um sicário que devia emboscar o Andeiro no caminho entre Alcobaça e Leiria. Por artes que me parecem pacto com o mal, escapa-se por outro caminho e evita a cilada. Os ardis políticos sempre me foram adversos ao carácter, os jogos refinados das alianças e interesses sempre me enojaram: eu também queria a morte do Andeiro, mas de uma maneira frontal, uma sublevação, um levantamento em armas.

Disse a D. João que contasse comigo para a acção, estaria sempre em regime de prontidão, esse regime que me fez ganhar futuras e decisivas batalhas.

(continua)

josé movilha




quinta-feira, 25 de Junho de 2009

O REPÓRTER NO TEMPO E NA HISTÓRIA - II



ENTREVISTA COM SÃO NUNO DE SANTA MARIA - SEGUNDA PARTE-


24 DE JUNHO DE 1360 - 1 DE NOVEMBRO DE 1431

R-Dizem que a rainha D. Leonor Teles, quando o armou cavaleiro no Paço de Santarém, penso que com treze anos, com as armas desse seu grande amigo futuro, o Mestre de Avis, mais tarde D. João I, que o tornou Condestável e nunca escondeu o quanto o reino lhe deve. Dizia eu, a rainha se agradou do seu porte delicado, as suas feições finas, a sua destreza nas montarias e justas, a sua modéstia e resguardo a falas contadas, vamos lá!... Até uma certa timidez; querendo que ficasse no Paço e entrasse nos jogos de sedução em que toda a corte e o próprio rei D. Fernando estavam mergulhados.

SN- Bem vê!... Naquele tempo a educação era muito austera e porfiada, com dez anos eu montava eximiamente, daí o meu gosto pelos cavalos, corria montarias e adestrava falcões, virava dardos e conhecia todos os rudimentos principais da esgrima; depois a apetência pelos livros de contares de feitos da cavalaria. Os ecos das Santas Cruzadas, ser um cavaleiro de Cristo, a Távola Redonda, o meu herói Gallaaz, o ideal cavalheiresco contido nas trovas, o respeito às damas e a aprendizagem com os mais velhos. Isto deu-me uns treze anos muito preparados, muito maduros, era natural que surpreendesse em parte e criasse apetências novas no Paço.

Mas logo eu manifestei que não era esse o meu caminho: apesar de ter a minha mãe na corte como aia, o meu tio como escudeiro, não me sentia bem. Todo aquele ambiente que ia constatando existir ano após ano, aqueles jogos e intrigas, traições, adultérios, tudo aquilo me chocava, não era vida para mim. Meu pai ansiava em casar-me, eu tinha 16 anos e esta ideia não me seduzia; queria sim seguir os ideais da Cavalaria Sagrada e a dedicação à vida religiosa. Meu pai insistiu e eu por respeito acedi. Em 1376 casei com D. Leonor Alvim, uma viúva e pia senhora das Terras de Barroso, cujo esposo tinha sido D. Vasco Gonçalves Barroso, alcaide do castelo de Montalegre. Fui viver para Pedraça, perto de Arco de Baúlhe, minha esposa deu-me três filhos, sobrevivendo apenas Beatriz, a minha pequena Beatriz de quem tanto gostava. Libertei-me assim do Paço, passei um tempo muito bom naquelas terras Transmontanas e reforcei uma grande amizade com outro jovem mais velho que eu três anos, D. João, Mestre de Avis, estava longe de pensar o que os sagrados desígnios divinos tinham traçado para nós.

R-Falava com o Mestre de Avis, de alguma situação calamitosa que o reino vinha atravessando? Por exemplo: o " Tratado de Alcoutim" em que Castela traçava a obrigação de D. Fernando casar com a filha do rei Castelhano; o infringir desse tratado casando D. Fernando com Leonor Teles, os motins populares que isso causou, o comportamento da rainha com o conde Andeiro, o descontentamento do povo pela lei das Sesmarias, pois a partir desta parece ter havido muito aproveitamento da nobreza latifundiária para concertar com os trabalhadores a seu belo prazer obrigando-os a um vínculo prolongado e a um soldo fixado por eles.

SN-Falava!... Falava muito com o Mestre de Avis, éramos dois jovens entusiastas e crentes de que o país tinha perdido muito em relação ao reinado anterior do senhor D. Pedro I, este tinha evitado guerras desnecessárias, tinha aumentado o Tesouro Público cunhando ouro e prata, apesar de tudo e de alguma grande tragédia como outra não houve, a morte cruel de D. Inês de Castro, era um rei popular e querido do povo. Agora as lutas com Castela eram permanentes, nós desaprovávamos a hostilidade que D. Fernando iniciou em 1379 após a morte de Henrique II de Castela, e que deu em 1382 uma paz sem vencedores e um compromisso para com Castela que nos custou mais tarde muito caro: o casamento da infanta D. Beatriz com o princípe herdeiro da coroa. O país tinha de mudar, nós estávamos empenhados em tal.

R-Se me permiti: eram uns revolucionários, como se diria hoje, ou esperavam o momento para uma ascensão notória ? Lembro que o Mestre de Avis era um princípe bastardo, o senhor um dos inúmeros filhos de D. Álvaro Gonçalo Pereira, Prior do Crato, isto não colocaria mais tarde algumas comparações de linhagem em relação a altos cargos no reino ?

Entretanto morre o rei D. Fernando, a rainha D. Leonor Teles fica como regente, os desvarios com o conde Andeiro, ao que consta, foram mais que muitos, não há o mínimo decoro no Paço, parece que a rainha pensa mesmo em casar com o conde Andeiro. Por outro lado a jovem infanta D. Beatriz, por força do tal acordo, está casada com D. João de Castela que é pretendente à coroa portuguesa. Quando é que lhe pareceu, como ao seu amigo, que o solo pátrio estava em grave perigo ?

SN-Sim, éramos uns revolucionários, se assim o quiserem entender: contra as injustiças, contra a pobreza, contra o abandono em que o reino se encontrava, contra a desbragada e imoral vida que se levava no Paço de Santarém, o rei que tinha abandonado os negócios do reino dedicando-se a satisfazer os caprichos de D. Leonor, esta a satisfazer os do Andeiro, o rei a passar os dias em montarias, a cuidar de falcoeiros dos quais tinha mais de cem, a amolecer ouvindo trovas galegas e sons de alaúde. As fronteiras do reino eram constantemente violadas por Castela. O Tejo sulcado por galés e naus onde o desembarque destes propiciava rapinagens constantes de bens e haveres portugueses. Depois os tratados desastrosos que D. Fernando fez com Castela.

Quanto à notoriedade, nunca a procurei para mim! Quanto a D. João ser um bastardo provou-se mais tarde por escritos de seu pai o rei D.Pedro I , ser um princípe legitimado. Claro que o perigo iminente ao solo pátrio que se vinha anunciando, tornou-se avassalador após a morte de D. Fernando. O perigo de sermos governados pela rainha D. Leonor e o conde Andeiro e, o perigo de sermos governados por D. João de Castela casado com a jovem D. Beatriz.

Era a altura dos homens íntegros de muitos princípios e convicções aparecerem a mostrar o seu patriotismo; a mostrar que não os impelia a cobiça e os títulos, mostrar ao povo, aquele povo que mais do que ninguém quis a independência e lutou por ela, que havia homens nobres que compreendiam os seus sentimentos de liberdade e estavam prontos a conduzi-los a esse fim.

(continua)

josé movilha

quarta-feira, 24 de Junho de 2009

O REPÓRTER NO TEMPO E NA HISTÓRIA - I

ENTREVISTA COM SÃO NUNO DE SANTA MARIA - PRIMEIRA PARTE



24 DE JUNHO DE 2009 , 649 ANOS DO NASCIMENTO DE NUNO ÁLVARES PEREIRA - SÃO NUNO DE SANTA MARIA


Inauguramos uma nova rubrica em que entrevistaremos personagens de outros tempos, nacionais e estrangeiras; distinguidas que foram como figuras notórias dos seus países no campo da edificação pátria, na literatura, na poesia, na pintura, na música, na religião, na ciência, na cidadania, na virtude e exemplo aos seus concidadãos. Em suma, a todos que mereceram um olhar atento ao exemplo das suas vidas, das suas condutas, das suas genialidades, das suas abordagens à sociedade do seu tempo, na senda de uma busca que transcendeu e que foi exemplo no futuro.

Muito terá o repórter de percorrer os caminhos do tempo passado, afadigar-se para conseguir a melhor entrevista, no melhor local e no melhor momento.

Aguardamos que seja do vosso agrado a leitura de tal.

Porque hoje é 24 de Junho de 2009, se comemoram 649 anos do nascimento de Nun'Álvares Pereira; São Nuno de Santa Maria, nomes conhecidos para tão grande figura. Por ser sobre ele que decorre uma breve história ficcionada, mas de rigor histórico sobre a sua vida e acção na crise de 1383-1385 ; por tudo isto e pelo que emana da sua figura exemplar e inesquécivel de português ímpar, evocamo-lo como o nosso primeiro entrevistado.


SÃO NUNO DE SANTA MARIA - 24 DE JUNHO DE 1360 - 1 DE NOVEMBRO DE 1431


R- São Nuno, tenho alguma dificuldade no nome com que o devo tratar, ultimamente dois nomes parecem inequívocos: São Nuno de Santa Maria, ou São Nuno Álvares Pereira, na minha crónica, como já constatou, trato-o por São Nun'Álvares Pereira, para mim é uma questão de sonância fonética e preferência. Mas compreendo que na hagiografia dos Santos Lusos apareça como São Nuno de Santa Maria; até pela enorme devoção sempre demonstrada à Virgem Maria. Também lhe agradeço a concessão desta entrevista aqui em Estremoz, lugar em que eu fui nado, e para si tão grato de recordações na adolescência e mais tarde decisivo na junção de tropas para essa batalha memorável de Atoleiros. Começo também por lhe perguntar sobre uma intrigante questão que tem perdurado estes séculos todos, sem que cronista, historiador ou biografo a tivesse deslindado: onde é que nasceu ? Cernache do Bonjardim ou Flor da Rosa ?


SN- Pela sua gentileza, pelo empenho que tem colocado na crónica que está a escrever, pela imparcialidade dos factos que tem relatado, do muito rigor dos mesmos, a descrição e colorido de costumes da época, tudo me tem agradado muito, por isso acedi a esta entrevista. Depois Estremoz foi um lugar que sempre prezei muito, quanto de sonho emprestei aos campos que me cercavam do alto daquela Torre de Menagem!... As suas águas cristalinas, os barros refrescantes, os mimos dos seus hortejos. Os lugares pios que ali foram nascidos e onde tanto orei; a capela de Santa Isabel, a Igreja de São Francisco, o nicho do Senhor Santo Cristo, S. Brás, Capela dos Mártires. Os campos formosos deste lugar tanto por mim percorridos a cavalo. O derradeiro recrutar de gentes para a hoste, para essa batalha de Atoleiros que vencemos e que mudou decisivamente o sentido da nossa independência, tudo aqui se passou e lembro com saudade.

Sobre o meu nascimento, efectivamente nasci em Flor da Rosa, nesse dia de S. João de 24 de Junho de 1360, o Verão tinha entrado de muita calmas, o calor era abrasador sobretudo no Alentejo, logo o meu pai providenciou para partirmos para o castelo de Cernache do Bonjardim, de mais cómodos e de edificação mais ampla o que o tornava mais fresco. Das novas à minha vinda logo dali foram espalhadas a parentes e povo, tudo ficou no tempo como sendo o lugar de meu nascimento. Alentejano ou Beirão, prezo os dois lugares muito, depois vivi muito da minha infância no lugar de Flor da Rosa, foi ali que me preparei para os deveres de um cavaleiro. Sobre o tratamento que me deve dar, faça-o simplesmente por Nuno, isso não tem grande relevância para mim.


R- Obrigado pela sua gentileza, irei então tratá-lo por São Nuno, outra coisa não me parecia bem, nem o faria. Como é que reagiu à sua recente canonização? Tantos séculos passados, desde o pedido para tal do princípe D. Duarte, poucos anos passados da sua morte, depois a beatificação em 1918; centenas de anos em que foi patrono de tantas instituições, militares e outras, milagres que realizou, um culto que foi instituído a 6 de Novembro, agora a canonização que o torna o décimo primeiro Santo Português.


SN- Sabe, estou muito jubiloso dos céus se lembrarem de mim, não merecia sequer ascender à hagiografia dos Santos. Tudo o que fiz foi na maior observância dos preceitos pios e do que a Santa Mãe de Deus indicava para salvação das almas: ajudar os necessitados, os desvalidos da vida, os chagados, praticar a caridade, tratar dos enfermos, proteger as viúvas e os órfãos, repartir a riqueza, não cometer injustiças e amar com zelo à pátria e a honra de ser português. No entanto agradeço a todos que se empenharam na minha canonização, tornando-me uma luz de referência neste Portugal de hoje, tão amputado de verdadeiras referências e, segundo me dizem, tão falho dos valores que enumerei.


(continua)


josé movilha


terça-feira, 16 de Junho de 2009

GUERREIRO, HERÓI E SANTO - XV









SÃO NUN'ÁLVARES PEREIRA

A BATALHA DE ATOLEIROS DESPERTA A CONSCIÊNCIA NACIONAL - O LEVANTAMENTO POPULAR E AS ADESÕES À CAUSA DO MESTRE ALASTRAM POR TODO O TERRITÓRIO - OS ESPANHÓIS PREPARAM O CERCO A LISBOA


Limpa e revigorada de cales novas, a capela de Santa Maria do Assumar, lhe abriu portas Nun'Álvares e lhes deu os sacerdotes da hoste preceitos que o ritual consagrava, de novo aquele lugar acolheria os crentes e os penitentes que tão fervorosos eram à Virgem Santa. A ornamentos de flores singelas se estava, quando chega Martim Cotrim com os batedores e informa de que os castelhanos levantaram campo e rumaram ao encontro da outra parte do exército que estava com o seu rei D. João de Castela, para as bandas de Arruda e Alenquer. Logo Nun'Álvares reúne com os seus comandantes numa banda do termo do acampamento, uma clareira mimada de freixos e frescura. A todos era exaltação tão retumbante vitória, mais ainda da admiração da disposição de combate, nunca tal se vira, um quadrado que parecendo pequeno se tornava grande como uma fortaleza, em que os homens eram muralhas que ocorriam onde era preciso e sempre de vistas o inimigo alcançavam.

Um grupo de veteranos e rijos combatentes que tinham participado na batalha do Salado, com o nosso bravo rei D. Afonso IV, que Deus guarde, atestavam que nunca tal formação viram e comando e comandante tão firme lhes fora dado ter. Nun'Ávares estava sempre onde a luta era mais fera e, aos companheiros sempre revigorava o ânimo quando desamparados de armas ou feridos assim se achavam. A todos lembrava, mas o Fronteiro traça no chão com uma vara, o que foi a batalha passada. Explica que os ingleses já nas mesmas levavam vantagem pois substituíram nos corpos de besteiros esta arma pelo arco, tão vantajoso é este que disparadas são dez flechas enquanto se carrega a besta para o segundo tiro.

Houvesse nesta batalha arqueiros e a vitória ainda seria mais rápida. Urgia pois, dotar o exército com os melhores meios possíveis, o arco era muito necessário. Muita luta ainda todos deveriam esperar, muito sacrifício ainda todos teriam que fazer; Portugal ainda não estava liberto dos invasores. Manda Nun'Álvares levantar campo, rumariam ao Crato e a Flor da Rosa onde era dado ao túmulo seu pai D. Álvaro Gonçalves Pereira, que fora Prior da Ordem Militar dos Hospitaleiros, confesso do Grão Mestre em Rodes e edificador dos castelos de Amieira, Bonjardim, onde Nuno nasceu, e Flor da Rosa. Privou com três Reis: D. Afonso, D. Pedro e D. Fernando, foi um dos heróis da batalha do Salado, foi ainda pai de 32 filhos, a saber, dos quais Nuno foi undécimo.

Eram os espanhóis muita extremados de comportamento, não estimando nada por onde passavam, queriam com isto amofinar os portugueses; estragavam cantarias, dizimavam os campos, de lumes ao acampamento toda a madeira lhes servia e até portas de fortim ou celeiro cobiçavam para seus machados, dos celeiros pardieiros faziam com perda de muitos fenos, a proventos dos galinheiros tudo rapinavam e, moça de corpo formoso escondido o tinha de ter, pois lhe roubariam com muita zombariam e rudeza a honra. No religioso e pio temiam mexer, porque tal ordem vinha do Adelantado ou Mestres de Ordens que eram também muito religiosos. Pelos seus lugares de permanência se podia ver que a hoste Castelhana era de muitas lanças e peonagem, pois, realmente cinco tapadas do tamanho do rossio de S. Brás, em Estremoz, tinham albergado aquelas gentes.

Estando assegurado para cá da raia alguns castelos importantes que de nossas cores eram, não se deviam esquecer os muitos de pendor a Castela e os indecisos; ali bem perto Vila Viçosa, Elvas, Portel, Monsaraz eram por Castela. Rumou-se para o destino de Évora, pelo que D. Nuno quis novamente passar por Estremoz para rezar no singelo nicho do Senhor Santo Cristo e agradecer ao Alcaide a prontidão das armas que tanto zelo de manobra fizeram na batalha. Com o desaparecimento dos espanhóis destas terras, por hora, começaram a circular afoitos os nossos camponeses e gentes entre os lugares de seu comércio e lavoura. E á passagem da hoste arremetiam-se vivas tão intensas aos nossos, que não havia coração que não inchasse de júbilo e emoção.

Dava o povo liberto, aos seus do povo que eram soldados que os libertaram, frutas e hortícolas de bom comer e laranjas, laranjas tão frescas e sumarentas que Apóstolo viandante não desdenharia tal conforto à sede.


(continua)


josé movilha




segunda-feira, 15 de Junho de 2009

TERTÚLIA VIRTUAL

"QUE LUGAR TE FAZ SENTIR EM CASA ? "

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Sentia-me em casa desde que me internara nos campos, já há muitas horas. Desta vez quis fazer o caminho que ousara contar na minha resenha histórica sobre o Santo Condestável D. Nun'Álvares Pereira. Estava entre Arraiolos e Estremoz, nos mesmos campos que o Condestável trilhara com as suas hostes. O castelo de Estremoz norteava-me os passos, lá longe como sentinela pétrea dispensava-me de consultas científicas ou mapas caminheiros, servindo-me de guia e farol. Bebia das mesmas parecidas águas correntes que há séculos confortaram os viandantes e os exércitos do Fronteiro-mor. Internei-me numa alameda de freixos, vendo o arroio brando correr a meus pés, os campos verdes de Abril davam-me à direita e à esquerda a medida da esperança no pão das ceifas de Maio. Senti o cheiro dum forno de carvão, o azinho atabafado curtia zonzo de prestezas dormitando até ser acordado mais tarde a outras incandescências. Senti fome: a sacola adornava-me o dorso com pão luzido em forno de lenha, chouriço de bácoro de Janeiro e queijo de ovelha. Procurava a sombra que entretém os romeiros e dá guarida aos apóstolos. Uma pedra secular enebriava-se de oferenda junto à raiz da mais vetusta árvore. Aproximei-me e ouvi uns risos cristalinos, aqueles que por mercê de uma criação tão julgada de belo só as mulheres podem proferir. Era um grupo de camponeses; pai e mãe de meia idade, um filho em idade militar e duas moças de rostos e tez tão morena que era afortunado o Sol de tantos beijos conquistados. Iam merendar, a refeição do meio dia, convidaram-me com o tom da timidez, era tão frugal e singelo o apronto de suas vitualhas que quase sentiam vergonha de só isso comer.

Era Gaspacho, aquela sopa fria nascida da necessidade dos pobres, mas que com o Estio, os calores tormentosos da planície alentejana, a todos cativa de frescura e tenrura de seus compostos: rei, fidalgo,morgado, cónego nunca ninguém depreciou a sua singeleza. A malga de barro que refrescada perdeu a sua porosidade; água fresca d'uma fonte; o piso que se quer de alho e sal num casamento que baste; pitada de um bom vinagre da última colheita setembrina; olhos de generoso azeite, tantos como os comensais, tomate, pimento verde, pepino, cortados com singeleza de tamanho e, o pão, aquele pão abençoado, feito da rudeza da mó, trigo enobrecido pelos primores do amassar, cozido em forno de lenha, o crepitar da esteva que ao forno dá rubores de mancebo e honras de pão inigualável; cortado é o mesmo em sopas de religioso formato esguias e alongadas como missal cioso e, ressaltam para o requebro da mastigação umas azeitonas retalhadas, guardadas na corna, o recipiente guardador feito de osso de bovino, com tampa de cortiça, que no Alentejo tudo se aproveita.

E é esta comida frugal ainda mais inigualável se comida com a bênção dos campos. Um silêncio de anacoreta cinge-nos, a terra oferta-nos toalha multicolor, a brisa ensina-nos o refinar dos paladares, a frescura da sombra dá-nos a medida da malga que crestamos de prazer e de gastos a cada colherada. Continuei o meu caminho, agradecido da partilha, confortado como pregador jubiloso. Cheguei aos arralbades da terra que me viu nascer, Estremoz, afadigavam-se as andorinhas a obras de barro fresco para suas casas acabarem. A jornada tinha demorado seis horas, tantas como as que indicavam há quanto me sentia em casa.

josé movilha


quinta-feira, 11 de Junho de 2009

GUERREIRO, HERÓI E SANTO - XIV

SÃO NUN'ÁLVARES PEREIRA

1384 - BATALHA DE ATOLEIROS ( Quinta parte)
Manda Nun'Álvares montar todos os cavaleiros para ir no encalço dos castelhanos; das armas e troféus que era mister ter do campo assim seria; que a hoste fosse um quarto de légua para Oeste mantendo formação de combate, a ordens se deslocaria depois no caminho de Monforte e do Crato. Quando de bandeiras de paz viessem os carros dos espanhóis para levantar os mortos e cuidar dos feridos, todo o respeito deviam os corações guardar, tinham sido bravos que morreram com honra pela sua pátria.

Bate a cavalaria portuguesa comandada por D. Nuno, todos os campos em redor num raio de duas léguas, em busca do inimigo, rumando o agrupamento dos mesmos para Fronteira, Monforte e Crato onde era sede de sua junção. Encontram-se muitas alfaias de guerra espalhadas pelos campos: bestas, picos, armaduras, aljavas, manoplas, maças de armas, elmos.


Se aligeiravam os fugitivos do mais pesado para melhor traçarem a sua fuga. Muitos cavalos feridos mancavam ensanguentados numa deriva penosa, logo se recolheu de tudo o que era proveitoso e se deitou mão àqueles animais para lhes dar cura merecida.
Chega-se, ao principio da noite, a Fronteira onde se faria campo de pernoita e, onde o resto do exército se juntaria vindo dos Atoleiros. Vem o Alcaide do castelo de Fronteira, Vasco Vorcalho, justificar-se perante o Fronteiro, dizendo que não se juntou à batalha por serem de armas pouco abonados os da guarnição, coisa tão mentirosa de dito que a todos chocou o que se viu, e do que este esperava dos espanhóis. Ruma-se no outro dia a Monforte onde havia espanhóis e portugueses acoitados no castelo, lhe diz Nun'Álvares que abrissem as portas porque a praça era portuguesa. Não obedecem os de dentro e, por falta de meios para o assalto abandona-se esta ideia e parte-se para o Assumar.
Informam os comandantes que batido o campo de batalha dos Atoleiros, oito centenas de inimigos ali eram caídos, que pelas vestes e pendões de suas casas se sabiam ser o Fronteiro da Andaluzia; o Mestre de Santiago; e outros grandes da nobreza espanhola. O irmão Pedro Álvares, Prior do Hospital, estava entre eles. Conservados já estavam em sal e fechados em odros de pel de vaca para caminho a túmulo em suas terras, levados pelos deles que os vieram recolher. Ouve tal D. Nuno com tanta dignidade e dever sentido, que todos emudeceram na vasta clareira onde se contavam dos feitos.
Acampa todas a hoste a meia légua da capela de Santa Maria do Assumar e, D. Nuno despe todos os artefactos de guerra e descalço e vestindo só o seu Loudel, túnica larga de algodão decorada com os símbolos de sua casa, vai em direcção do lugar sagrado para rezar por todos e se rocolher num voto doloroso à memória de seu irmão. Chega lá despedaçado de coração. Alguns espanhóis por ali passados, tão hereges tinham sido de propósitos que era difícil de imaginar a falta de respeito pio. Tinham feito da capela estrebaria, sujando o lajeado singelo, conspurcando o lugar de culto. Empenha-se Nun'Álvares, mais esforçado de todos, a limpar todo aquele pardieiro. Tenta Giraldo humildemente tirar-lhe da mão os objectos de seu trabalho, não seria próprio para ele tão vil trabalho, mas dá D. Nuno mais uma vez o exemplo ao querer ser o mais humilde dos humildes. Logo ali proferiu votos de construir futuramente capela mais ampliada que perpetuasse a vitória havida.No outro dia rumou-se a Arronches: a guarnição castelhana encerrou-se no castelo, mas por fim rendeu-se, dando-lhe Nun'Álvares salvo-conduto para voltarem a Castela.
Depois de Arronches rumou-se ao Alegrete que se entregou. Assegurava-se assim a zona extrema do Alto Alentejo com a vitória dos Atoleiros e as Praças estratégicas do nosso lado.
Despachou Nun'Álvares os correios para Lisboa, para dar novas a D. João, Mestre de Avis, a boa nova da vitória espalha-se pelo nosso solo pátrio, não há lugarejo por mais humilde que seja que não festeje. A Guerra da Independência começa com uma importante vitória para as cores de Portugal. Ao sabe-lo os espanhóis desesperados, mas ainda com um poderio esmagador, vão pôr cerco a Lisboa para que esta capitule de vez. Nun'Álvares vai para Évora, para depois rumar para onde a pátria o chame. O Marechal Pedro de Sarmiento não esteve nos Atoleiros, ruma de Santarém a Alenquer para o cerco de Lisboa. Uma angustia corrói-lhe o coração, o nome do homem que ainda não enfrentou, e evitou três vezes: Nun'Álvares é já uma lenda que atemoriza todo o combatente de Castela.
( continua)
josé movilha

quarta-feira, 10 de Junho de 2009

DIA DE PORTUGAL

OS LUSÍADAS - CANTO IV






«Mas nunca foi que este erro se sentisse



No forte Dom Nuno Álveres; mas entre,



Posto que em seus irmãos tão claro o visse,



Reprovando as vontades inconstantes,



A mão na espada, irado e não facundo,



Ameaçando a Terra, o mar e o mundo;






«Das gentes populares, uns aprovam



A guerra com que a pátria se sustinha,



Uns as armas alimpam e renovam,



Que a ferrugem da paz gastadas tinha;



Capacetes estofam, peitos provam,



Arma-se cada um como convinha;



Outros fazem vestidos de mil cores,



Com letras e tenções de seus amores.









«Começa-se a travar a incerta guerra:



De ambas as partes se move a primeira ala;



Uns leva a defensão da própria terra,



Outros a esperança de ganhá-la.



Logo o grande Pereira, em que se encerra



todo o valor, primeiro se assinala;



Derriba e encontra e a terra enfim semeia,



Dos que a tanto desejam ser alheia.









Luís de Camões






terça-feira, 9 de Junho de 2009

GUERREIRO, HERÓI E SANTO - XIII






SÃO NUN'ÁLVARES PEREIRA


1384 - BATALHA DE ATOLEIROS

( quarta parte)

Ouvem-se as trombetas lá longe e muita poeira de formação de mais cavalaria anunciava novo ataque. O Sol levantava-se já pujante de ser rei. Uma pequena brisa vinha brandinha de Norte namorando os odores das giestas, das urzes e das margaças calcadas, a terra mãe recebia como se fora ataúde dezenas de corpos que não mais teriam as frescuras do Gualdaquivir, os ares de Guadarrama, os sorrisos morenos das moças de Albacete, os peixes vivazes de Pontevedra, os ventos da Mancha ; filhos, mulheres, pais, parentes nunca mais sentiriam o calor de um beijo, de uma caricia ou de um abraço.
Do pesaroso momento à guerra não lembra paragem e a morte clama mais. Avança uma segunda vaga comandada pela mais experiente nobreza, o Mestre de Alcântara, Pero Gonçalves de Sevilha, fronteiro da Andaluzia; Gonçalo de Aza, Julião de Lerna, o Mestre de Santiago, Garcia de Grijalva, o conde de Niebla, o almirante Tovar, Pedro Álvares, Prior do Hospital, irmão de D. Nuno. Intentam atacar em duas frentes sucessivas, na que lhes parecia mais vulnerável e cujo talude da ribeira não era tão pronunciado, secundava-os uma rectaguarda de peões e besteiros, era um ataque mais forte do que o primeiro. Sobem em bastas vagas mas são recebidos pelas lanças cruzadas e enterradas a meio, seguras ainda pela mão firme dos homens. São os cavalos tão acossados no ventre, são as feridas tão profundas, jorra tanto sangue e lamento inumano destes seres a quem o homem tanto deve que não havia maior crueldade de se ver.
Caiem em vagas os animais feridos de morte, empinando-se e esmagando os cavaleiros, fazendo tropeçar os que vinham, os limpos de mazelas erguem-se empunhando as armas mas no terreno que é desfavorecido aos seus intentos, são trespassados pelos portugueses que avançam a vanguarda até onde há combate. São os nossos também cobertos por grossa chuva de dardos, virotões, flechas, erguendo-se muitos pavês, escudos canelados e de grandes dimensões que protegiam e serviam para os besteiros recargar as suas armas; mais parecia do que conta a história antiga de Hoplitas Gregos e Legiões Romanas. Foi muito valente o cerrar de fileiras e firmeza dos portugueses, a determinação de Nun'Álvares e dos cavaleiros mais experientes incutindo ânimo a cada momento, havia muitas feridas mas ninguém abrandava a determinação que o seu posto exigia.
A outra frente não tem melhor sorte, ainda em terreno mais difícil, é dizimada pelas flechas dos besteiros pois escolhendo uma progressão lenta, por entre os seus que jazem, a tudo se expõem como alvo fácil. A peonagem e besteiros, que os secundavam, aparecem em campo aberto e são razia perante a direccionada chuva de arremessos dos portugueses. O pendão real do "adelantado" divisava-se a um tiro de besta, cravado por ocasional singularidade entre o estribo e a garupa de um soberbo cavalo branco que no estertor da morte parecia tremular as sedas pendidas que mão castelhana não mais ergueria. Piques partidos e cravados no solo, bestas, aljavas, escudos, pavês, manoplas cujos dedos no interior se enclavinhavam de espasmo, couraças fendidas, cavaleiros de elmos baixos, rictus na sombra, acobertados de todo o seu ser num ataúde de ferro. Um balsão de riscas aureas e vermelhas, o selo dos Trastâmaras, flutuava pando com as duas águias de solenidade mítica caídas de rasgão mortal.
Gritam os nossos por S. Jorge e pelas chagas miraculosas de Nosso Senhor. É agora o terreno tão povoado de corpos e lamentos que fere ver o que vale uma vida humana. É de muita agitação o campo de Castela; deslocam-se a um e outro lado da frente muitos cavaleiros. Avaliavam dos comandos e as grandes perdas que tinham tido. Pergunta Nun'Álvares se dos nossos, almas a Deus havia, pelo que tão milagrosa protecção ocorreu que havendo muitas feridas nenhuma seria gangrenosa a saber e todas pareciam ter cura. Vendo que não venceriam os portugueses, que tão unidos e bravamente lutavam, que tão bem acantonados estavam e com um Fronteiro que tão bem os comandava. Estando destituídos dos seus maiores comandantes que jaziam alguns mortos no campo, outros gravemente feridos, a ordem era retirar. Ergue Nun'Álvares os braços aos céus, todos os erguem a uma só voz. A batalha estava ganha, os espanhóis mostravam garupas lá longe em rodopios de poeira distando em trote rápido a caminho de Fronteira.
(continua)
josé movilha


segunda-feira, 8 de Junho de 2009

GUERREIRO, HERÓI E SANTO - XII




SÃO NUNO ÁLVARES PEREIRA
1384 - BATALHA DE ATOLEIROS ( terceira parte)
Se inquietou mais que todos Vasco Machado, por ser escudeiro do Fronteiro, da parcimónia e frugalidade dos seus alimentos, nesta Semana de Trevas Nun'Álvares quase fazia jejum absoluto. Bebia do riacho cristalino e de alimentação mais sólida só alguns frutos contemplava, a ceira composta de figos do carrascal era vistosa de suas oferendas e tão fresco era o leitoso de sua colheita que o apóstolo João não desdenharia do ofertório se de igual tivesse quando em Arimateia. No entanto D. Nuno surpreendia, parece que não necessitava de alimento, que os enlevos do céu eram o seu maná, vigoroso e desperto como sempre a todos mostrava o que era prontidão e vigília atenta a todos de seu comando. O procura Lopo Façanha no interior da tenda, tão agitado de modos que D. Nuno ficou surpreso, Lopo Façanha era um cavaleiro, tão leal e pleno de bravura que seria difícil encontrar outro igual, num torneio de amigos no campo de Santa Catarina em Lisboa tinha vencido quatro paladinos do conde de Cambridge, volteava com tal mágica durante a peleja que a sua espada era sempre a primeira aos caminhos da vulnerabilidade e sempre os flancos tocava do oponente que para tal não encontrava guarda.
Vinha então Lopo Façanha alertar que alguns cavaleiros de Elvas já tinham os cavalos selados para fugir. Se dá ao campo Nun'Álvares e a breve os encontra: « Irmãos amigos ! Ireis deixar a honra que Deus vos prepara, ireis faltar ao prometido ? Tornardes a vossas casas com o coração pesado, que direis a vossos filhos? Que direis a vossos pais que choram? Que direis a vossas mulheres que vos querem e amam? »
Tanta vergonha sentiram estes homens, que mais tarde haveriam de ser dos mais valentes em combate. Manda logo depois disto Nun'Álvares levantar o campo para seguir para a batalha. Neste dia de Quarta-Feira de Trevas do mês de Abril do ano de 1384, de rosáceas e laivos de feno brando eram as promessas da alva, iam de brandinho as montadas ladeando o arroio, firmando-se numa correnteza esguia e trotes de leveza obediente. Formavam os terços com brio, o estandarte mor destacava-se de brancura, muitos balsões com a efígie de S. Jorge povoavam a peonagem. Nuno pressentia que não seriam precisas muitas léguas para encontrarem os Castelhanos. A Torre de Menagem de Estremoz ressurgia já nos primeiros alvores nítida de cantarias, era como uma rectaguarda vigilante que se deixava divisar de qualquer lado incutindo olhares régios. A campo dado divisava-se um cavaleiro de pendão alvo que se aproximava, era um escudeiro castelhano de nome Rui Gonçalves, trazia o mesmo grandes propostas de honras e mercês para Nun'Álvares, desde que passasse para o partido de Castela, uma carta de seus irmãos vinha também para que desistisse de tal intento e loucura e se juntasse aos deles. Ao emissário recebeu D. Nuno com respeito e lhe disse: « Ide depressa para os vossos, pois mais depressa do que julgueis estaremos perto de Fronteira prontos para o combate».
Atalhou-se então, por uns campos tão alargados de vista que um falcoeiro treinado não lhe veria a bruma dos horizontes, chamavam-se de Atoleiros e, tão ciosos eram estes de trigos grados, como de pastagens, azinheiras e sobreiros, uns barros tão cativos de humidade que as sementes quando no tempo medravam de alegria. Acercam-se os batedores e informam de que os castelhanos estavam cerca de uma légua a Sul de Fronteira e já próximos do nosso local. Manda Nun'Álvares parar o exército e dirige-se só para uma pequena elevação tão esquadrinhada de contornos que outra obra não era do que a natureza a ofertar fortaleza natural a quem por desígnios a soubesse encontrar.
Era ali que o coração de Nuno recebia o sinal divino de dispor o exército para a batalha. Tinha esta elevação uma ribeira que a circundava em grande parte, a que chamavam de Águas Belas, tão dissimulada era de margens que só muito perto se avistava e tão funda e larga que fosso de cava humana não seria tão perfeito. Na parte Norte desta pequena elevação era o terreno tão embebido de humidade que calques de homem ou animal os atascariam com facilidade. Manda D. Nuno apear quase toda a cavalaria, deixando somente 50 dos cavaleiros mais experientes nas suas montadas, forma com a peonagem um quadrado em que as alas se formavam de besteiros, a vanguarda dos combatentes mais experientes e também a rectaguarda, eram então estes cerca de 1400 homens tão acantonados de precisão que se poderiam virar com singular facilidade para o lugar das acometidas, desfrutando ainda de uma linha de lançamento de projecteis num plano superior o que era uma enorme vantagem.
Ouvem-se as trombetas a cerca de um quarto de légua e a mole imensa do exército castelhano disposta em formação de Az, em linha, mostrava os seus 1000 cavaleiros e os seus 4000 homens a pé, quase quatro vezes mais que as tropas portuguesas. Muitos estandartes, pendões e flâmulas, era um luzeiro de armaduras e plumagens que já se ofereciam àquele Sol do meio-dia. Avaliam os espanhóis o exército português e ainda lhes pareceu menor do que diziam, para aquela pouca gente no cimo de um outeiro uma carga de cavalaria bastaria. Avançam aqueles para quem a glória fácil é divisa de se guindar a títulos e a peleja a desarmados quase só treino de justa. Quando dos ginetes a passo se destaca a primeira força para a carga ; Nun'Álvares estava alguns metros à frente da vanguarda, desmontou e beijou o solo posicionando-se e destacando-se , colocou o seu elmo sem viseira e com lança e espada cumpre a promessa de ser o primeiro a enfrentar os inimigos.
São já atroantes os gritos de " Por Castela e por Santiago" ; respondem os nossos: "S. Jorge !...S. Jorge!... E Santa Virgem Mãe! " As cerca de seis centenas de cavaleiros espanhóis não cuidam de qualquer prudência, a toda a brida mais parecem querer espezinhar os oponentes tornando razo o outeiro. Dá-se o primeiro percalço : as terras húmidas e argilosas traem os jarretes das montadas, falha subitamente solo firme aos finos corcéis, as quedas são sucessivas e letais, com o ímpeto não há tempo para ladear e amontoam-se homens e animais tornando-se os que escapam vulneráveis às flechas, dardos e projecteis vários lançados pelos portugueses. Reagrupam-se alguns da rectaguarda e evitando o mau terreno logo inflectem mais a Sul na tentativa de levar a cabo a primeira iniciativa. Maior estrondo foi o seu perecer, pois não contando com o fosso natural que o leito da ribeira representava, ali caíram às dezenas homens e montadas retalhados pelo aparato das quedas, alguns que se tentavam erguer tão indefesos ficavam que a chuva de projecteis os dizimou a todos. Rejubilaram muito os nossos, pois tinham vencido a toda a linha ainda que com rude peleja, de mortos ou feridos graves não era dada notícia
(continua)
josé movilha

quinta-feira, 4 de Junho de 2009

GUERREIRO, HERÓI E SANTO - XI















SÃO NUNO ÁLVARES PEREIRA

XI - BATALHA DE ATOLEIROS ( Segunda parte)


Um crescendo de fé acompanhava ainda mais Nun'Álvares quando voltou da capelinha de Santa Isabel, a quem tinha pedido para interceder pelas forças de Portugal, neste tempo tão cruento da nossa história. Junto à armaria esperavam-no os seus principais comandantes, que já vinham com ele desde que tinha sido nomeado Fronteiro-mor do Alentejo: Rodrigo Pimentel, Diogo Lourenço, João Pires, Martim Cotrim, Fernando Martins Brandão, Gomes Zagalo, Afonso Lourenço, Lopo Façanha ; cavaleiros de um grupo de quarenta da primeira linha da nobreza, escolhidos por D. João ainda em Lisboa. Para ele todos eram válidos, do mais simples fundeiro ao mais armado cavaleiro. Se tinha de ter comandantes era porque a hoste em batalha tinha de ter comando, muitos dos homens nunca tinham pelejado, os experientes teriam que conduzir os neófitos incutindo-lhes presença e serenidade.

Compuseram-se os carros de mais valias de espadas, alguns montantes, estas, espadas mais pesadas de manejo a duas mãos ou para algum peão mais dotado de força; lanças, piques de infante, cotas de malha, adagas e tudo o mais de reforço para a luta, que o nosso bravo rei, que Deus guarde, D. Afonso IV guardava ali desde a vitoria do Salado. Já no acampamento disse aos seus comandantes que dali a dois dias partiriam em demanda dos Castelhanos para lhes dar batalha. Com o recrutamento em Estremoz e segundo Vasco Machado e do livro de assentos de tal, eram para a batalha 300 cavaleiros; 1100 homens a pé, armados com o possível: espadas, picos, virotões, fundas e, 100 besteiros. Havia então ainda alguma gente indecisa, dos que tinham chegado recentemente de Elvas e de Beja. Corriam como o vento as notícias de que os castelhanos povoavam o campo de armas lá no lugar onde acampavam e seguramente eram três ou quatro vezes mais do que os portugueses. Depois até D. Nuno ia ter irmãos por oponentes na peleja, era loucura cerrada tal intento. Vendo que minava algum desânimo nos vindos, mandou Nun'Álvares acção às trombetas para formar exército. Aproximar os terços mandou, e mais parecia já formação de batalha. Montando e volteando por entre alas, lhes disse:

« Amigos! Bem sabeis que o Mestre me enviou a esta terra para com a ajuda de Deus, vós e eu a defendamos de algum mal ou dano que os castelhanos lhe queiram fazer; e que esse feito lhes daria para sempre, grande honra e bom nome; grande bem faremos também a nós próprios em lutar, ao defender as nossas terras e bens, de que somos detentores.»

Todos ouviram esta exortação tão determinada e tocante, que rejubilou o coração dos decididos em saberem que não tardava a hora; toldando-se ainda o nome dos indecisos que disseram que logo ao outro dia determinariam de suas decisões. Vem Giraldo mostrar a D. Nuno a nova arma que recebera, um montante, a tal espada de porte imponente, tinha pertencido a um cavaleiro que tinha combatido na batalha do Salado. Logo o moço zurziu o aço em volteios, como se de arma normal se tratasse e, tão acutilante era o seu zumbido de ceifa que nenhum combatente normal e apeado enfrentaria tal. Diz-lhe Nun'Álvares que honrasse aquela espada que tinha sido de um bravo que em nome de S. Jorge tinha caído em reinos além-fronteiras não chegando a ouvir a gloriosa palavra vitória. Pergunta-lhe ainda se era baptizado, ao que o moço responde que tal não era mas que ansiava pela salvação da alma se acaso um fero ferro o trespassasse.

A todos avisou D. Nuno que na missa do dia seguinte junto à piedosa efígie, talhada na pedra, do Senhor Santo Cristo, se faria perto aquelas águas brotadas a seus pés, o baptizo, o Espírito do Jordão e, tomariam os desabrigados de alma protecção divina, indo todos para a batalha de coração puro e de contas graciosas a dar aos céus.

Foi nessa noite Nun'Álvares ao piedoso convento de S. Francisco, pois na sua igreja faria uma velada de armas e rezaria com fervor durante toda a noite. Era esta igreja de fundação ao tempo do nosso rei D. Afonso III, que Deus guarde, e a segunda sua esposa D. Brites largos bens lhes fez e, mais tarde doado foi pelas freiras da Ordem de Aviz aos frades franciscanos que o povoaram de humildade e préstimos seguindo as regras do seu patrono. Neste convento faleceu o nosso rei D. Pedro I, deixando de seu testamento que as suas entranhas fossem chão térreo ao lado do Evangelho. São todas as capelas da igreja muito formosas e votivas de intenções aos seus Oragos; uma delas tem um altar feito de uma só pedra, mármore-rosa, da região, tão finíssimo como se jaspe fosse, logo do outro lado outra capela que tem uma árvore de Jasé tão perfeita de talha lavrada que os alvores do templo sagrado de que falam as Escrituras não representaria tão bem a genealogia Patriarcal. Deita-se Nun'Álvares naquele lajeado frio que era tecto de ossadas, pó, cinzas de corpos que viveram no despojar dos bens terrenos percorrendo a senda do amor ao próximo e da partilha; ali se transcendeu de devoção. Eram já de há muito empalidecidos os círios, levantando-se a alva em concertos de estorninhos que demandavam os silvados, quando D. Nuno regressou ao acampamento.

Logo lhe diz Martim Cotrim que dos vindos de Elvas e de Beja e dos da terra, por recrutar ficaram as suas vontades e que renunciaram ao alistamento. Ficou Nun'Álvares muito pesaroso de tal e num gesto que era vibrante nele mandou formar o exército e proclamou:

« Amigos! Por serem muitos os castelhanos e grandes senhores, tanto mais honra e louvor vos virá de os vencerdes; e quanto a estarem com os castelhanos os meus irmãos, vos digo que defenderei a terra que me criou, e para terdes a certeza de que assim é vos prometo que, com a ajuda de Deus, serei o primeiro a iniciar o combate; e quanto a eles serem muitos e nós poucos, já muitas vezes sucedeu os poucos vencerem os muitos, porque a vontade de Deus é superior à dos homens; rogo-vos assim que os que comigo quiserem ir a este combate que passem para além deste riacho, e os que não quiserem fiquem deste lado.»

Foi tão sentido o silêncio após as falas do Fronteiro, que a carriça deu de si nos silvados como único som ao cálido ar. Mas, num apronto que cobriu de júbilo os corações, se movimentam aqueles homens para o lugar que escolhia a batalha. Da fronte justa e tisnada de homens integros e leais, o povo " os barrigas ao Sol", os que arracavam a côdea em jornadas sem tempo, corria o pranto brando dos heróis, as lágrimas de coração puro e, num instante como nuvem fugaz todos transpuzeram o riacho que da fama justa a ninguém desmoreceria. A noite chegou esplenderosa de Lua Cheia, a lua pascal; o acampamento banhava-se daquele marfinado que anulava sombras, as fogueiras crepitavam de mansinho dando ao fio das armas fulgores espelhados. As montadas anarinavam fenos brandos e os cavaleiros mais irmanados de companhia sentiam a quentura da pelagem nos afagos aos seus companheiros de luta.

Partiriam muito antes da alva, ainda nos braços e brilhos de Selene, todos ansiavam por tal. Um som de alaúde adocicava-se tangendo de eco timbrado, as palavras eram de amigo, uma canção de saudade que falava no regresso ao lar, em papoilas ondulantes e terras cor de carmim, lábios rubros cor de esperançoso abraço e um nome que dizia liberdade.

(continua)


josé movilha

terça-feira, 2 de Junho de 2009

GUERREIRO, HERÓI E SANTO - X













SÃO NUN'ÁLVARES PEREIRA

X - BATALHA DE ATOLEIROS ( primeira parte)


Era a tarde já graciosa de horas quando se chegou ao termo de Estremoz. O baluarte altaneiro destacava-se por sobre a colina de S. Lázaro, tomando a Torre de Menagem os contornos de sentinela pétrea que divisava os campos circunvizinhos. D. Nuno quis parar por um instante na pequena capelinha de Nossa Senhora dos Mártires começada há 13 anos por D. Fernando, e da qual tanta lembrança tinha por orações ali dadas na sua adolescência. Breve se chegou a um largo e aplanado campo chamado de S. Brás, que não distava muito da cerca amuralhada e da porta da Frandina e, tinha três piedosos lugares de oração, tão perto uns dos outros quase a um tiro de besta: a capelinha de S. Brás, o Convento e a Igreja de S. Francisco e o pequeno nicho do Senhor Santo Cristo, uma imagem de um crucifixo talhado na rocha e resguardado por grades, de tanta devoção era este lugar que o povo ali rumava muito. Era este campo atravessado quase a perder de vista por um formoso riacho de águas cristalinas, que brotavam de um vigoroso nascente nado numa cova de alguma pedraria e nas cercanias do dito nicho.

Ocorre muito povo vindo do castelo, para saudar os nossos, pois o exército não sendo muito grande era luzido de movimentos e a todos encantavam os talhões do acantonamento, os pendões dos terços, o estandarte geral da hoste e a estampa das montadas. Fazem eco as trombetas chamando ao lugar de recrutar. O pregoeiro exorta aos deveres pátrios, à liberdade, à pia lembrança desta Semana de Trevas, todo o homem válido tinha o dever de pegar em armas em nome de Portugal. Vão avançando algumas gentes, de pronto se testa da sua destreza para os incluir no devido terço. De espaço a espaço lá aparece algum mais robusto, quase todos de baixa estatura, Giraldo fazia sempre a diferença, magros e de burel descolorido. Não havia muito tempo para atiçar a chama do guerrear e da bravura nestas gentes, mas o milagre ainda era possível.

Nun'Álvares com o seu séquito de comandantes tinha partido para o castelo, fez caminho junto à Gafaria de S. Lázaro e entrou pela porta de Évora, no interior junto ao arco de Santarém, esperavam-no o Alcaide o comandante da guarda e o dos besteiros. Era preciso trazer armas da armaria para o campo e exortar aquelas gentes a ser firmes. Um grupo de velhos senhores de casario e terras de forragem permite-se discordar da próxima batalha com os espanhóis. Não eram as novas que o exército de Castela não caberia em quatro rossios de S. Brás ! Para quê pelejar pelo " Messias de Lisboa"( D. João), contra essa força tão esmagadora ? Os ouviu D. Nuno com o respeito que merecem os anciãos: lhes disse que as batalhas se ganham tecendo armas no terreno e não em pavoneio de passeios de justa e plumagens e que por mercê dos santos desígnios dos céus poderão os que parecem fracos vencer os fortes. Tal ressoou naquelas cantarias vetustas que ouviram falas de Reis, que por largo tempo se marearam de lágrimas os olhos de todos aqueles a quem a morte não importava se em nome de Portugal.

A tarde declinava, os dias de S. João ainda vinham longe. D. Nuno aparta-se dos seus comandantes que escolhem armas no interior da armaria. Vai só à capelinha, ao quarto, da piedosa Rainha Santa Isabel. Ajoelha trémulo de júbilos pios. beija os pés da imagem piedosa da Virgem Mãe, aquela que a Santa Rainha Isabel beijava. Deita-se no lajeado, humilde carne insegura sem valimento, como naquela noite na cripta do castelo que o viu nascer. No silêncio, um chilreio de andorinhas tolhe a balaustrada sombreando rasantes passagens, como da lembrança de trazer no bico o fuso que a santa deixava cair. Nuno ergue-se, aproxima-se do pequeno balcão ogival, dali, de onde olhos pios viam rosas e campos, vê já ele o lugar da batalha, os campos de Atoleiros.

(continua)


josé movilha

segunda-feira, 1 de Junho de 2009

DIA MUNDIAL DA CRIANÇA

LIÇÃO HUMANA DE AMOR E SOLIDARIEDADE DAS CRIANÇAS



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quarta-feira, 27 de Maio de 2009

GUERREIRO, HERÓI E SANTO - IX






IX - OS DIAS QUE ANTECEDERAM A BATALHA DE ATOLEIROS





SÃO NUN'ÁLVARES PEREIRA


Nesta segunda-feira da semana de trevas deste marcado ano de 1384, de tantos sobressaltos pátrios, a madrugada tecia-se de enlevos rosados clareando o Sol de promessas amenas para as bandas da Serra d'Ossa. No castelo de Évora rendiam-se as sentinelas entre a porta de D. Raimundo e a de S. Brás, para além da barbacã divisavam-se os fartos lumes do acampamento e os ecos das marteladas do alfageme já se faziam anunciar ressoando num canto metálico como se fora sons de peleja. Entre as baias montadas no campo de baixo, num abrigo aproveitado junto ao mais recôndito da cerca, perto da porta da traição, queira S. Jorge que por lá ninguém tivesse de fugir, enfileiravam as montadas divididas em quadriculas de guarda, pastoreando o feno, escolhendo-se os de preciso a desbastes nos cascos e solidez de ferra. A hoste sairia ainda com o Sol baixo, as dez léguas até Estremoz seriam cumpridas muito antes do dia expirar. Os carros da mantença já se perfilavam metendo-se a varais mulas e asnos ligeiros, do enfileirar se fazia prática nos últimos carros a talega dos panos e algum descanso de molestados do corpo e feridos de chagas recentes. Os alferes de terços esperavam com as suas companhias, a peonagem arrumava-se de fila, muitos cavaleiros já montavam resguardando ao estribo a sua lança. Mal o Fronteiro D.Nuno viesse mais os seus companheiros partiriam de pronto. Nun'Álvares vinha da capelinha de S. Vicente, onde esteve a rezar até perto da alva. Depois ia à sala régia do castelo para receber uma deputação representativa das milícias do povo e uma dos familiares do Almirante Pessanha, morto recentemente na sublevação do Castelo De Ourique. Encontrando-se com os seus capitães no pátio central, depressa atalharam pela armaria subindo até à sala.

De muita prestação e entusiasmo foram os ditos dos representantes do povo que eram liderados por dois homens bons e de ofício: um alfaiate e outro cabreiro, queriam estes homens rudes de modos e falhos de letras, mas tão tenazes de ideário, dizer ao Fronteiro que estavam por D. João e pela causa de Portugal, e que defenderiam a praça eles mais todos os que naquela terra viviam, só entrando ali espanhóis se acaso todos morressem. Vem então uma jovem mulher acompanhada de duas anciãs e duas crianças tão loiras como querubins, e um homem de vestes negras de arminho genovês, ao encontro de D. Nuno, com tal respeito e dignidade que a todos feriu no peito ao que vinham. Eram família do Almirante Pessanha que tão cruente morte tinha tido não há muito; pediam permissão e salvo-conduto para demandar a Beja em pia romagem ao túmulo do familiar.

Os ergueu D.Nuno com tanto apaziguamento e carinho que a todos tocou tal gesto, mandando lavrar e dando sinete a tal. A todos disse depois D. Nuno que os desmandos e a libertação de ira ou actos que tolhessem a vida a quem não fosse de peleja ou vil traição, estando no Paço mas não sendo pelos de Castela, ou ainda desarmado e cercado fosse ferido de morte, a todos envergonharia tal gesto como envergonhou a morte selvática da abadessa das freiras de São Bento, sendo reprovável para quem assim o fez, não querendo que tal se repita nas léguas do reino. Todos acolheram no coração as palavras de Nun'Álvares e com magnificência todos foram a ocupações. Segurava já Vasco Machado o magnífico cavalo de D. Nuno, estando todo o exército preparado para partir às ordens do Fronteiro. Quando avista D. Nuno o alto moço Giraldo junto ao terço do estandarte; muito agradado ficou de lhe ver a armadura e a coifa bem cingidas e como ele tinha demonstrado nos treinos do campo ser lesto com a espada lhe mandou dar uma. Foi-se perdendo no caminho as imagens e vivas da despedida do muito povo e do sorriso das moças bonitas e, o internar progressivo na Serra d'Ossa dava ao frondoso cerrado o ar dos medronheiros, murta, urzes, chaparros, arnica e erva andorinha, da esteva aparelhada e resinosa casando-se no mais húmido o forte exalar do meimendro e da arruda, para quem soubesse ver a folha da mandrágora gemendo para que a libertassem. Com um tempo tão aprovado por S. Gens, eram estes recantos tão formosos de progressão que não se dava pelas léguas passadas, indo esta cordilheira de Este a Oeste até à linha das alturas que separam as águas do Tejo das do Guadiana, seguindo sempre separando o Tejo das águas do Sado pela serra de Montefurado, que se liga pelas colinas de Vendas Novas e do Poceirão às cadeias de Palmela e à Arrábida terminando no cabo Espichel.

De águas correntes e cristalinas era dotada ainda toda esta suave cordilheira, encontrando-se a brotar de amiúde por toda a jornada. Subitamente avistam-se, junto à frente da hoste, num tropel que breve se aquietou, os batedores que exploravam o terreno no termo de Estremoz. Estes batedores eram comandados pelo Ramiro, das ferrarias, homem tão lesto a tomar pistas que o mais aguçado dos furões ficaria a perder com ele. Não havia pegada de urso, ginete, lince, lobo, raposa, porco bravo ou coelhos que lhe fugissem ao jeito dos olhos. Mostra ele e os destacados, com muita exaltação, um javali que vinha ainda de carnes quentes e de cama a tracção numa padiola de freixos; tão basto era o bicho que talvez só outro igual tivesse enfrentado o herói dos gregos nos seus trabalhos; as cerdas mais pareciam cordame de galé; as presas ombreavam de tamanho com adaga de infiel e das arrobas de carne se encheria a caldeira a um dia de mantença à hoste.

Tinha sido apanhado na frágua do Viriato, e tão certeiro lhe lançou Ramiro que o trespassou de pronto à primeira. Vai avaliá-lo Giraldo e mesmo ele não o transportaria sozinho. Ficou Nun'Álvares muito entusiasmado com a sortida dos seus homens, pois também ele apreciava uma boa montaria e uma boa peça como aquela era difícil de ver. Compreendendo-os lhes disse com muita amizade que não poderiam comer tal, pois nesta semana tão mortificadora, a das trevas, qualquer alimento que manchasse os santos preceitos dos livros sagrados deveria ser banido, deviam ir puros para a batalha só essa força os faria vencer. Todos receberam de bom grado tais palavras e Ramiro e os companheiros logo procuraram cama de conservação para a carne do animal. De pronto acharam uma gruta que Ramiro conhecia, tão fria de ares que caça que lá ficasse mesmo a duas ou três luas passadas, estava como na hora. Taparam o bicho com muitos fetos de folha larga e cuidaram de enlear bem a entrada com espinhos de tojo molar para que qualquer animal predador não fizesse dali ceia.

(continua)


josé movilha

quinta-feira, 21 de Maio de 2009

GUERREIRO, HERÓI E SANTO - VIII


















SANTO NUN'ÁLVARES PEREIRA


A HORA DECISIVA APROXIMAVA-SE - NAQUELA SEMANA SANTA DE 1384 COMEÇARIA NO LUGAR DE ATOLEIROS A PRIMEIRA DE UMA DAS GRANDES BATALHAS PELA INDEPENDÊNCIA DE PORTUGAL


Évora fervilhava de muito povo que se acoitava a muralhas para saber novas e fazer sede de comércio, esperando a confirmação dos ditos do pregão que davam como vindas as tropas de D. Nun'Álvares Pereira. Aqui nesta cidade de história tão profunda, tinha estado preso, já lá iam dois anos, D. João, Mestre de Avis, acusado de uma conspiração contra El Rei D. Fernando; desta decisão de condenação teve basta influência a rainha D. Leonor Teles e, D. João só foi libertado graças ao interceder do conde de Cambrige, filho de Eduardo III de Inglaterra e irmão do duque de Lencastre, comandante das tropas inglesas então em Portugal devido às pretensões de D. Fernando ao trono de Castela.

Tinha o Alcaide-mor do Castelo de Évora, Álvaro Mendes de Oliveira, tomado o partido de D. Leonor. Revolta-se o povo e homens de ofício e de letras e alguns poucos nobres, contra esta determinação, marchando a afrontar o centro da praça forte e determinado a tomar o castelo. Resistem os de dentro cerrando as portas, negando qualquer cedência. Logo os sitiantes se lembram de tornar cativos grande número de familiares dos de dentro, ameaçando chaciná-los se não fosse feita a entrega. é o castelo tomado e da fúria se ocasionam desmandos que dão morte a quase todos sem distinção. A abadessa das freiras de S. Bento, refugiada na Sé, é selvaticamente arrastada pelas ruas sofrendo morte atroz. O povo trazia sobre si uma enorme carga de opressão desde tempos anteriores, as leis de D. Fernando previligiaram ainda mais o latifúndio e a nobreza, os pobres camponeses os " barrigas ao Sol" não tinham querer ou valimento nas suas acções de trabalho. Tudo era lei determinada pelos donos das terras: preço do aluguer de braços, tempo das jornas, duração da dependência. Eram pois estes levantamentos não só um ideário patriótico como também uma luta de classes. Era este castelo de Évora de defesas muito completas, altas torres e cerca muito bem conservada, barbacã e portas de ferragens justas e reforçadas. Deu-lhe começo o rei D. Afonso IV, e seu neto o rei D. Fernando dotou-o de cerca exterior.

As tropas chegam a meio da tarde e acamparam no lado Setentrional das muralhas, um local abrigado e vasto de planura, com um tanque e um chafariz de muitas águas correntes onde homens e montadas arremeteriam com desafogo as poeiras dos corpos. Por perto um monte de pedras e colunas tão antigas que se diziam outrora de oferendas a deuses pagãos. Entrou Nun'Álvares pela mais nobre das portas a de D. Raimundo, indo de imediato à pequenina capelinha de S. Vicente, dedicada ao culto dos três antigos Santos padroeiros da cidade; os irmãos Vicente, Sabina e Cristeta e, onde era legada a irmandade de Nossa Senhora da Vitória, irmandade criada pelo nosso senhor rei D. Afonso IV, após a vitória na Batalha do Salado.

Vem o Alcaide e os representantes do povo ao encontro de Nun'Álvares, que de pronto se apeou assim como os seus comandantes, seguindo todos para a casa da Torre do Paço, para conferenciarem dos aprontos para a batalha que em breve seria. Testemunha o Alcaide, homem de porte varonil e determinação, que o povo estava forte de vontades de peleja, mas fraco de armas e defesas. Tinham-se alistado 25 cavaleiros que com peonagem e besteiros totalizavam cerca de 125 homens. Do celeiro se levaria para aprovisionamento e caldeira de campanha: 500 arráteis de trigo grado; 2 quintais de carne seca; 20 alqueires de chícharos e alguma forragem e favas secas para ração das montadas. Perguntou o Fronteiro D. Nuno, se não fazia mantença tudo aquilo às pobres almas mais carenciadas, doentes, idosos e crianças. Pelo que todos disseram com caridosa emoção que tudo não seria demais para tão duras provas que iam enfrentar.

Apresentam-se as gentes para a incorporação e destaca-se um moço tão agigantado de estatura e carnes, que os heróis biblícos de que os livros deram nome ficariam a perder. Devia ter muito mais de 3 côvados de altura e apresentava-se com um virotão que mais parecia uma clava e que distava de uns 8 pés de comprimento e que seguramente pesava mais de uma arroba. Manejava a dita com tal destreza como se fora junco de canavial e, os espanhóis na sua alçada deviam cair como azeitona a varejo. Logo mostrou a sua força, o moço, agarrando 2 sacas cheias de chícharos, uma em cada mão, e que cada uma pesaria mais de 4 arrobas. Pergunta-lhe o Fronteiro D. Nuno, que nome tinha: ao que ele respondeu que era Geraldo, nome dado por um padrinho que era douto de botica e tão ciente a leituras de latim e outras, que lhe disse que era em honra do conquistador de Évora.

Chama D. Nuno o alfageme e lhe encomenda de em breves horas fazer uma couraça e um gorjal para alguma defesa do peito e da garganta daquele homem. Pois a batalha em campo aberto, sendo tão basta a sua estatura, dava nas vistas e os dardos e flechas lhe achariam de pronto as carnes e o molestariam. Entretanto chega Vasco Machado, escudeiro de D. Nuno, que tinha ido em missão de espionagem a Estremoz e aos campos que carreavam para Fronteira. Por ele é dito que eram grados os fumos que se elevavam dos acampamentos Castelhanos. Da clareza do dia se avistava tal da Torre de Menagem de Estremoz.

Sendo assim os espanhóis estavam já muito para cá do Crato. Contou Vasco Machado, que ele e os seus homens foram a batida pelos campos, disfarçados de camponeses. Souberam que no Crato, o irmão de D.Nuno, o Prior Pedro Álvares, que estava por Castela, recebia as muitas forças comandadas pelos grandes de Espanha: o Almirante Fernão Sanches de Tovar, que antes tinha armado a esquadra em Sevilha, a que vinha pôr cerco a Lisboa, o conde de Niebla, o Mestre de Alcântara, o fronteiro da Andaluzia, Gonçalo de Aza, Julião de Lerma e muitos mais nobres, que pensavam que seguramente iriam dar uma lição aquele jovem atrevido, que até já tinha desafiado o conde de Mayorca, D. Pedro Álvares de Lara e, tinha um tão pequeno e mal armado exército. Não contavam os invasores da gesta que nascia dia a dia no coração dos portugueses, no apego a honrarem os seus maiores e a lembrarem Ourique. Só a Santa Virgem sabia que a fera luta se ia dar dali a três dias.

(continua)


josé movilha




segunda-feira, 18 de Maio de 2009

GUERREIRO,HERÓI E SANTO - VII













SÃO NUN'ÁLVARES PEREIRA

BATALHA DE ATOLEIROS - I


Movimenta-se a hoste na direcção de Évora, atalhando pelos campos na direcção de Évoramonte e da ribeira de Tera que tinha um famoso pego chamado do Sino. Tão formoso era este lugar de ajuntar de águas, que o peixe não se fazia rogado de dar às redes e aos embustes das gaiolas de junco. Os de ofício e os pobres sempre ali tinham campo a respeitar a Quaresma e da safra se decidia escalares e secas para a mesa de todo o ano. Abasteceríamos pois, de algum peixe seco para que a caldeira não ficasse parca de todo durante a jornadas vindouras. Subiríamos ao baluarte, o castelo que tinha gentes do Mestre. Ponto alto nos contra-fortes da Serra d'Ossa, ali onde tinham andado os bravos que combateram os romanos, Viriato, Sertório, que tinham acampamento na Penedia chamada cadeira de S. Pedro, lá bem no interior da cordilheira. A este lugar mandou povoar o primeiro Rei D. Afonso Henriques, lhe deu foral o senhor Rei D. Afonso III ; de ampliar o seu povo se interessou D. Dinis e, da mesma feição que foram feitos o castelo e a Torre de Menagem de Estremoz, também aqui nasceu um baluarte que este rei começou e que os vindouros terminaram.


A Tore de Menagem de Estremoz e a Menagem de Évoramonte eram duas sentinelas vigilantes erguidas alto e frente a frente, separadas por léguas davam vista ao horizonte e aos campos a perder de vista. Nuno lembrava-se de atalhar os campos dando brida ao seu corcel quando ia de Estremoz a Évoramonte. O filho do castelão era da sua idade e porfiavam em justas de brincadeira tentando enganar-se um ao outro entre as quatro portas do amuralhado; ora na de S. Sebastião de onde distando à ermida se via a Serra; ora na do Sol, tão cálida de conforto no Inverno; na do Freixo, ou na de S. Brás que tinha também formosa ermida. Nas penedias do pego folgavam ele e o seu amigo muito, num sítio onde as águas formavam uma singela bacia marmoreada refrescavam-se e da sombra dos choupos tiravam jazente alegria que fazia esquecer o calor das tardes.


Nuno e o seu jovem amigo só sentiam alguma temeridade naqueles passeios, quando passavam junto à pedra da cama do mouro. Contara-lhe mestre Julião, o alfageme do castelo, que um dito muito antigo, que já o avô lhe contara, dizia que no tempo do nosso rei D. Afonso Henriques, era o castelo povoado pela moirama e, logo no dia do assalto dos nossos, estava para casar uma formosa moira com um guerreiro de elevado título. Se arremessa a peleja dentro e fora das muralhas, são bravos os guerreiros de parte a parte. Muito ferido, sucumbe o guerreiro mouro junto à dita pedra. Vai encontrá-lo a amada, deitado e morto naquela laje direita como cama de exéquias. O amado tinha duas lágrimas tão péroladas de consistência que se diriam orvalho vivo. Fanece de tudo a linda moira, e tal tristeza lhe acode ao coração que de pronto cai morta junto ao amado. De tal saudade dos enlevos do local que na noite de S. João aparece a linda moira junto à pedra do mouro, deslocando-se depois para o Poço do Clérigo onde se senta penteando as tranças e murmurando o nome do amado. Causou tão viva impressão e comoção a Nuno, esta história, que era dar com ele a olhar a pedra por longo tempo e a pensar que estremecimento causaria a bela moira ao passear ao luar na noite de S. João.


Acampou a hoste nas faldas do monte, subiu Nun'Álvares ao castelo com os capitães, para saber das intendências e validades para defesa e se alguns homens se arregimentavam para a campanha. Mal se tinham recolhido os ginetes a feno, ouve-se penosa algaraviada vinda da parte das masmorras. Pergunta Nuno a que se devia tal. Logo lhe diz o Castelão que eram ruins gentes que vinham assolando o povo dos campos, semeando descrenças e superstições, blasfemando e tudo fazendo de mal contra a gentil mão do Vigário de Cristo que em Roma tinha a nossa causa. Ainda andavam a mostrar bocados de cera que diziam ser chuva caída dos céus, em Montemor-o-Novo, e que eram sinais de que a peste em breve assolaria as casas não deixando um herege vivo.


Mandou Nun'Álvares que se apresentassem tais gentes. Dos seis, muito alcachinados, ruindade temerosa não mostravam eles em suas caras, façanhudos é certo, mas tão mal cobertos e rotos de burel que nem mula de moleiro assim se aprontava. Se prostraram em muitos prantos, desgrenhando os fartos cabelos, abanando escapulários que traziam cingidos ao peito; panos com a efígie de S. Tiago e conchas de romeiro que todos portavam à cintura. Dois deles mostraram as carnes rasgadas e cobertas de sangue junto aos flancos, pois tinham uns cilícios de rude forja. Ficou D. Nuno e os cavaleiros algo impressionados com estes desgraçados que mais pareciam desprovidos de total juízo e, que tantos sinais pios ostentavam, que perguntou ao Alcaide o que ia fazer com eles.

Ficou também, este leal fidalgo algo perturbado, dizendo que por hora e por ser Quaresma, ficariam somente a ferros, mas logo a piedosa quadra passasse seriam fortemente açoitados na roda. Mas que a mercê do Fronteiro era lei suprema, o que decidisse seria o destino deles. Confrontou-os o meirinho com as acusações, negando eles tudo, pois só viviam para o Santo Nome de Cristo e da Piedosa Virgem, e já de Compostela vinham em orações piedosas a eles e ao povo. Mandou D. Nuno tirar-lhe os ferros e libertá-los, advertindo-os de que o demo sempre a carne fraca achava por instrumento e que só a vida casta e as rezas os podiam proteger. Roja-se um deles ao solo em frente a D. Nuno, o que parecia mais ancião e mais coberto de Bentinhos e, em grande clamor levantando as mãos ao Céu, num agradecimento providencial a quem os tinha salvo.

Proferindo: "Em três grandes batalhas entrarás e todas elas vencerás ! "

Tudo ficou cativo da entoação e fervor da profecia, Nun'Álvares levantou os olhos ao Céu, um castelo de nuvens era alvo como o altar de Nossa Senhora, parecia-lhe ver lá o sinal das palavras ouvidas. Urgia partir. Recrutados trinta peões, só dezoito tinham couraça, besta e aljava, os restantes eram fundeiros e manuseadores de picos e virotes. Antes de partir recomendou Nun'Álvares ao comandante do Castelo, na presença de todos os homens, que o Pendão cimeiro com as cores de Portugal devia ser defendido até à morte, antes perecer do que perder a Praça.

Ia o Sol a pino quando se perderam de vista os últimos homens da hoste, lá longe nos contra-fortes da cordilheira que dava vistas a Évora.

(continua)


josé movilha

sábado, 16 de Maio de 2009

GUERREIRO, HERÓI E SANTO - VI

SÃO NUN'ÁLVARES PEREIRA




VI - REUNIR GENTES NOS CAMPOS DO ALENTEJO - ENCONTRO EMINENTE COM AS HOSTES CASTELHANAS



Manda Nun'Álvares aprontar o levantamento do acampamento, partiriam, mal o Sol raiasse, para Évora para dar arauto à recruta de lanças, peões e besteiros. Ia-se entrar na semana de trevas, no mais sentido que a Quaresma tem, a lembrança do sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo, para redenção dos pecados de todos os homens. Pressentia que em breve iriam travar uma grande batalha com os espanhóis, a primeira que iria salvar o reino e a sua independência. Quando olhava os campos pensava como iria dispor as suas tropas, a maior parte pouco preparada de experiência militar e mal armada, inúmera de corpo dado aos golpes e sem qualquer protecção; alguma parte usava a velha capelina, gorra de ferro unida à testa, posta sobre uma coifa de malha, poucos usavam o camal, um amplo cabeção de malha de ferro, e bacinete e barbudas que terminavam em ponta alta no cimo da cabeça; gorjal a peça de defesa da garganta, esse ponto tão vulnerável, e a viseira, a chamada cara, tecida de arcos de ferro e articulada para subir ou descer tapando o rosto.

As armaduras dos cavaleiros ainda eram quase todas de malha de ferro ; na totalidade da hoste eram ainda pocos os cavaleiros que usavam armaduras de chapa forjada, imitando a leveza e o engenho oriental: compondo-se de couraça que revestia o tronco, braçaes e bracelones que revestiam os braços, as manoplas para as mãos, coxotes para as pernas e por fim as caneleiras ou grevas para as pernas. Por cima vestiam os cavaleiros a cota de pano com as suas armas bordadas. Não obstante o dispêndio de moeda para uma boa armadura. O número de interessados crescera e os alfagemes especializavam-se nesta procura, em vários lugares do reino, em Santarém e em Alcácer era dado lugar às mais bem modeladas. Todos os jovens de linhagem, assim como Nuno, aspiravam a equipar-se com uma destas belas peças.


Nuno pensava, quantas lanças, peões e besteiros conseguiria recrutar ?... Uma lança compunha-se de um cavaleiro e tinha consigo dois besteiros, um pajem e um escudeiro; em formação o conjunto de lanças, ou hoste, formava em quatro ou cinco corpos, ou batalhas, que eram: a vanguarda, ou dianteira; a retaguarda ou çaca; as alas direita e esquerda ou costaneiras. Na dianteira ia, com o Condestável, a flor das tropas, fidalgos escolhidos; na çaca, sob o comando de algum bastardo de sangue real, os fidalgos menores; as costaneiras eram comandadas pelos infantes. Cento ou cento e cinquenta lanças, quinhentos a oitocentos homens, formavam uma companhia que elegia um pendão especial de símbolos da sua devoção, dividindo-se em secções de cinco, dez e cinquenta lanças.


Quando alguns comandantes do duque de Cambridge, vindos em Naus, aportavam a Lisboa, Nun'Álvares falava com eles demoradamente sobre aspectos de cavalaria, livros, mapas de batalhas de outros reinos e de disposições dos exércitos no terreno. Do az, formatura em linha extensa a um; a mó formatura circular contra os movimentos envolventes do inimigo; a cerca ou quadrado de três fundos em cada face, deixando livre o centro; a cunha, ou cabeça de porco, formatura triangular, que começava por três lanças a dobrar; e finalmente o tropel para consumar a debandada de forças fugidas que tentavam reagrupar. Todos estavam de acordo: tudo dependia do lugar e das condições do terreno, da maneira de dispor os homens, talvez de um entendimento superior emanado dos céus, um sentimento conselheiro que vinha do interior, uma voz que proclamava a decisão da escolha.


Desceu em direcção à tenda. Aproximou-se de Éolo, o belo animal pressentiu-lhe o montar, maneou a garbosa cabeça dilatando no gesto as narinas num resfolgo de prontidão que foi eco num relincho franco. O Fronteiro tinha junto a si o cavaleiro que era portador do estandarte, eram os dois símbolos que iluminavam a progressão. Nuno olhou aquele exército, que não era grande, os homens que conhecia um a um, homens determinados, em que cada um teria que valer por dez inimigos. Partiam distendendo-se pela planície, um odor sacro a rosmaninho e alecrim despreendeu-se sem martírio dos calques do ligeiro trote; um bando de gansos era uma flecha de ligeireza no horizonte prometido. Todos pensavam já na proximidade da batalha.


(continua)


josé movilha

sexta-feira, 15 de Maio de 2009

TERTÚLIA VIRTUAL

AS CINCO COISAS QUE LEVARIA PARA A ILHA :
1 - A BÍBLIA
2 - ÓCULO DE MAREAR
3- CAIXOTÃO COM RESMAS DE PAPEL
4-CAIXOTÃO COM ESFEROGRÁFICAS
5- A MINHA MULHER ( POR CAUSA DAS BODAS DE OURO, E NÃO SÓ) http://tervirtual.blogspot.com/

quarta-feira, 13 de Maio de 2009

GUERREIRO, HERÓI E SANTO - VI

SÃO NUN'ÁLVARES PEREIRA

VI - OS CASTELHANOS INVADEM PORTUGAL - LISBOA FORTIFICA-SE A PENSAR NO CERCO - NUN'ÁLVARES
PREPARA NO ALENTEJO A PRIMEIRA GRANDE BATALHA.

Os castelhanos não desciam de Santarém, o Mestre d'Avis em Lisboa com as suas gentes preparavam-se a reforçar as fortificações da cidade de possíveis brechas de que se aproveitariam um dia os sitiantes. A tantos rogos do povo de Santarém, o Mestre chegou a organizar uma expedição militar que se deslocaria em barcas subindo o Tejo. Levado a cabo tal intento, não foi possível passar Mugem por o rio ter fortes areias e pouca água. Os espanhóis tinham-se apropriado de Sintra, pois fundeavam com toda a facilidade à entrada da barra, desembarcando e embarcando a belo porvir, fazendo desta formosa vila e da Alcaidaria, local de muitos víveres e abastecimentos.
Por Alenquer andava uma força de mil lanças, que com peões e besteiros andaria na cifra de 3000 homens, comandados pelo Mestre de Santiago, D. Pedro Cabeza-de-Vaca, o camareiro Velasco, e Pedro Sarmiento, adelantado da Galiza, vinham contra Lisboa para começar o cerco. é que em Janeiro tinha chegado a Santarém o rei de Castela D. João e sua mulher a jovem rainha D. Beatriz ; vinham a rogo da rainha regente Leonor Teles que se queixava que o Mestre d'Avis após a morte do Andeiro a tinha expulso de Lisboa, acolhendo-se agora em Santarém com um rol de nobres que ciosos que mudanças traduzissem perda de património ou benesses régias, tanto pendiam para a sua nomeação, como a do rei de Castela. Das esperanças de Leonor Teles ser ajudada e confirmada rainha pelo rei de Castela seu genro, breve caíram as mesmas e essa iluminada ideia esfumou-se. Genro e filha levaram-na com modos suaves mas preparados para o convento de S. Domingos e colocaram duzentas lanças de guarda, ao que chamaram de honra, Leonor Teles era agora prisioneira de Espanha.
Nessa mesma noite obrigaram-na a assinar a renúncia a todos os seus direitos ao trono de Portugal. A situação era muito gravosa, a identidade da pátria era agora um jogo de interesses, um tabuleiro retalhado que os poderosos queriam jogar conforme os ventos do poder que se lhes afigurassem mais fortes. Daqueles por Portugal, ainda algumas querelas se levantavam, o conde Álvares Pires de Castro que era Condestável do reino, nomeado ainda no tempo de D. Fernando, era oponente da preferência do Mestre por Nun'Álvares, em quem via um rival aclamado ; o Dr. João das Regras também se lembrava agora de dizer que o Fronteiro era muito nova para tal missão.
No entanto o Mestre d'Avis não esquecia o que ele e o seu jovem amigo tinham intentado, quando desafiaram abertamente a regente em Alenquer e Alverca, seguindo para Lisboa e não para Santarém como queria a monarca. A bravura de Nuno em várias pelejas com o inimigo; o que ele tinha respondido quando a seu lado ouviu o repto que o conde de Mayorca, D. Pedro Álvares de Lara , comandante do exército que acompanhava o rei de Castela, lhe tinha enviado pelo Annequim, o jogral da corte.
Dizia a mensagem do repto:
" Se o Mestre d'Avis persistir em alvoraçar este reino com traição e maldade tentando roubá-lo ao seu legitimo dono, lhe porei o pé em cima e lho farei reconhecer". Salta Nun'Álvares e profere de pronto : " Dizei-lhe lá que sou eu Nun'Álvares, fidalgo deste reino de Portugal, que lhe irá pôr, a ele, o pé em cima se não abandonar este reino de pronto". Não tinha D. João dúvidas quanto à bravura e fidelidade do seu jovem amigo que em breve seria Condestável.
Muito firmes estavam Lisboa e o Porto e o povo do Alentejo na defesa do Mestre, isto dava umas sessenta praças fortes disseminadas pela província. A guerra que o povo, a arraia-miúda, ia fazer seria patriótica, social e com algo de religioso, ao nome dos invasores espanhóis e dos nobres vendidos ajuntava-se o de cismáticos, por estes aceitarem obedecer ao anti-papa de Avinhão, Clemente VII. Muitos fidalgos após a vassalagem ao rei de Espanha, correram a fechar-se nos seus castelos para aguardar o que se ia passar de mais vantajoso para eles. Só que isto iria custar-lhe muito caro, e teriam de decidir-se. Em Beja quando o povo soube que a rainha tinha mandado cartas dizendo que se devia escolher os Castelhanos, amotinou-se, tomou o castelo ; o alcaide, Gonçalves Vasques de Melo, para salvar a vida fugiu, tal sorte não teve o almirante Pessanha, perseguido até Ourique, preso e depois morto. De insubmissão igual caíram os castelos de Portalegre, onde Pedro Álvares tinha a sede da sua fronteira; em Évora logo foram de inicio as melicias do povo comandadas por um alfaiate e um cabreiro; Em Estremoz os sitiantes quiseram tanto a praça que tornaram reféns os familiares dos sitiados, apresentando-se com eles junto às portas e às muralhas, seriam os primeiros vitimados se o castelo não se rendesse. Quando esta gente fosse organizada nos rudimentos do exército e galvanizada no seu fervor patriótico, teríamos um oponente muito duro para o invasor.
(continua)
josé movilha

segunda-feira, 11 de Maio de 2009

GUERREIRO, HERÓI E SANTO - V

SÃO NUN'ÁLVARES PEREIRA




O SOLO PÁTRIO EM PERIGO DE PERDER A

INDEPENDÊNCIA - A NOBREZA VENDE-SE

A CASTELA - É O POVO QUE SE LEVANTA EM

REVOLTA E CONFIA NO MESTRE D'AVIS

E EM NUN'ÁLVARES

V

Tão aparelhada de perfeição era aquela armadura forjada pelo alfageme de Santarém, que por debaixo do linho votivo que vestia, sentia que o escapulário que lhe cinjia o peito se acobertava como relicário entre a couraça e o seu corpo. Era como se tudo fizesse parte daquele polido resplandecente, daquelas partes que se irmanavam de protecção junto às carnes, juntando-se ténues de segura ligação e força distendida. Qual prodígio de brios que crepitara num fogo vivo que a tornara imune aos golpes, banhando-se no apronto em polidez cor da Lua, prata tão seriada de beijo fulgoroso que devolvia a léguas os afagos do Sol. Consagração tão sacra : tinha-a vestido pela primeira vez num dia de Santa Maria, pedira nesse dia à Virgem Mãe que o protegesse de ferros acerados, frechadas ímpias, rasgos que mordessem as carnes, e até à data o seu pedido tinha sido atendido, preserverados os seus actos e o seu corpo por tantas orações ofertadas.


Desembainhou a espada, olhou-a, não como um objecto de morte, mas algo que tinha a legitimidade de defesa, pensou na oração do sacerdote aquando da sua investidura há onze anos, tinha então treze . Acudiram-lhe nítidas as palavras para as proferir: « Senhor é para que a justiça tenha um apoio neste mundo e o furor dos maus um freio, que permitiste aos homens por uma disposição particular, o uso da espada.». Depois o alfageme de Santarém tinha dado aquele aço invulgar resistência, leveza e talhe precioso da guarda à ponta, harmoniosa sintonia como canto quando desembainhada cortava os ares. Quase cegava de brilho !... Parecia de fogo! Quando os dardejares do Sol a encontravam. Olhou-a : de um lado uma pequena cruz com uma estrela na extremidade da haste e a legenda " Excelsus super omnes gentes, Dominus", a marca do alfageme ; do outro lado tinha a cruz floreteada dos Álvares em letras que diziam : " Dom Nuno Álvares", e por cima o santo nome de " Maria".


Sentiu-se tão forte e confiante que teve aquela emoção que os puros de coração, os modestos, os justos, os amorosos de dar, sentem: toldando-se-lhe os olhos de humidade piedosa misturada com uma sombra negra de angústia que lhe acudia ao coração. Os seus irmãos estavam por Castela, especialmente o seu irmão Pedro Álvares, o agora Prior do Hospital, que ia receber no Crato os maiores de Espanha com exércitos que pretendiam subjugar Portugal. Debalde o intento deles, seus irmãos, os recados que lhe mandavam para se voltar para Castela, se o fizesse teria terras, cargos e honrarias sem fim. Nada o demoveria. A sua missão de salvar Portugal não era só da vontade dos homens, vinha do alto, de desígnios que nenhum homem, nobre ou rei podia contrariar. Doravante até os seus familiares, se frente a frente como inimigos, não haveria outra lei.

O seu pajem Vasco Machado, em quem confiava tanto, acercou-se, ia partir em missão especial para a Alcaidaria de Estremoz para saber mais dos movimentos dos espanhóis, subiria ao alto da Torre de Menagem, lugar que abarcava léguas, de lá com a sua vista treinada, qual falcão, ia tentar divisar fumos e movimentos nos acampamentos inimigos, depois juntar-se-ia às tropas em Évora, lugar para onde partiriam a mobilizar gentes, na madrugada do dia seguinte.


(continua)


josé movilha

quinta-feira, 7 de Maio de 2009

GUERREIRO, HERÓI E SANTO - IV

SÃO NUN'ÁLVARES PEREIRA

LEMBRANÇAS QUE FORTALECEM -

COMO DO POVO - ARRAIA-MIÚDA- SE FAZ UM EXÉRCITO



Naquele lugar de acantonamento entre Arraiolos e Évora, a vida daquele pequeno exército era muito activa nos preparos para a guerra. Cuidava-se da ferra das montadas, os alferes, meirinho, abegão tesoureiro, provedor dos víveres e pregador , não descuravam as suas obrigações transmitindo-as aos seus terços de lanças. Partiriam dali a dois dias para Évora para recrutar homens nas comarcas, depois para Estremoz para igual fim. Eis quando as sentinelas ao cair da tarde avistam duas carroças meio desconjuntadas puxadas por muares que da carne só tinham lembrança, passavam junto a um alqueive meão, procurando o vau do ribeiro. Os solavancos da progressão mais pareciam indicar mau fim, aros rebentados por rudes atirares e destroçados propósitos tal era a gemitude dos eixos e madeiras mal tratadas. Cerca de uma quinzena de pessoas entre homens, mulheres e crianças seguiam a arrastavam-se neste cortejo miserável. Por ordem do alferes da guarda saíram cinco homens a cavalo, ao encontro do devastado cortejo. D. Nuno tinha dado ordens para se socorrer todos os despojados da guerra, os doentes, os famintos, os idosos, as crianças, as mulheres só ; todos os que tivessem perdido parentes próximos. Acolhem os flagelados os cavaleiros com tão benigna esperança que os seus rostos quase perderam a maceração da tristeza. Quatro idosos e cinco crianças arrumavam-se entre o burel desgrenhado e roto que esparsamente cobria o fundo de uma das carroças. As crianças mostravam nos singelos rostos as marcas de uma fome há muito instalada.


Perguntam-lhe os cavaleiros ao que iam e que rudeza os tinha tolhido para estarem naquele estado. Respondem dois homens ainda novos que as causas dos seus martírios tinham sido os espanhóis, pois tinham maltratado, pilhado e queimado bens de gentes do campo trinta léguas em redor de Alcaidaria da Flor da Rosa, sobrando agora só cinza pelos campos de semeadura. Os espanhóis juntavam-se para aquelas bandas como fogo em seara, gritando que quantos " chamorros" portugueses encontrem a quantos darão fio de espada e a outros tornarão a ferros para seus criados. Ficaram os nossos tão indignados com tão bárbaro e vil procedimento, que se não fosse a conduta piedosa e não blasfema que D. Nuno estabelecera no regimento, ali logo chamariam até nomes aos padroeiros castelhanos. Foram de imediato Antão d'Ávila e Diogo Ganhão, dois dos mais piedosos cavaleiros, ao acampamento buscar víveres de monta, leite de burra para as crianças, burel novo para cobrir a nudez quase plena daqueles sofredores, voltando ainda com um tanoeiro e um abegão para o conserto possível daqueles carros. Ficaram as criaturas tão confortadas com a ração e os desvelos de amizade que passadas algumas horas até pareciam ter visto a nossa Santa Rainha Isabel distribuindo confortos do Céu. Com as forças retemperadas e as carroças mais lestas de rodado, prosseguiram as pobres gentes em direcção a Montemor-o-Novo para refúgio a lar de familiares. Logo ali os dois homens mais novos quiseram dar testemunho de gratidão, pois disseram que pronto as famílias estivessem a salvo voltariam para se alistar nas tropas de Nun'Álvares. Seguiram ainda os cavaleiros aquelas gentes, por algumas léguas, até o caminho ser mais plano e tranquilo. Voltando com o dever cumprido por uma boa e patriótica acção.


Ficou Nun'Álvares muito agradado com este proceder dos seus homens e no fim das piedosas orações da tarde, com o acampamento todo reunido falou a todos do que se tinha passado. " Além dum dever para com as vítimas da guerra, pobres irmãos portugueses, o povo desarmado o que mais sofre, é por actos como estes que se galvaniza a vontade de ajudar o Mestre d'Avis e a forja de vitórias futuras que não deixarão subjugar Portugal".-Disse : enquanto olhos brilhantes em rostos hirsutos se comoviam, enquanto apertavam entre o peito e a loriga uma vontade de aço.

Nun'Álvares voltou ao cimo do monte, passava muitas horas em contemplação, comia com uma frugalidade que espantava os seguidores, dormia pouco, como diziam os mais velhos de pelejas, era um homem novo com o pensar e sensatez dum velho patriarca. Nuno olhou os campos rasos do Alentejo, gostava daquela província, a Menagem de Estremoz divisava-se entre a limpidez do céu azul, parecia ler ali o sinal « Ecce signum salutis» ( eis aqui o sinal) ; era preciso rezar muito à Virgem, transcender-se no amar aos céus. Os baluartes dos antigos Reis assinalavam-se no cumear dos montes, a " Torre dos Três Reis", como lhe chamavam; começada por D. Afonso III, continuada por D. Dinis e terminada por D. Afonso IV, Reis que ali viveram, mais tarde D. Pedro I e D. Fernando seu filho. Passados dois anos de ter sido feito cavaleiro pelo rei D. Fernando e pela rainha D. Leonor, de quem ficou ao serviço no Paço, passou algum tempo em Estremoz, terra formosa e basta de vinhedos cativantes e muita água. Lembrava a torre cujo interior tinha três casas abobadadas em cantaria e escada de caracol tão aparelhada e certa que até ao cimo, passadas as casas, se contavam 125 degraus. Folgava ali muito a rainha D. Leonor ouvindo tangeres de alaúde e ditos poéticos por dois trovadores galegos, as suas aias davam-se a folguedos que a rainha apadrinhava e, tudo riu muito quando um dia uma aia pegou na mão de Nuno e o levou a dança, ruborizando-se ele intensamente. Por muito querer e a rogos de seu pai e sua mãe D. Iria Gonçalves, acedeu a casar-se com D. Leonor de Alvim, tinha agora uma filha de tenra idade chamada Beatriz, a quem muito queria e que estava longe nas terras do Minho.


A rainha dedicava especial atenção a um fidalgo o conde João Fernandes Andeiro, de seu nome, folgava com algum séquito e com ele, em idas às matas vizinhas. E de tantos sorrisos se envolviam que se mormuravam coisas que naquela data não compreendia, mas que agora e desde que se afastara do Paço sabia muito bem serem falta de respeito ao rei e aleivosia pecaminosa. Enquanto não saíu da corte não descansou ; aquele ambiente angustiava-o, as pessoas não eram elas próprias, simulavam amizades pérfidas, moviam-se por interesses, intrigavam permanentemente tentando obter favores ou pensando em causar a perdição de alguém que tomavam por rival. Não obstante ter a sua mãe no Paço, muito respeitada, e seu tio Martim Gonçalves do Carvalhal, como aio, não era a carreira ociosa de caçadas, falcoaria e justas que o motivavam.

Eram os mais fracos e desfavorecidos, os enfermos, as mulheres indefesas, o objécto do seu desvelo e dedicação, assim como a entrega piedosa às orações e às leituras das sagas de cavaleiros que combateram em nome do Santo Salvador Nosso Senhor Jesus Cristo.


(continua)



josé movilha


terça-feira, 5 de Maio de 2009

GUERREIRO, HERÓI E SANTO - III




III

REMINISCÊNCIAS DE UM CORAÇÃO PURO -

COMO SE FORMA A VONTADE DE UM POVO

Atemorizam-se alguns companheiros de Nuno, pois a breve trecho a praia estaria com mais algumas dezenas de inimigos. Dizem a Nuno que mais vale retirarem, vão morrer, impotentes de responderem aos golpes. Quando mais diziam desta intenção, mais Nuno se internava, quase junto à água, desafiando os que desembarcavam. Perante tal ninguém arreda pé, Nuno é o mais denotado, a sua espada refulge como um relâmpago dizimador, os espanhóis tentam cercá-lo, é dali que vem o perigo maior. Parece que Nuno irá sucumbir à mole imensa de adversários, mas que energia Deus providenciou para aquele mancebo ? O braço esquerdo parece inerte, mas ninguém pára a destreza da sua fulgurante espada. Eis que se avista um grupo de cavaleiros a toda a brida, era Diogo Álvares irmão de Nuno e mais oito cavaleiros, de passagem ao flanco oponente derrubam vários homens, crescem as forças dos pátrios. Os espanhóis surpresos e com grandes baixas retiram-se precipitadamente nos botes em direcção à Nau, deixando a rapinagem. Ocorre muito povo das hortas, das muitas vivas ao sagrado se entoou pela praia, Stª Maria !... S. Jorge! Homens, mulheres acercam-se bendito os cavaleiros e o moço Nuno que além da bravura teria tido certamente a protecção da Virgem Santa.


Foi a nova corrida de vivas por toda a urbe de Lisboa e arredores, dando até eco às tripulações dos navios estrangeiros fundeados no Tejo, há muito que os espanhóis mereciam uma lição, mas a nobreza não a dava, El Rei D. Fernando, tão pouco, para não desagradar a Leonor Teles. Este rei que estava a tornar fracas as fortes gentes, monteava em Santarém com um séquito de dezenas de falcoeiros, caçando e folgando em danças no Paço e acedendo cada vez mais aos caprichos da Rainha. Nun'Álvares não tinha nenhum ferimento de monta resultante da peleja ; a cota de malha de que não se apartava quando ia a expedições protejera-o muito. Tinha umas feridas superficiais no braço esquerdo e as carnes pisadas do mesmo lado junto ao ombro, a túnica que ostentava a Cruz Sacra estava praticamente imune de rasgos. Com a modéstia costumeira sorriu às saudações do povo. A tarde desse dia recolhia-se com ele numa oração plena, sozinho no vetusto ladrilhado do abobadado da Capela da Sé, entre a luz das tochas que refulgiam no exemplo da penitência dos Santos. A Virgem Santa parecia olhá-lo com protecção materna e dizer-lhe que em breve chegaria a hora de salvar Portugal.


O vento da tarde desfraldava o estandarte, Nun'Álvares, do alto, entre a capela e as santas figuras bordadas olhava com desvelo os seus homens que se espalhavam pelo acantonamento povoando o formoso vale. A um gesto seu todos ajoelharam na direcção da capelinha e da bandeira. Aquele estandarte iria guiá-los à vitória, a tarde declinava, o crepúsculo mergulhava entre fogueiras que recortavam aqueles rostos duros e determinados, muitos do povo, a arraia-miúda pronta a dar a vida pelo solo pátrio e pelo seu comandante. Ia a Lua Cheia já plena de se mostrar quando Nuno desceu ao acampamento para a frugalidade de uns frutos. Afagou a cabeça de Éolo, o seu cavalo, que amava tanto e que tanto se irmanava nas acções que dele pretendia. A primeira grande batalha estava para vir e com ela o princípio do destino de Portugal



( continua)

josé movilha

domingo, 3 de Maio de 2009

GUERREIRO, HERÓI E SANTO - II



SÃO NUNO ÁLVARES PEREIRA

II

COMO SE DESPERTA A VONTADE DUM POVO -

ATOLEIROS A PRIMEIRA GRANDE BATALHA

QUE SE AVIZINHA


Há muito que cavalgavam quase de dia e de noite, agora que era Fronteiro-Mor do Alentejo D. Nuno não tinha descanso enquanto não corria todas as praças a Sul ; exortando comandantes, falando com soldados, exemplificando no lançar, vendo a tempera dos alfagemes, demonstrando a folga das rédeas, ameigando algum cavalo novo mais largo de passada ; dizendo com pertinência a alguns Governadores indecisos que o Mestre d'Avis é que serviria melhor o glorioso nome de Portugal. Almada, Coina e Setúbal estavam bem fortificadas, mas Nuno pressentia que era mais a Este, não muito longe da raia de Badajoz, nas terras que D. Dinis correra, que se iria dar a primeira grande batalha pela independência ameaçada.


Urgia ir a Évora para demandar notícias às comarcas pelo alistamento de homens, depois a Estremoz para juntar todas as tropas. Antes acamparia no pequeno vale do cerro bravo entre Montemor-o-Novo e Arraiolos. Ali corria um arroio de águas tranquilas entre erva tenra. Homens e montadas descansariam algum tempo, no cimo a pequena capela da Virgem dos Romeiros seria local para todos se recolherem na oração das vésperas.

Chamou o porta-estandartes, o jovem Martim de Paiva, este correu lesto e respeitoso. Quanto altar do divino aquele estandarte, nas efígies representadas, sagrado pendão que servia para nas plagas inóspitas chegar aos céus em oração. Um campo branco com uma cruz vermelha ; num dos lados estava a imagem de Nosso Salvador Jesus Cristo Crucificado, e sua Mãe, e S. João perto dela; no outro lado da ponta da bandeira S. Jorge em sagrada armadura, de joelhos, elevando as mãos em oração; no outro lado S. Tiago na mesma fé; ainda nos quatro cantos da bandeira, quatro escudos de armas de sua linhagem.


Pegou no sagrado símbolo e caminhou em direcção à capela no alto do monte. Os homens olharam-no num misto de respeito, admiração e ternura, aquele homem ainda jovem de 24 anos, aquele nobre moço inspirava tanto exemplo, tinha dado tantas provas que não havia nada que mandasse que não soubesse fazer. Nas lições de armas não havia melhor, montava com segurança, destreza e saber, todas as ordens que dava eram ponderadas e sóbrias, todo o homem de armas via nele um jovem pai, um irmão, um defensor que era o primeiro a ir à liça e, não conhecia o nome retirar. Não mais esmoreceu o feito, anos antes, que todos ainda lembravam, do jovem Nun'Álvares.


Um dia no reguengo de Alcântara ele e alguns companheiros de armas, que não eram mais de dez, corriam uns potros quando avistaram grossa chusma de espanhóis que em barcaças pequenas iam e vinham duma Nau fundeada no Tejo. Arrebanhavam hortícolas, levando e espezinhando milho, apresando aves de capoeira e luzidas uvas que ponteavam em muito pela encosta. Alarveavam-se com muitos risos e prantos rudes, levantando picos e espadas com soez gozo na direcção de uns quantos camponeses que amedrontados se refugiavam impotentes no alto da colina. Ficou Nuno tão agastado com tamanha vilania que logo ali quis desagravar a afronta e castigar fortemente tal gente. Os espanhóis eram perto de quatro dezenas, armados de lanças, espadas e picos, número muito superior aos dez portugueses ( seriam estas as proporções das lutas futuras de Portugal , começadas sempre em desvantagem numérica ), nem isso demoveu o jovem Nuno, apesar de algum temor em seus companheiros de afrontar a liça pela desproporção evidente. Arremete Nuno, à frente dos companheiros, com tanto ímpeto que logo nas primeiras surtidas meia dúzia de espanhóis jaz na areia, os outros refeitos da surpresa, pensam que ainda pelo número vencerão os portugueses, tanto mais que da Nau eram arreados barcos com reforços rumo à praia.

(continua)



josé movilha













sexta-feira, 1 de Maio de 2009

GUERREIRO, HERÓI E SANTO - I

SÃO NUNO ÁLVARES PEREIRA


I
O DESPERTAR DUM POVO
E
O FRONTEIRO-MOR DO ALENTEJO
Naqueles primeiros dias de Março de 1384 o tempo era ameno, no progresso de ganhar léguas flanqueavam-se os campos sentindo-se a maciez e a humidade das relvas sob as patas dos nervosos corcéis. As chuvas dos primeiros meses do ano tinham persistido ao enfeite das terras e os anseios da Primavera mostravam-se em verdes musgos e loendros pujantes que entorpeciam os valados em abraços de aromáticas fragrâncias que os poejais emprestavam. A vetustez do olival abrigava chilreios incontidos, os melros ligeiros saltavam copiosos de se dar ao ramo e o forte do seu trinar despia nas horas as névoas da manhã, anunciando o clarão vindouro dum dia claro.
Por mercê de Nosso Senhor Salvador do Mundo, o negrume e morticínio da peste negra parecia ter abrandado, talvez os céus quisessem com tanta chuva limpar os ares de pestilências tão castigadoras e mortais que para maior temor aos olhos humanos não separavam ímpios de fiéis. Estava-se na Quaresma, mais que em qualquer tempo religioso, mais do que a observância dos ditames dos livros santos, seria preciso uma forte exortação de fé e humildade ao divino para vencer os tempos que se viviam e os que se anunciavam para breve. Os Castelhanos rasgavam o solo pátrio em surtidas sobranceiras e rapinadoras aos escassos bens.
Conturbavam frequentemente as raias fronteiriças apavorando os pobres camponeses, vilipendiando as mulheres, matando os varões que lhe fizessem frente, no mar as embarcações eram apresadas mesmo antes da boca da barra e o Tejo era sulcado de amiúde por Naus com o pavilhão de Henrique II de Espanha. As hostes Castelhanas concentravam-se já em solo nosso, não respeitando fronteiras. El Rei D. Fernando tinha criado severa crise desde 1371, ao faltar à promessa de se casar com a princesa castelhana trocando-a por Leonor Teles, dama já casada com João Lourenço da Cunha, facto que desagradou muito ao povo português. D.Fernando tinha morrido ainda não havia um ano, a Rainha D. Leonor como regente pendia à causa Castelhana, o Conde Andeiro vivia agora maritalmente com a rainha no Paço não evitando os dois pecaminosa conduta à vista de todos. Viviam-se então tempos muito ameaçadores à integridade pátria. O Mestre de Avis D. João, com um grupo de patriotas vai ao Paço e elimina o Andeiro. Leonor Teles pede ajuda ao novo rei de Espanha D. João I, seu genro, casado com a jovem infanta Beatriz. Os Castelhanos preparavam-se para invadir Portugal.
Nun'Álvares Pereira tinha 23 anos, o Mestre de Avis D. João tinha 26, estes dois jovens e briosos homens iriam colocar as suas vidas, as suas forças e as suas espadas inteiramente ao serviço da liberdade de Portugal , nesses dias inconstantes e ameaçadores visitavam de amiúde outro homem mais velho, patriota de sensatez comprovada , o Dr João das Regras, eloquente homem de leis e fama a outros reinos, dos seus preciosos dizeres também se faria a defesa da Portugalidade, pertenciam os três à Casa dos 24, conselho dos mesteirais e patriotas que queriam a independência do reino.
Do gizar da defesa ficou entendido que D. João trataria de arregimentar lanças, peões e besteiros em Praças e campos a norte de Lisboa; João das Regras estudava douta proclamação a apresentar às Cortes; Nun'Álvares custearia a campanha e partiria como Fronteiro-Mor do Alentejo, onde duras batalhas iriam acontecer. Na noite do dia seguinte na Capela do Castelo de Sernache de Bonjardim, entre iluminados brandões que refulgiam o eco das preces na imagem da Virgem e dos Santos Patronos , Nuno pediu a bênção de seu pai Prior do Hospital D. Álvaro Gonçalves Pereira que lhe entregou a espada vitoriosa. Era já vistosa e clareada a alvorada quando Nuno se ergueu do lajeado frio da cripta, ao levantar-se as razões do Espírito Santo fulguraram de luz viva através dos cavos duma seteira, beijando-lhe a efígie num raio pleno até aos pés da Cruz. Uma repetida voz interior dizia-lhe: " serás Condestável do Reino, assim o querem os mais altos desígnios divinos".
Até então , no caminho, não se tinha feito brado verdadeiro da notícia de que Pedro Sarmiento capitão espanhol vinha acometer os nossos com muitas lanças e peões. A ser verdade encontraria-o, pois naquele local marchava já bem dentro das terras do Alentejo. Nun'Álvares fez sinal de paragem e toda a campanha de perto de quatrocentos homens, lanças,besteiros e peões se aquietou. Uma ou outra montada mais nervosa deste estancar quase abrupto, relinchou imperiosa lembrando a génese livre dos prados. Os cavaleiros quase todos montavam cavalos das terras do Ribatejo, filhos do vento, como teria dito Estrabão, nados das manadas selvagens que anarinavam o Tejo na confluência do afluente Sorraia ali bem perto de Coruche. Fortes, leais, resistentes e destemidos, teciam crinas sem jugo na lezíria sem fim. Nun'Álvares montava um soberbo cavalo fruto de cruzamento com égua Berbere, castanho a fugir para o tordilho redondo, um animal na pujança da meia idade, uma estampa de cavalo que talvez nem Gallaaz tivesse de igual quando a pelejas ia.
(continua)

quinta-feira, 30 de Abril de 2009

POEMAS DO AMANHÃ


OLHARES DUM SONHO LEVE
O vento bate à porta
como vagabundo desolado
e tira as penas da alma
aos corpos de sal dado
Frutos, cândidas bagas ensolaradas
pedras luzidas
tropel de juncos dobrados.
E o rio ?... Ah ! O rio !...
Que paixão miraculosa
é o sorriso da brisa,
falua larga
como seios de leite novo
sopros, recados, limos de saia rodada
nudez de altar profanado,
jornada tão áspera e enganosa
forja de fátuos consentidos
menina de viço novo
perdas de tanto juízo;
o Sol ensandece de ser
como corça fugidia
abraçando-se à nova noite
em tragos de poesia
percursos, estágios, trilhos,
outros sozinhos
mãos que de nome
renascem pelos caminhos,
olhares , bateira de flores lassas
velame prenhe de luz
postigo em vasa domada
ondas de nova Cruz.
josé movilha

quinta-feira, 23 de Abril de 2009

DIA MUNDIAL DO LIVRO


O Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor, comemora-se hoje, 23 de Abril.
Desde 1995 que, por iniciativa da UNESCO se celebra em todo o mundo a lembrança do livro e o prazer da leitura.
Leia !... Leia sempre !
Autores nacionais e estrangeiros.
O prazer da leitura é único e inestimável.


josé movilha

quarta-feira, 22 de Abril de 2009

POEMAS DO AMANHÃ




JANELA DE LUA NOVA
Recordo-te com inconformado voto
e peço à Lua, às estrelas,
uma concha nacarada cor das tuas carnes.

É que, sei lá!... O que terei que percorrer
para encontrar o ramo ; que as tuas flores
estão no jardim de Circe,

só posso colhe-las
quando as miraculosas aves
evitarem a mandrágora.


Tu sabes que o grito de desflorar
é igual ao estertor da cicuta,
meimendro novo e vozes de fogo lento,

quem dera que te perfumasses de açucenas
e cândidos lírios,

que te adornasses da maciez do centeio novo
acendesses um candelabro de estrelas
a cada reflexo do teu olhar,


um calor de corpo
como o êxtase das Santas

um drapejado de capela
círios perpétuados em dossel cor dos Anjos


orvalho de cada aurora de querer,
um rubro de lábios
a cada ciciar perdido


uma nesga de campanário
que seja viver amor.








josé movilha / fot. de C.P.C.



quinta-feira, 16 de Abril de 2009

SOEIRO PEREIRA GOMES - CENTENÁRIO DO SEU NASCIMENTO




SOEIRO PEREIRA GOMES nasceu em Gestaçô, concelho de Baião, na dureza da serra do Marão, a 14 de Abril de 1909. A sua infância foi passada no meio rural. Tirou o curso de Regente Agrícola e aceita o seu primeiro emprego, na prática do curso que tirara, na Companhia de Catumbela, em Angola, para onde seguiu nos fins de 1930. O clima e as más condições de trabalho causam-lhe transtornos a ponto de adoecer, vendo-se forçado a regressar a Portugal passado um ano (1931). Fixa residência em Alhandra, onde se torna empregado na fábrica de Cimentos Tejo, hoje Cimpor.
Liga-se aos movimentos operários da sua época ( ao PCP, em particular) , começa a escrever várias crónicas de oposição ao regime ditatorial . As primeiras aparecem, todas sem título, no Jornal o Diabo, entre 1939 e 1940. São poemas em prosa, não muito extensas, escritas sob a impressão forte de um idealismo que já faz supor o seu futuro percurso pessoal. Soeiro Pereira Gomes foi com Alves Redol ( esse grande escritor marcante do movimento Neo-Realista) , um dos iniciadores deste movimento em Portugal. O seu romance " Esteios" ( 1941), sem dúvida o mais significativo e , aliás, o único publicado em vida, evoca com extrema acutilância a exploração social e o sofrimento das crianças e adolescentes trabalhadores dos canais nas margens do Tejo, parcos de brincadeiras e vagabundagem alegre nas ruelas da vila.
A narrativa de " Esteios" situa-se nos fins da década de 1930, princípio da década de 1940. Período conturbado na vida nacional em que a oligarquia dominante intensifica o seu controle político. Crescem com esse beneplácito grandes grupos monopolistas, agravando muito as condições sócio-económicas das massas laboriosas já sofredoras da repercussão da Guerra Civil Espanhola e do conflito latente da Segunda Guerra Mundial. É pois, a génese desta crise que inspira o autor à narrativa dos " Esteios".
Ler ou reler " Esteios" é cada vez mais, nos dias de hoje, uma acção de reflexão e lucidez.
A acção inicia-se em Setembro, mês que assinala o fim da produção no telhal de Zé Vicente, local em Alhandra nas margens do Tejo, onde a área de fabrico de tijolos se compunha dos esteios, tanques ribeirinhos onde era retida a nata barrenta posteriormente transportada para o grande tanque de massas onde era tornado barro. Os barcos de transporte de lenha para a cozedura aportavam numas reentrâncias junto aos tanques. Um engenho accionado manualmente transformava as bolas de barro no formato quadrangular dos tijolos; depois empilhados par uma pré-secagem, eram posteriormente levados para os fornos de cozedura. Cozidos eram depois empilhados junto ao portão de saída para serem vendidos aos construtores. É neste cenário que o autor dá vida aos pequenos heróis da história: Sagui, Gineto, Malesso, Gaitinhas, Maniqueta, crianças que temiam sorrateiramente Má-Cara e Zarolho, os capatazes. Crianças que tiveram uma entrada prematura no mundo adulto do trabalho, devido às débeis condições económicas das respectivas famílias. Com as primeiras chuvas o ciclo de produção terminava, e os pequenos heróis iam em busca de um pequeno mundo de sonhos. Com os seus magros tostões demandavam a feira da vila, espaço lúdico onde o sonho se converte, ainda que por instantes, em realidade. O Tom Mix herói das fitas de cinema, as incursões aos pomares, os encontros com a Doida, mulher estranha, vagabunda, mãe/amante que um dia subitamente desaparece sem deixar rasto.
Depois é o dia esmolar ( Dia de Todos os Santos) , " O Pão por Deus" ; o acaso; o pequeno furto sem consequências ou a actividade esporádica, como sucede a Gineto que trabalha no pequeno barco do pai e assume o estatuto de homem perante os amigos. Um novo amigo vem engrossar o bando: Gaitinhas, que tivera de abandonar a escola e os sonhos de vir um dia a ser doutor, devido ao desterro político de seu pai e à doença de sua mãe Madalena. Com a chegada do Inverno, a situação dos garotos e das suas famílias detiora-se progressivamente. As cheias do Tejo e os temporais intensificam a miséria quotidiana, perante a indiferença dos grandes senhores. É neste ciclo de quatro Estações que o texto se constrói, estações que são cronómetro metafórico da articulação entre o meio humano e a natureza. Cada uma das Estações, subvidida em capítulos e estes em cenas, manifesta um ritmo diferente de acordo com as mudanças da natureza e a sua interacção com os actores sociais.
Soeiro Pereira Gomes, extraordinário e promissor autor literário, teve uma vida breve, morreu com 40 anos. Foram publicados postumamente o conto "Refúgio Perdido", (1950), o romance, "Engrenagem" (1951), "Perdido e outros contos" (1975).
OBRAS SOBRE A PRODUÇÃO DE SOEIRO PEREIRA GOMES :
Augusto da Costa Dias, literatura e Luta de Classes - Soeiro Pereira Gomes, Lisboa, ed. Estampa 1975 ; Adolfo Casais Monteiro, " Soeiro Pereira Gomes e o mundo da infância", in o Romance ( teoria e Crítica) Rio de Janeiro, Livraria José Olympio, Ed. 1964 ; Álvaro Pina, Soeiro Pereira Gomes e o Futuro do Realismo em Portugal, Lisboa, Ed. Caminho,1977 ; João Gaspar Simões, " Soeiro Pereira Gomes - Esteios", in Crítica III, Lisboa, Delfos, s/d.
josé movilha

quarta-feira, 15 de Abril de 2009

GIACOMO CASANOVA, O PRAZER DA EVASÃO


Lembrar Praga é lembrar Casanova na sua passagem para Duchkov, o castelo dos Wadstein, no qual, durante treze anos, Casanova desempenhou o papel de bibliotecário. Lá em cima na estrada da Alemanha para Dresda, perguntar-se-á o que quer dizer Duchkov é a " aldeia dos fantasmas". A aldeia tem um belo castelo barroco ocre e branco, ladeado por um igreja. Pelo ambiente Casanova se prolongasse a existência leria mais tarde com deleite " Preparativos para Um Casamento no Campo" - de Kafka. Giacomo manteve aqui, mas por tempo breve, uma aventura um pouco confusa com uma jovem camponesa da região que, segundo ela para o servir, entrava a toda a hora no seu quarto. A rapariga fica grávida, desconfia deste homem bizarro que outra coisa não faz senão escrever e contar-lhe uma história do que é o prazer da fuga da evasão. Hoje numa divisão mal iluminada. Um manequim de cera vestido "à século XVIII", com peruca. Está a escrever, pena de ganso na mão, debruçado sobre uma secretária cheia de papelada. é ele! Casanova! O fantasma do castelo!

De vez em quando olha as montanhas , os extensos campos de faias e bétulas, a Igreja de Santa Bárbara, enterraram-no em alemão, é o que diz a placa: "JACOB CASANOVA , VENEDIG,1725, DUX,1798 - jacob por Giacomo, Venedig por Veneza. Casanova foi enterrado em alemão.

O prazer da evasão da morte anunciada é menos intenso do que o prazer da fuga dos Piombos. Desde Julho de 1755 a Novembro de 1756, 15 meses, cinco estações de inferno. Tratou-se de uma prova física e moral muito dura. Vive rodeado de ratos, comido pelas pulgas. A sua primeira atitude, aferrolhado sem comer nem beber, é manter-se de pé, apoiado a uma trave, durante oito horas seguidas, sem falar. O tecto é de chumbo( daí o nome Piombos), o calor é terrifico no Verão, o frio glacial no Inverno. Resistir, sem dúvida, mas como? Pelo pensamento. Primeira constatação: « Penso que a maior parte dos homens morre sem ter pensado.»

Continua a escrever:

« Reconheci que um homem fechado, sozinho, sem qualquer possibilidade de se ocupar de nada num local onde a escuridão é quase total, onde não se vê, nem pode ver se não uma vez por dia quem lhe traz de comer e onde não pode caminhar direito, é o mais infeliz dos mortais. Ambiciona o Inferno, se acredita ou não, para ter companhia. Lá dentro cheguei a desejar a companhia de um assassino, de um louco, de um doente fétido, de um urso. A solidão nos Piombos desespera; mas para o saber é necessário passar por essa experiência. Se o prisioneiro for um homem letrado, a quem dêem uma secretária e um papel, a sua infelicidade diminuirá em nove décimos.» Um dia a cela treme, uma trave vacila. Trata-se de um tremor de terra, na realidade o de Lisboa de 1 de Novembro de 1755. Por momentos Casanova acredita que o palácio dos Doges se pode desmoronar, que pode ter o prazer se ser livre no meio dos escombros.

Pede que lhe dêem qualquer coisa para ler. Dão-lhe " La Cité mystique de Soeur Marie de Jésus d'Agrada" ( seria o mesmo que dar hoje alguns livros de Henry Miller a um cónego de aldeia).

O seu protector Bragadin, a quem salvara de um ataque ocasional de apoplexia, consegue com uma bolsa de soldo cativante toldar as vistas dos guardas.

Os limites da madeira cedem ao rude instrumento cortante, A 23 de Agosto Casanova atinge a zona por baixo da sala dos Inquisidores. Subitamente a 25 é mudado de cárcere, vai mais para cima onde consegue avistar o Lido. Aqui tem por companhia, na cela ao lado, o irmão Balbi, um monge. Casanova faz da unha do seu dedo mindinho uma pena improvisada, tenta escrever com sumo de amoras que o monge recebe. Trocam alguma correspondência secreta no interior de uma Bíblia, aprontam planos para a fuga. A grande noite chegou. O irmão Balbi puxa Casanova através do soalho da sua cela. O telhado, em cima, está aberto. São oito horas da noite. Giacomo sai, vê a Lua. Demasiada luz. As pessoas que se passeavam na Praça de S. Marcos iriam vê-los. Seria melhor agir com mais escuro. Casanova tem tudo preparado: lençóis, peças de roupa, colchão é especialista em nós de tecelão.

No prazer de evasão, ainda muito a seu género, aproveita para escrever uma carta muito insolente aos Inquisidores que termina, com mão de mestre, por um versículo do salmo 117 da Bíblia: « Não morri, viveria e cantaria os louvores do Senhor.»

Ainda tem a ironia de precisar, nesse Outubro de 1756: « Escrito uma hora antes da meia-noite, sem luz.»

Passariam muitos anos para voltar de novo a Veneza.


josé movilha

quinta-feira, 9 de Abril de 2009

AS SETE VIAGENS DE CHENG HO - III


SEXTA VIAGEM (1421-1422)

A sexta viagem foi empreendida na Primavera de 1421, e visitou o Sudeste da Ásia, Índia, Golfo Pérsico e África. Até esse momento a África era considerada pela China um local de grande interesse exploratório. Cheng Ho regressa em finais de 1421, mas o resto da frota só chegou em 1422. Entretanto o Imperador Yung Lo morre em 1424, seu filho tornou-se o Imperador Zhu Gaozhi. Tem uma nova visão sobre os descobrimentos, crendo que uma ideia de abertura ao exterior é contrária às práticas da modéstia Confucionista. Cancela futuras viagens e nomeia Cheng Ho comandante militar de Nanquim.
SÉTIMA VIAGEM (1431-1433)
Passam nove anos, o Imperador Zhu Gaozhi morre com a idade de vinte e seis anos; seu filho e neto Zhu D'is Zhu Zhanji Zhu Gaozhi toma o seu lugar. Este novo Imperador com o nome de Zu Zhanji retoma o entusiasmo pelas grandes explorações marítimas. Investe novamente Cheng Ho nas funções de Almirante. Esta viagem tem por fim restabelecer relações diplomáticas com os reinos de Malaca e Sião. Esta viagem levou um ano a preparar. é constituída pelo maior número de navios de sempre: 100 navios e 27.500 homens. Há indícios de que uma parte da frota alcançou a Austrália, isto tem como base os vestígios arqueológicos encontrados , muitos artefactos de marca chinesa e lendas ancestrais dos aborígenes.
O grande Almirante Cheng Ho morre em 1435, pouco depois da sua última viagem, depois de ter sulcado os mares em mais de 50.000 km. Existe ainda hoje uma Estela no Sri Lanka escrita em chinês, persa e tamil, que documenta a visita de frota chinesa e atesta o respeito pelas três religiões: Buda, Alá e Vishnú. A relevância das explorações não terem um fim bélico, mas sim uma intenção exploratória, científica e diplomática com mais de 35 países, mostra um elevado grau de maturidade civilizacional. Foram tomados elementos cartográficos preciosos, mapas que projectaram o homem para um outro conhecimento do mundo.
Cheng Ho foi enterrado em Nanking com grandes motivos de homenagem. O seu túmulo foi restaurado em 1985, é uma preciosid